Foi-se com o Bieito (III): o que não se pode dizer

A censura é um bicho feio

A visita de Ratz, para além de um despropósito económico, esta-se convertendo num paraíso para aqueles que tinham saudades doutros tempos mais felizes (para eles). O arcebispado de Compostela (que deve achar que os da Spectra, dos filmes de Bond, eram uma cambada de meninos de mama) não só pede dinheiro por carta aos empresários como também durante as missas, a golpe de 10 euros per cápita freguesorum, para sufragar o dinheirão da visita. O problema, como já vimos, é que o estado espanhol e o governo galego (e portanto todos os cidadãos, independentes do credo que tenhamos) tiram de notas de 500 para organizar a festa. Para que precisa então o dinheiro o arcebispiado? Pois suponho que para todos os processos de censura que tenham que iniciar, que a gente anda completamente enganada e até pensa que podem criticar a vinda do pastor alemão.

Começou com um artigo de Fran P. Lourenzo no jornal “Galicia Hoxe”, editado na versão em papel e eliminado depois na edição virtual por intervenção do arcebispado. Deixo cá um blogue no qual aparece o texto maldito (em português do norte, esperando que não seja de muita dificuldade para os galegos do sul). No artigo, Fran P. Lourenzo aponta o dedo para os efeitos que vai ter a visita do Ratz para nós e para eles.

“Haverá mais efeitos colaterais no decorrer desta visita fetichista e pirotecnia do Papa. A suspensão do espaço civil, a clausura da livre circulação e o desenvolvimento de um estado de sitio efectivo, entre eles. Controis policiais, restrição do tráfico e registos domiciliares, incluídos, que afectarão singularmente a todas e todos aqueles cuja vontade será prejudicada em aras de um crédito político que, com isso contam os organizadores do sarau, beneficiará a todas as pessoalidades que tenham aceso à fotografia oficial.”

Isto sobre a censura “pública”, vejamos agora um curioso exemplo de censura privada. A revista Retranca esta-se a converter numa das publicações de banda desenhada humorística de referência. O seu carácter alternativo e corrosivo e a qualidade dos seus desenhadores fazem dela um pequeno tesouro bimensal que procurar nos quiosques. O número 28 (Outubro-Novembro) levava tempo sem aparecer nas bancas. Esta semana soubemos o motivo.

A imprensa Jiménez Godoy, unha vez feita a impressão, negou-se a entregar a tiragem à distribuidora, alegando desacordo moral com os conteúdos da mesma. Assim, a empresa de carácter privado decide não cumprir o contrato com a revista (pelo que suponho que se enfrentará a uma demanda, no mínimo). A mim isto lembra-me a algo que ouvira numa ocasião sobre uma comida familiar de um monte de pessoas, que se reuniram durante um feriado para ir visitar ao filho mais velho e que estudava na Galiza. O miúdo fica encarregado de organizar o almoço e liga ao Assador Castelhano para reservar uma mesa para umas 10 pessoas. Depois de lhe explicar ao gerente que são (nada menos) que dez e que vão querer grandes quantidades de assado (que não é barato) o homem do restaurante respondeu-lhe indignado antes de lhe desligar na cara “Pero hombre! Que es viernes de páscua!!

Mas estas coisas (sobre todo o da revista, que já enviou o seu número a outra imprensa e que o acontecido lhe vai servir de boa publicidade) só servem de prólogo para o que nos vem acima. Como advertia Fran P. Lourenzo: “registos na rua e nos domicílios, abusos, etc…”. Muitos vizinhos pretendem receber ao Papa com bandeiras que mostrem o seu descontento. Veremos como acaba a coisa…

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4 respostas a Foi-se com o Bieito (III): o que não se pode dizer

    • LAM diz:

      Ora pois, nada que não tivesse acontecido também na visita a Portugal. Liberdade de circulação e liberdade de expressão colidem com o “estado de sítio” decretado por esses dias. Vale tudo para não incomodar sua santidade nem, principalmente, nenhuma imagem que alguma televisão inadvertidamente venha a captar. Há um produto para vender que não pode ser manchado por qualquer pano menos simpático numa janela, ou que apenas e ligeiramente subverta o protocolo acordado.

  1. O que seria da Galiza sem São Tiago?
    O que me aborrece é que a juventude de hoje não seja religiosa ou não tenha qualquer tipo de espiritualidade. Who f***** cares, anyway? O que me encanita verdadeiramente é que uma grande parte das pessoas como o António Mira, falem de cima da burra e não pesquem absolutamente nada sobre temas em concreto. Dominam a arte do contrismo, o discurso da certeza e da verdade, sendo que fora da sua opinião, não existe mais nada.
    São como alguns grafiteiros: picham e escrevem por estilo. Mas se lhes pedirem que expliquem as frases com que enchem as paredes, ficam acabulados. E isso é que é verdadeiramente triste. É esta geração que quer dominar o Mundo? Estamos bem arranjados…

  2. Antonio Mira diz:

    O Nuno Resende consegue uma série de combinações argumentativas no seu comentário que me deixam completamente desarmado.

    Acha que a juventude de hoje em dia já não é o que era e que não seja religiosa ou espiritual. Pareceu-me deduzir que me inclui entre os tais. Depois afirma que não pesco sentado acima da burra e diz que domino a arte de discurso da certeza e da verdade e que acho que fora da minha opinião penso que não há nada. Por se fosse pouco, diz que não explico as minhas frases e me acusa de megalomania. E por tudo isso fica triste, encanitado e aborrecido.

    Evidentemente, o Nuno Resende anda um bocado confuso.

    Assim, para não dar maior importância ao caso: 1.- A minha espiritualidade é minha e não a tenho trazido nunca a estas postas. Dela, o Nuno Resende sabe pouco ou nada. Fazer conclusões sobre ela é cair no falabaratismo. O mesmo com o que pesque ou deixe de pescar. 2.- A posta fala sobre casos de censura pela visita do Papa e faz referência a uma posta anterior na qual se menciona o dispêndio excessivo por parte do governo galego para o evento. 3.- Acho que já tenho deixado exemplos em textos anteriores (e na minha apresentação nesta sala) que não carrego muitas certezas e que não tenho reparos em dialogar nos comentários e até explicar e matizar as postas. Mesmo para as pessoas que vão lá procurar o que querem. 4.- Prisciliano, provavelmente. E, no caso, que seria da Europa sem Santiago e o seu caminho?

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