O corpo só é livre quando a alma não é escrava!

Tenho mantido o silêncio, a prudência da ignorância, sobre a polémica que o Sérgio lançou a propósito da iniciativa do PCP em ilegalizar a publicidade ao mercado do sexo. Do que fui lendo tenho apenas a acrescentar que a proposta é duplamente disparatada, pois favorece quem pode dotar o seu negócio de espaço comercial e prescinda da via directa para o consumidor. O Elefante Branco e a Dona Rosa, agradecem.

Por tudo o que foi dito devemos concluir que o corpo, em algumas circunstâncias, pode ser uma ferramenta de trabalho, mas é importante ter claro que isso só é uma opção feita em liberdade em casos residuais.

Ao contrário do que diz Paco Vidarte, citado aqui pelo Paulo, não é verdade que o corpo seja a única coisa incompatível com a propriedade privada e com a circulação do capital. Ao contrário. O corpo, seja no veludo da fábrica seja na dureza da cama, será sempre a grande vítima da falta de escolha em matéria de trabalho.

Para provar que o direito ao cú é antes de mais um privilégio de classe, deixo dois filmes obrigatórios:

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28 respostas a O corpo só é livre quando a alma não é escrava!

  1. António Figueira diz:

    Falas sobremaneira verdade, ó Renato.

  2. toulixado diz:

    Ainda estás a pedir para este peditório?

  3. josé martins diz:

    Já era tempo de se perceber que não há propriamente uma iniciativa do PCP para a AR legislar mas sim a proposta de uma resolução.

    E ainda era mais tempo de se perceber, até já foi escrito neste blogue na proposta do PCP não há nenhuma intenção de ilegalizar a publicidade ao mercado de sexo mas apenas aquela se refere à angariação de mulheres por redes de exploração de prostituição.

    E se o Renato lesse o documento autªêntico em vez escrever por ouvir dizer ?

  4. Renato Teixeira diz:

    Ora António. O Paulo facilitou-me o ponto de vista, confesso.

    tou lixado, é assim a vida. Voltamos já, já ao orçamento.

    Joé Martins, o dogmatismo do PCP no tema não vem desta iniciativa. É o que é.

  5. Leo diz:

    “Já cá faltava a repressão fabricada à esquerda, que confunde tudo (…) deixo às redes de tráfico de pessoas (…) a tarefa de agradecerem ao PCP por este esforço de limpeza social e moral (…) e que não compreende que meter tudo no mesmo saco, isso sim, é facilitar a actividade das redes criminosas”.

    Foi isto o que ele escreveu. Uma canalhice imperdoável.

  6. “Para o PCP, também as pessoas prostituídas, não sendo vítimas de tráfico, estão em situações de especial vulnerabilidade e, independentemente de se considerar a opção livre e consciente, nunca tal situação pode levar à adopção de medidas legislativas que legalizem a escravatura e assumam que o consentimento é “esclarecido” na maioria dos casos. A prostituição não é a mais antiga profissão do mundo. Não é mais do que a exploração de seres humanos.”

    http://www.pcp.pt/node/246346

    A posição do PCP in a nutshell.
    Bem, já é tarde. Amanhã bem cedo, milhões de trabalhadores “em situações de especial vulnerabilidade” serão explorados de variadíssimas maneiras. No fundo serão milhões de prostitutos que “independentemente de se considerar a opção livre e consciente”, estarão no seguinte campo de possibilidades: ou vergam a mola ou tão na merda.
    Amanhã todos esses milhões de prostitutos, escravos assalariados, vão “vender o corpo”, o espírito, a sua saúde mental e física, em troca de (pouco) dinheiro. Braços, pernas, olhos, mãos, dedos, cérebro…genitais é que não, que servem para a reprodução, não para trabalhar!
    Amanhã de manhã lá estará o PCP a evitar que se “legalize a escravatura” (onde ela existe, claro).

  7. tira ao lado Renato… a minha micro citação n tinha nada a ver com a polémica do trablho sexual. apenas uma frase lida ontem à noite num livro espantosamente polémico. é um frase com um estranho nexo mas que por isso mesmo me apaixona. desconstruções derradianas em que o Paco era perfeito!

    • Morgada de V. diz:

      Paulo, tens de deixar de fugir com o puto culo à seringa: as frases do Paco, espantosamente, não existem no vácuo, ou serviriam apenas para decorar azulejos e fortune cookies: têm contexto, têm ideologia, e isso pode e deve ser tudo discutido.
      Bom post, Renato.

