“Cantaremos sempre, filhos da puta!” – Tributo a Victor Jara

Com métrica de menino e timbre de guerrilheiro, a música de Victor Jara é um manifesto cheio de actualidade. No veludo da sua voz vive não só as lutas que travou mas também o garrote com que foi silenciado. O seu assassinato, a 16 de Setembro de 1973, às mãos dos milicianos de Pinochet na sequência do golpe de Estado de 11 de Setembro, figura entre os mais vergonhosos actos da ditadura chilena e é uma das lendas vivas de toda a história da repressão.

A sua companheira, Joan Jara, compilou os relatos de alguns dos presos que foram com Victor, às fornalhas, para o estádio do Chile, onde muitos acabaram torturados até à morte. Dos testemunhos, bem como da exumação do seu corpo no ano passado, percebe-se que os ossos das suas mãos estavam esmagados como forma de punir a subversão dos seus poemas, a beleza dos seus acordes e a sua militância.

O oficial que pediu exclusividade no comando das agressões terá dito: “Canta agora, filho da puta” na sequência da tortura e antes de o seu corpo ser fuzilado com 44 balas. A sua memória e o seu legado serão a eterna negação dessa vontade.

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5 respostas a “Cantaremos sempre, filhos da puta!” – Tributo a Victor Jara

  1. Santiago diz:

    Deixo apenas mais para a memória colectiva o último poema de Victor Jara.

    Introduccion Joan Jara: ” … Cuando más adelante me trajeron el texto del último poema de Victor, supe que él queria dejar su testimonio, su único medio de resistir ahora al fascismo, de luchar por los derechos de los seres humanos y por la paz.”

    Somos cinco mil
    en esta pequeña parte de la ciudad.
    Somos cinco mil
    ¿ Cuántos seremos en total
    en las ciudades y en todo el país ?
    Solo aqui
    diez mil manos siembran
    y hacen andar las fabricas.

    ¡ Cuánta humanidad
    con hambre, frio, pánico, dolor,
    presión moral, terror y locura !

    Seis de los nuestros se perdieron
    en el espacio de las estrellas.

    Un muerto, un golpeado como jamas creí
    se podria golpear a un ser humano.
    Los otros cuatro quisieron quitarse todos los temores
    uno saltó al vacio,
    otro golpeandose la cabeza contra el muro,
    pero todos con la mirada fija de la muerte.

    ¡ Qué espanto causa el rostro del fascismo !
    Llevan a cabo sus planes con precisión artera
    Sin importarles nada.
    La sangre para ellos son medallas.
    La matanza es acto de heroismo
    ¿ Es este el mundo que creaste, dios mio ?
    ¿Para esto tus siete dias de asombro y trabajo ?
    en estas cuatro murallas solo existe un numero
    que no progresa,
    que lentamente querrá más muerte.

    Pero de pronto me golpea la conciencia
    y veo esta marea sin latido,
    pero con el pulso de las máquinas
    y los militares mostrando su rostro de matrona
    llena de dulzura.
    ¿ Y Mexico, Cuba y el mundo ?
    ¡ Que griten esta ignominia !
    Somos diez mil manos menos
    que no producen.

    ¿Cuántos somos en toda la Patria?
    La sangre del companero Presidente
    golpea más fuerte que bombas y metrallas
    Asi golpeará nuestro puño nuevamente

    ¡Canto que mal me sales
    Cuando tengo que cantar espanto!
    Espanto como el que vivo
    como el que muero, espanto.
    De verme entre tanto y tantos
    momentos del infinito
    en que el silencio y el grito
    son las metas de este canto.
    Lo que veo nunca vi,
    lo que he sentido y que siento
    hara brotar el momento…

    (Victor Jara, Estadio Chile, Septiembre 1973)

  2. O relato dos últimos dias de Víctor Jara está aqui: http://ocastendo.blogs.sapo.pt/189249.html
    Em castelhano, sem tradução.

  3. As putas do Indentende, na sua maioria mães, reagiam nas reuniões do mayday do ano passado ao uso e abuso da expressão “filhos da puta”. É que a segurança social se acha no direito de lhes retirar os filhos – e retira – quando sabe da sua actividade, sem mais critério (nem sequer o de serem ou não boas mães). Por mim, abolia o termo.

  4. Renato Teixeira diz:

    Sérgio, tens razão quanto ao traço reaccionário da lingua. Eu que nasci a norte do mondego, digo uma duzia por hora. Uma merda.

  5. Renato Teixeira diz:

    Parabéns pelo contributo, Santiago e António Vilarigues.

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