Mais metalurgicos e menos ciclistas, sff

O Zé Neves e o Nuno Teles têm trocado posts sobre se a esquerda se deve basear no trabalho e na aposta de uma maior produção ou se pelo contrário estes termos estão ultrapassados e devemos ambicionar uma esquerda que se reivindique da superação do trabalho.
Não compartilho da poética do Neves. Acho que todos temos o direito de participar e determinar a construção das nossas sociedades. Esses direitos exercem-se de várias formas, uma das quais é a participação livre e racional no trabalho comum necessário para construir uma humanidade num planeta melhor.
A reivindicação de um trabalho liberto da alienação, em que o produtor é dono inteligente do seu esforço, é um objectivo político essêncial. Mas isso não se confunde com a liquidação do trabalho e com a instauração de um mirífico subsídio universal que parece ser a única reivindicação prática das correntes autonomistas. Todos nós somos condicionados pelas nossas vivências. Gosto daquela parábola de um autor neocon que dizia que ‘os países que têm grandes martelos têm a tendência de ver todos os problemas como pregos’. Às vezes parece-me que o movimento autonomista consegue ver pouco para além dos muros das faculdades e tende a querer resolver a questão do trabalho pela atribuição de uma espécie de bolsa de investigação a toda a população. É certamente uma caricatura, mas isto não passa de um post para justificar uma boa canção.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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5 respostas a Mais metalurgicos e menos ciclistas, sff

  1. miguel serras pereira diz:

    Caro Nuno,
    não me parece que a posição do Zé Neves seja exactamente a que descreves:”a liquidação do trabalho e com a instauração de um mirífico subsídio universal que parece ser a única reivindicação prática das correntes autonomistas”. Mas o Zé saberá defender-se, se entender dever fazê-lo.
    A questão de fundo que levantas – e que subjaz à troca de ideias entre o Nuno Teles e o Zé Neves – nem por isso deixa de ser a boa. Eu traduzi-la-ia nos termos de uma pergunta: como democratizar que trabalho e que economia? – sendo que a democratização da economia, instância governante primordial das nossas vidas hoje, é condição necessária e prioritária da democratização das instituições, da superação da exploração e da dominação hierárquica e classista.
    O que é necessário é que sejam os seus agentes a decidir igualitária e livremente do lugar – e no lugar – do trabalho e da economia. E isso não me parece que seja possível através simplesmente de uma maior intervenção do Estado, ou das teses do “Estado estratego”, caras a certos ladrões de bicicletas.
    É, com efeito, necessário distinguir liminarmente “estatal” e “público”, estatização e publicização democrática da actividade e direcção da economia. Tornar o domínio da economia espaço público governado através da participação democrática e da extensão dos direitos da cidadania activa à esfera da produção e do trabalho, das decisões sobre o investimento e o consumo, é coisa que exige por certo a subordinação da economia ao poder político, ou, mais precisamente, a transformação do exercício da actividade de produção e direcção da economia em exercício político governante. Mas o que importa aqui – e faz a diferença – é a natureza do poder político em causa. Porque poder político e exercício político, isso a economia já o é, e tem vindo a ser cada vez mais, por muito que tente apresentar-se como neutra, exercício técnico-científico à margem de considerações normativas e juízos de valor. Resumindo muito, eu diria que a superação da exploração, da dominação e da alienação na e através da economia política passam, pois, pela extensão instituinte do regime de poder democrático da cidadania governante contra a lógica estatal e administrativa, hierárquica e classista, da distinção estrutural e permanente entre governantes e governados. Só um poder político exercido por cidadãos que só consentem ser governados mediante a participação igualitária de todos e cada um no exercício governante poderá transformar o lugar do trabalho e da economia nas nossas vidas, conjugar livre e responsavelmente a sua necessidade, recriá-los como momentos e dimensões de um espaço público comum que garanta um máximo de autonomia tanto no plano colectivo como ao nível individual.
    Não posso ir muito mais longe, mas direi a concluir que tudo isto aponta mais para a igualização dos rendimentos e a consequente democratização do mercado (segundo o princípio de um voto por cabeça) do que para subsídios ou alocações universais superiormente concedidos e fixados e que não põem em causa, ou até confortam, a preservação, mais ou menos reciclada, das relações de poder hierárquicas na actividade laboral e na direcção da economia. Remeto para uma argumentação menos sumária – acompanhada de meia-dúzia de questões que interpelam as posições nesta matéria do João Rodriges e de uma discussão de certas propostas de “rendimento de cidadania” – para o meu breve ensaio “Poder Político, Economia e Democracia”, publicado na revistas “Trajectos”, nº 15, Lisboa, Fim de Século/ISCTE, 2009.
    Esperemos que o debate continue.

    Abrç

    msp

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Miguel,
    Excelente comentário. No entanto, acho que atribuis as tuas posições ao Zé Neves. O nosso amigo é mesmo contra uma lógica de trabalho e produção, independentemente se os mesmos são democráticos ou anti-democráticos. Quando o Neves me responder, vou encher a resposta cheia de citações levemente descontextualizadas do que ele defende. Mal posso esperar 🙂

    Abraço

  3. Renato Teixeira diz:

    A música é ainda melhor do que a polémica. Grandes Métallos!

  4. António Paço diz:

    Isto não é música metálica. Nem metalo-mecânica. É mais tipo uma secção de soldadura por pontos.

  5. miguel serras pereira diz:

    Nuno,
    eu não digo que o Zé subscreve as minhas posições nesta matéria. O único reparo que fiz ao teu excelente post – que gostaria de ver mais discutido e por mais gente – é que as posições que TU lhe atribuis talvez não sejam bem as que ele formularia. De resto, és tu próprio quem alerta para o que possa haver de caricatural na tua descrição. Mas o que importa é que levantas bem o problema e nos obrigas a reflectir sobre certas confusões relativas ao “fim” ou “fins” e ao “lugar do trabalho” que inquinam os pressupostos de propostas bem intencionadas como o “rendimento de cidadania” desvinculado da participação nos processos de produção e/ou coordenação da actividade económica e laboral.
    Abraço

    msp

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