  8. Paulo Jorge Vieira diz:

    como saberias se fosses real eu nunca fujo com o rabo… isso nunca! quanto à frase há uma coisa que se chama descontextualizar… se tivesses algum conhecimento da obra fiolsófica de Francisco Javier Vidarte saberias que a frase que escolhi é antes de mais uma descontextualização/desconstrução provocadora

    • Morgada de V. diz:

      Hei-de um dia usar esse argumento ontológico para não ir trabalhar, como tu o usas para não discutir, mas hoje causa-me transtorno. The fact remains que o tal Vidarte defende que o corpo é “a única coisa incompatível com a propriedade privada e com a circulação do capital”, o que me parece um real disparate.

  9. grim diz:

    Em primeiro lugar, parece-me que há uma confusão entre o lenocínio e a prostituição propriamente dita que, logo na iniciativa do PCP, perturba a discussão.

    Mas o mais importante agora será recordar isto: há um elemento de “venda” e “compra” de serviços que é a própria essência da prostituição. Por exemplo, se um carpinteiro fizer armários de graça, não é por depois os oferecer que deixa de ser carpinteiro. Pelo contrário, a prostituição não oferece por definição sexo gratuito, “não há almoços grátis”. Ou, se quisermos, a prostituição acaba por ser um estádio avançado do sistema de trocas capitalista :p

    Moralismos ou não, confesso que hesito bastante em falar de “libertação” a propósito do trabalho sexual e de prostituição “voluntária”. Triste liberdade esta que mais uma vez fica sujeita aos jogos do mercado capitalista!

  10. Renato Teixeira diz:

    Leo, volta a confundir os campos. A posição do Sérgio pode ser questionada sobre todos os pontos de vista, menos sobre a sua honestidade.

    Bom comentário Miguel Lopes. Só é pena que nem sempre corresponda à realidade.

    Paulo, tiro ao lado é um bom resumo. A tua posta tem, como diz a Morgada, contexto, e nele oscila entre o imbecil e o disparatado. Costumo gostar do teu registo. Neste caso só contribuiste para fragilizar a argumentação do Sérgio Vitorino. Enfim… de descontrução em descontrução, até ao derridismo final.

    Grim, partilho da sua hesitação.

  11. Paulo Jorge Vieira diz:

    o tiro ao lado está nas razões da posta. nada relacionadas com o debate do trabalho sexual no qual tendo a concordar com o Sérgio. ando, apaixonado, com o livro do vidarte na “pochete”. li esta frase e pensei em ti… ora aqui esta a provocação sem sentido a que o Renato vai reagir. acusaste a recepção da mensagem. mas o vidarte está bem mais próximo de ti (e de mim) do que possas imaginar!
    peço desculpa pela diletância desatenta que não percebeu que ira provocar todo este fru fru!

  12. Leo diz:

    Acha então que não se pode questionar a total desonestidade de quem comete a pulhice de acusar o PCP de repressão, “limpeza social e moral” e de conivência com “redes criminosas”, Renato?

    Pois eu penso o contrário e não pactuo com canalhas e com canalhices.

  13. A. Silva diz:

    Não digo que não haja quem se prostitua e tenha prazer nesse “trabalho”, mas para a maioria de quem pratica esta actividade é um acto de humilhação!
    Tudo deve ser feito para acabar com essa humilhação

  14. LAM diz:

    (Digo desde já que não sei definir essas fronteiras, e se calhar o tema do post nem vai muito por aqui); onde está a fronteira que separa a prostituição das modelos fotográficas, por exemplo, que posam para as GQs, as Maxmen e revistas congéneres, a troco de dinheiro ou a troco de vantagens nas carreiras? O mesmo, vantagens, sejam financeiras ou de ascensão na carreira (embora aqui se possa falar não em venda mas em “troca de mercadoria”), nos favores sexuais com vista a obtenção de determinado provento, por parte de trabalhadoras ou trabalhadores das mais diversas profissões. A questão é, isto é venda do corpo ou não? E, caso afirmativo, está ou não englobado nos conceitos morais comuns à prostituição stricto senso? Isto porque, se algumas destas ocorrências são esporádicas e/ou circunstanciais, casos há que são mesmo formas de vida.

  15. Renato Teixeira diz:

    Leo, para mim, canalhice é outra coisa, e pelo que diz pode considerar-se um sortudo. Está na cara, que nunca foram canalhas consigo. Segure lá os insultos para as postas de quem quer insultar.

    Tem toda a razão, A. Silva, o problema é que a proibir nunca se acabou com nada.

  16. Renato Teixeira diz:

    No meu entender LAM, confunde prostituição com uma série de outros oficios, mas acerta na pior de todas as prostituições: “O mesmo, vantagens, sejam financeiras ou de ascensão na carreira (embora aqui se possa falar não em venda mas em “troca de mercadoria”), nos favores sexuais com vista a obtenção de determinado provento, por parte de trabalhadoras ou trabalhadores das mais diversas profissões.”

