A moral do mural ou Uma resposta à moral pública de Fernanda Câncio

A Fernanda Câncio, num post já comentado pelo camarada Tiago e num outro anterior, veio, uma vez mais (já chega, já sabemos!) colocar a nú as supostas contradições e o suposto oportunismo politico do PCP. A f. (minimal e exótico, by the way, embora nao muito original) já antes tinha afirmado que achava o PCP uma coisa anacrónica, desinteressante e as ideias deste partido um bocado tolas e assumiu, claramente, que o desconsidera porque ela acha que deve ser desconsiderado.

Peço desculpa desde já por não linkar os postos “efianos”, mas tenho preguiça. Mais ou menos da mesma que levou a Fernanda,  num destes posts, a assumir a ignorância sobre o que é a CNES da JCP. (Basta escrever “CNES” e “Juventude Comunista Portuguesa” no Google para chegar à definição- e logo na primeira página). A minha desculpa é que sou um recém-pai que faz isto por carolice, quando o puto adormece antes das 3 da manhã. Tendo a profisão da menina em causa como centralidade a procura de informação, nem sequer quero imaginar a desculpa que ela poderá arranjar…

Poderia continuar por aí adiante com as parvoíces da Fernanda, como aquela de que o PCP só agora se apercebeu que existem abusos policiais (meu Deus, como é possível tanta lata!), mas acho que a menina f levanta (provavelmente, de forma inadvertida) uma questão interessante para o debate do que é hoje o espaço publico e a intervenção politica neste mesmo espaço.

Nas suas multiplas desconfianças, a jovem em causa chama a terreiro constitucionalistas (bastante) comprometidos com o PS para levantar duvidas sobre o acordo do Tribunal Constitucional sobre esta matéria e leva o debate para o campo estéril da legalidade e da pertinência deste espaço ser publico ou privado. Mais ainda, coloca duas pichagens num monumento classificado como prova de que as coisas não podem ser assim, de que nem tudo pode ser permitido no campo das pinturas murais.

Ora bem, tudo isto soa-me a um reaccionarismo purista de principios do século passado que teve a sua expressão máxima nos desenhos puristas de higienismo fascizante de controle estatal e auto-controle social das cidades de então.  O burocratismo castrador da época também fazia finca pé na legalidade, no respeito da propriedade privada e numa suposta peocupação pela saude (nao apenas fisica, mas também mental) dos cidadãos. Palavras como dignidade urbana, monumentalidade, símbolo arquitectonico foram usados, à direita e à esquerda, para oprimir e reprimir a livre vontade e expressão (melhor dizendo, expressões na sua condição multipla e diversa) dos cidadãos desalinhados.

A condição mestiça, hibrida, impura, indefinida das cidades e dos seus habitantes era criminalizada e ostracizada socialmente. Imigrantes, negros, homossexuais, prostitutas, bandidos, operários e contestatários eram encarcelados nos seus guetos sociais e politicos e vistos com desconfiança pela moral dominante, pela moral do poder politico, económico e religioso.

O mural, a pichagem assume assim um caracter de poluição provocadora a esta moral, um ruído inquietante. Um acto revolucionário de exprimir as ideias, o desespero, a afirmação dos esquecidos (e dos escondidos) da sociedade.  E quando falo de carácter revolucionário nao me cinjo às caracteristicas partidárias das suas mensagens (embora também as considere importantes), refiro-me também aos afro-descendentes de 2ª, 3ª ou 4ª geração que assumem uma identidade própria e a expressam desta forma, falo de artistas plásticos que não tendo possibilidade de entrar em circuitos comerciais de galeristas ou estando fartos destes ou apenas num acto de generosidade extrema com a vida publica, embelezam paredes das nossas cidades, vilas ou conurbações ou apenas a vontade de um cidadão que pintou um dia um pensamento que queria partilhar com quem por ali passava.

O próprio acto de pintar uma parede da cidade é  um acto politico extremo, radical (seja ele consciente ou inconsciente) de tornar menos nitidas as fronteiras entre o publico e o privado numas aglomerações urbanas cada vez mais constituidas por clusters funcionalizados e encerrados sobre si. É este sentido de desvio recorrente e persistente, de marginalidade assumida, de rebeldia construida que encontramos no acto  politico de pintar paredes.

Como muito bem assinalou Georges Teyssot: “o habitual, confortante na segurança garantida da proximidade das coisas e pessoas, perverte o olhar. A supressão do habitual é portanto um poderoso, perigoso momento de conhecimento”

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24 respostas a A moral do mural ou Uma resposta à moral pública de Fernanda Câncio

  1. por amor de Marx
    e não sofreis do mesmo síndroma?
    o habitual, confortante na segurança garantida da proximidade das coisas e pessoas

  2. Rafael Fortes diz:

    Tento que nao.