  17. LAM diz:

    p.s. Há classe social para a prostituição ou, quando vai subindo na hierarquia social a coisa vai tendo outros nomes e objecto de diferentes preconceitos também?

  18. LAM diz:

    “No meu entender LAM, confunde prostituição com uma série de outros oficios”

    Rendo-me. Confundo mesmo.

  19. Ze_Lucas diz:

    Belos tempos esses, quando para se atacar os comunistas, chegava falar em criancinhas-ao-pequeno-almoço e injecções-atrás-da-orelha nos velhinhos. Poupava muita conversa da treta e o Lord Mastur Bate agradecia, porque a ideia dele não era a dita, intelectual, mas alí na mão, pura e dura.

  20. Ricardo diz:

    Que bonito, o PCP enquanto pescadinha-de-rabo-na-boca-do-Papa.

  21. beatriz perez diz:

    Este é o outro filme sobre o tema http://www.youtube.com/watch?v=9ort_L3p6dI&feature=related , nao sei se a gente em portugal viu, é dos mesmo director de”Los lunes al sol”.

  22. O filme que a beatriz perez sugere é algo do outo mundo

    🙂

    Mais info:
    http://i10.tinypic.com/4uw6k45.jpg
    Princesas (2005)
    http://www.imdb.com/title/tt0434292
    Directed by: Fernando León de Aranoa
    Genre: Drama
    Country: Spain
    Language: Spanish
    Tagline: Tough tricks on the Spanish streets . . . (DVD)
    Plot Outline:
    Set in Spain, the story is about friendship and love in the world of prostitution.

    You are real if another person thinks about you.
    10 March 2010, by Murray Morison (Greece)

    This is an exceptional film about the world’s oldest profession.
    It is exceptional, not just as an insight into the emptiness of a whore’s life but into the richness of a friendship entered into with kindness.
    The story is small scale with minor villains and fleeting loving.
    At no point is it salacious, and yet the film does not flinch from its subject matter.

    The direction is sensitive and the performances of Candela Pena as Caye and Micaela Nevares as Zulema is understated and riveting.
    The most moving moments are ones when the humanity of those involved in this unfolding story comes to the fore.
    There is a lightness of touch that is refreshing and moments of real humour to lighten what could be very downbeat subject matter.
    There are also moments of philosophy in the script that are a delight and Fernando León de Aranoa as writer and director produces some memorable quotes (as with the title given to this review).
    All in all this is a film that is well worth making an effort to find and to see.

    Runtime: Spain:113 min | USA:109 min
    Awards: 10 wins & 17 nominations
    Cast: Candela Peña, Micaela Nevárez, Mariana Cordero, Llum Barrera, Violeta Pérez, Mònica Van Campen, Flora Álvarez, María Ballesteros, Alejandra Llorente, Luis Callejo…

    http://i16.tinypic.com/6bldco1.jpg

  23. Renato Teixeira diz:

    beatriz perez, belissima sugestão. Vou ver. Vindo de quem fez o Lunes al Sol só pode ser bom.

  24. João Teixeira diz:

    Quando dizes isto: «o corpo, em algumas circunstâncias, pode ser uma ferramenta de trabalho, mas é importante ter claro que isso só é uma opção feita em liberdade em casos residuais.»

    Ou seja, tu reconheces que uma pessoa pode vender o seu corpo, porque gosta do que faz…

    O teu erro, como o do Nuno e do Sérgio, está neste ponto.

    Só nas vossas cabeças, é que o corpo pode ser uma «ferramenta de trabalho». Ora, o corpo não é, nem pode ser isso, porque isso significa prostituir o corpo, coisa que o vosso blog não entende.

    Por causa desta estúpida polémica que levantaram, perderam alguns leitores. Não foi pela maneira como o Renato escreveu o seu texto. Foi porque em alguns casos, em relação aos seus colegas Nuno e Sérgio, os comentadores foram insultados e até censurados pela forma como manifestaram as suas indignações.

    No caso do seu colega Nuno que se afirma todo democrata, de esquerda e que transparece uma imagem na televisão, aqui, neste blog, mostra um carácter mais obscuro. Quando as coisas se tornam más, em vez do democrata, temos o presumido, o autoritário e mesmo até o ordinário.

  25. “Só nas vossas cabeças, é que o corpo pode ser uma «ferramenta de trabalho». Ora, o corpo não é, nem pode ser isso, ”

    Qual é a ferramenta de trabalho de um estivador?

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