  3. quem tem paredes de vidro não atira actos revolucionários às paredes do vizinho

    e os 8 milhões de Guimarães capital da cultura os 200mil para a presidente e senhas de presença de 300 a 500 euros consoante a indignidade da personagem

    são muito mais preocupantes que a brutalidade policial

    que existiu desde sempre em estados marxistas em democracias populares ou com falta de popularidade
    e é da natureza humana olhar para o que é estranho

    como perigoso ou desprezível

    vocês blogueiros são tão previsíveis nos vossos chavões

    vagos e repletos de significados consoante o observador/leitor

    é mais ou menos como os programas partidários
    ou a definição dos objectivos educacionais
    no fundo sois todos peças burocráticas
    tendes os chavões nas almas

  4. Xico diz:

    Por favor deixem lá essa senhora em paz. Porque razão lhe reconhecem valor que ela não tem? Não vos passou pela cabeça que é isso mesmo que ela quer?
    Para ser notava(como é pequenita, tem medo que a calquem!!!) faz tudo e mais alguma coisa e nós…burros, fazemos o favor à dita. Que vá “namorar” com outro colunável ou que dispute a liderança do movimento das virgens com a outra débil!!!

    • antónimo diz:

      que relevância tem o namoro dela para a questão. parece-me que não precisa disso para ser criticável. Não são um binómio como o gnr-animal. é uma questão lateral que apenas desvia a conversa

  5. Xico diz:

    Linha 4: “Para ser notada …. “

  6. lingrinhas diz:

    essa da liberdade para cagar as paredes que os outros mandam pintar feita á sombra de ser cultura basta olhar para os comboios para perceber.e já agora sobre a carga” policial” que mal faziam os metalurgicos no pavilhão carlos lopes para a mando dos esbirros do pcp levarem uma carga de porrada da policia militar?

  7. antónimo diz:

    É normal que a cânciozinha com o seu umbigo do tamanho de uma tampa de panela de cantina diga que o pcp só agora acordou para a violência policial.

    Então se a menina considera deontologicamente informativo não lhes ligar – e achar que não os vai ouvir por não gostar deles…

    É só uma jornalista no que aquilo que a profissão tem de modelar. Aproxima-se bastante do ideal platónico da coisa: Presunção, preconceito, enviesamento, narcisismo e ego monstruoso.

    Até posso concordar em linhas gerais com muito do que ela defende (o comunicado do pcp sobre o nobel da paz não é defensável) agora a pessoa pública parece reunir em si demasiados aspectos negativos. O artigo dela também não é defensável e faz a defesa de uma coisa que não é jornalismo em lado nenhum do mundo, lançando com o peso da respeitabilidade de uma auto-proclamada aristocrata da classe uma nova categoria deontológica. “Sou jornalista, mas só falo dos partidos e movimentos que me apetece, esquecendo o pluralismo, o contraditório a audição das partes atendíveis, e essas miudezas que não interessam nada”

  8. antónimo diz:

    Ontem um fiscalista Tiago Caiado Guerreiro dizia que o FMI cortará acumulações de pensões e as pensões milionárias obtidas de forma estranha como na CGD e acumuladas com salários.

    Apesar do Borges e da Barbot do Rollo Duarte, já era um bom resultado da entrada em Portugal do FMI

  9. Carlos Vidal diz:

    O teu texto é muitíssimo certeiro, Rafael, e oportuno. E creio que, se possível, o PS (assim é o nome da coisa) muito gostaria de “caçar comunistas”, na prisão ou comprando-lhes dissidências e bom preço. Se possível, disse eu, até porque essa coisa não foi criada para outra finalidade.

    Quanto à Câncio. O que eu penso é o seguinte: a infeliz personagem está numa tão grande e pronunciada decadência, a todos os níveis, está tão desacreditada e degradada que já está naquela fase sem escrúpulos, “perdida por cem perdida por mil”. Não creio que se respeite a si mesma.
    Não tarda nem críticas de espécie alguma lhe serão dedicadas.
    Mas este teu texto é certo e no momento certo. Ela ainda mexe.
    Abraço.
    CV

    • Rafael Fortes diz:

      Certeiro tambem o teu comentario, Carlos. A caça, nao só aos comunistas, mas a todo tipo de activistas que possam pensar diferente tem vindo a crescer na Europa. Triste sinal dos tempos quando os algozes despem as suas máscaras de democratas.
      Abraço
      Rafael

  10. É como dix o Xico, essa fulana só tem a importância que vocês lhe dão.

    Portanto proponho-vos outro assunto, carpe diem que hoje é domingo, e isto estreou cá no burgo há 2/3 dias, vou a 3/4 da ‘coisa’:

    Ondine (2009)

    Realizador : Neil Jordan

    Locais de filmagem:

    Bere Island, Beara, County Cork, Ireland

    Castletownbere, Beara, County Cork, Ireland

    Dursey Island, Beara, County Cork, Ireland

    Puleen Harbour, Beara, County Cork, Ireland

    Actores: Colin Farrell (Syracuse/Circus), Alicja Bachleda (Ondine) , Dervla Kirwan Maura, Syracuse’s ex), Alison Barry (Annie, Syracuse’s & Maura’s daughter)…

    Thanks for the backgroun d info, Grady> .

    According to the dictionary an ‘ondine’ is a water nymph or water spirit, the elemental of water.
    They are usually found in forest pools and waterfalls.
    They have beautiful voices, which are sometimes heard over the sound of water.
    According to some legends, ondines cannot get a soul unless they marry a man and bear him a child.
    This aspect has led them to be a popular motif in romantic and tragic literature.
    Another bit of background information that aids the viewer of this little rarity of a film, ONDINE, is the bit of folklore often referred to in the film – that Ondine is a ‘selkie’: In Irish folklore, there are many stories about creatures who can transform themselves from seals to humans.
    These beings are called selkies.
    The seals would come up onto rocks or beaches and take off their skins, revealing the humans underneath.
    There is no agreement among the stories of how often they could make this transformation. Some say it was once a year on Midsummer’s Eve, while others say it could be every ninth night.
    Once ashore, the selkies were said to dance and sing in the moonlight.
    One of the most common themes found in selkie folklore is romantic tragedy.
    Selkie women were supposed to be so beautiful that no man could resist them.
    They were said to have perfect proportions and dark hair.
    They also made excellent wives.
    For this reason, one of the most common selkie stories is that of a man stealing a selkie woman’s sealskin.
    Without her skin, she cannot return to the sea, and so she marries the human man and has children with him.
    She is a good wife and mother, but because her true home is in the sea, she always longs for it.
    In the stories, she ends up finding her sealskin that her husband has hidden, or one of her children unwittingly finds it and brings it to her.
    According to legend, once a selkie find her skin again, neither chains of steel nor chains of love can keep her from the sea.
    She returns to the ocean, usually leaving her children behind with their grief-stricken father.

    All of this information may seem redundant, but when a beautiful little film such as ONDINE, written and directed by the always excellent Neil Jordan, knowing the background helps support the manner in which the story is told and revealed.

    Por uma vex estou em desacordo com o João Lopes, cujas opiniões tenho em estima.
    Não axo nada que isto tenha sido feito à pressa e que seja um relativo fracasso.
    O que acontece é que não é para todos.

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    Também faço minhas as palavras deste outo gajú:

    I respond well to movies with honesty and heart, and Ondine has plenty of both.
    Set in an Irish fishing town, you can also feel the love and respect of the filmmaker for the rugged and beautiful setting.
    The performances are excellent, with especially good work by the the young Alison Barry playing the part of Colin Farrell’s daughter, who suffers from kidney failure and must undergo regular dialysis (reminded me of the early work of Dakota Fanning).

    The film’s “feel” is a bit darker than I expected, making the injections of wry Irish humor in Colin’s confessions to the priest (played by Stephen Rea) even more enjoyable.
    The script keeps you wondering until very near the end, “Is this really a modern fairy tale, or is there a more earthly explanation?”
    The soundtrack is appropriately plaintive, with songs by Lisa Hannigan and others.
    I definitely plan to buy the soundtrack.
    Because this film is low-key and thoughtful, it probably will not receive the attention from audiences it deserves.
    But serious moviegoers should take the time to watch, enjoy and appreciate.

    “The truth is not what you know, but what you believe”.

  11. Vítor Dias diz:

    Caro Rafael Fortes:

    Sinceramente, se se quer conservar algum tino
    e alguma superioridade na argumentação, então
    não é admíssivel a publicação de comentários como
    os de «bolota» e «helder» .

  12. António Figueira diz:

    Please, Rafael,
    larga por dois segundos a mão q embala o miúdo e limpa-me tb esse maumaria, isto assim não dá…

    • Rafael Fortes diz:

      nao é q goste de usar a esfregona, mas o comentário eliminado tinha uma indole homofobica e o anterior apelava a “acçao directa”.

  13. Abilio Rosa diz:

    A madame f., é a madame do frívolo, do fútil, do boçal, do banal, do foleiro.
    É bem representativa do «caldo cultural» que é cartaz do «sucialismo socretino» vigente.
    É uma madame mal amada, angustiada e desnorteada com a debâcle do seu mundo de ilusões e de utopias esotéricas.
    Um caso clínico.
    Nós, os bolcheviques, sabemos muito bem tratar dessas doenças do corpo e da alma!

  14. Ana Paula Fitas diz:

    Caro Rafael,
    Vou fazer link.
    Um abraço.

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