MORALISMO DE ESQUERDA

“PCP quer proibir anúncios de prostituição na imprensa

PCP apresentou ontem projecto de resolução para que prostituição seja reconhecida como exploração”.

Já cá faltava a repressão fabricada à esquerda, que confunde tudo, tráfico de pessoas com prostituição voluntária, trabalho com escravatura sexual, defender os direitos das mulheres com agravar seriamente as condições em que a prostituição é exercida. Como não posso fazê-lo, porque sou puta em todos os sentidos que me queiram atribuir, deixo às redes de tráfico de pessoas, que não representam senão uma percentagem mínima do próprio tráfico de pessoas com fins de exploração sexual, e ainda mais mínima do trabalho sexual em Portugal, a tarefa de agradecerem ao PCP por este esforço de limpeza social e moral, claro está, que em pleno século XXI ainda não entendeu que a repressão do trabalho sexual e a precarização das suas condições só agrava as condições do seu exercício, especialmente dos/das que a exercem já nas condições mais precárias, que não concebe que a prostituição pode ser uma actividade voluntária – talvez se achem menos putas por trabalharem num call center do Belmiro – e que não compreende que meter tudo no mesmo saco, isso sim, é facilitar a actividade das redes criminosas e favorecer as verdadeiras situações de exploração sexual. De resto, caro PCP, o cú é meu, e só o explora quem eu quero.

Este artigo foi publicado em cinco dias, luta dos trabalhadores, Sérgio Vitorino, sexual, Trabalho Sexual. Bookmark o permalink.

111 respostas a MORALISMO DE ESQUERDA

  1. Sérgio Vitorino diz:

    Pois, A.R., permita-me remeter para o mesmo estudo de Boaventura Sousa Santos, para lhe dizer que não tem razão, que uma parte muito significativa, se não a maior parte, dos serviços sexuais (dos quais a prostituição é uma pequena parte) não resultam de nenhum tipo de coerção, pobreza, exclusão ou condição de género, e são uma escolha (na verdadeira acepção da palavra), e que as posturas que, tal como a polícia e os tribunais, tudo confundem, mais não têm feito do que aprofundar o estigma em torno do trabalho sexual, precarizando as vidas das pessoas que, como bem diz que existem, chegam ao oferecer de serviços sexuais via situações de coerção, exclusão ou condicionamento, fragilizar ainda mais a situação das verdadeiras vítimas de tráfico ou de exploração sexual, mas também reprimindo, na prática, com critério moral, práticas, profissões, serviços, escolhas supostamente legais, mas continuamente policiadas e condenadas.

    • António Figueira diz:

      Sérgio,
      Tens sem dúvida noção de que este teu último comentário ultrapassou finalmente o próprio tema do post e coloca enfim abertamente uma questão que está latente desde o início desta discussão, cento e tal comentários atrás: o que é uma “escolha”? Existem escolhas livres, no sentido de desincarnadas dos contextos em que são formuladas? Existe assim livre-arbítrio? Vasta questão!…
      Abraço, AF

      • CL diz:

        Uma escolha é uma opção entre alternativas. É claro que existem escolhas livres. Escolhas livres não significam escolhas descontextualizadas, porque nada existe fora do contexto em que existe, nem não constrangidas pelo contexto, porque sem constrangimentos, ou no constrangimento total que é a coerção, não haverá necessidade de escolhas, porque não haverá alternativas. A escolha livre é precisamente a que a pessoa é capaz de decidir por si, perante as alternativas que formulou (que podem ser bem ou mal formuladas, o que é irrelevante). E o cume da liberdade é quando alguém decide por si sobre si, como é o caso, por exemplo, da prostituição.

        É esta capacidade de decisão autónoma que os moralistas dos serviços sexuais, como bons totalitários, negam aos outros, ao impor-lhes as suas próprias escolhas, baseadas nos seus valores particulares. Alguém achar que a prostituição é uma actividade degradante é um direito legítimo; aplicar a sua qualificação para as suas escolhas pessoais é coerência; mas alguém achar que a prostituição não é uma actividade degradante e assim determinar as suas escolhas é direito tão legítimo quanto o inverso; alguém impor a outros as suas próprias escolhas morais, em questões que apenas implicam os outros, é prepotência. É disto que os proibicionistas e os apenas tolerantes da prostituição sofrem: a prepotência no condicionamento ou na negação da liberdade do outro.

        Por muito que os proibicionistas ou os tolerantes se esforcem, não existirá outro modo da prostituição acabar, se é que acabará, se não pela inexistência de procura, por muita que seja a repressão de que seja alvo. Muitos moralistas, de muitas eras, quando a liberdade individual era uma sombra da que é hoje, já o tentaram, em vão. A persistência duma tal actividade ao longo dos tempos, através de vários tipos de sociedade com valores morais diversos, só confirma a sua importância social. Mas há muita gente que confunde a liberdade com a sua liberdade, negando-a ao outro; principalmente quando o outro é diferente. A porra, como sempre, está no medo da liberdade do outro. Essa é que é essa!

        • António Figueira diz:

          Bom esforço.
          Mas começando pelo princípio, uma escolha será “uma opção entre alternativas” – isso não explica é o momento prévio, de definição dessas alternativas (acho que nem é preciso exemplificar).
          Cumps, AF

          • CL diz:

            Não requereu qualquer esforço. Mas para compreender terá de ler até ao fim. “A escolha livre é precisamente a que a pessoa é capaz de decidir por si, perante as alternativas que formulou (que podem ser bem ou mal formuladas, o que é irrelevante). E o cume da liberdade é quando alguém decide por si sobre si, como é o caso, por exemplo, da prostituição.

  2. Pingback: Mais um modesto contributo para a vasta discussão em curso sobre a natureza da prostituição… | cinco dias

  3. António Figueira diz:

    CL,
    Isto arrisca-se a ser uma discussão sem fim, porque V. não resolveu o problema (da formulação das alternativas), V. colocou-o apenas mais a montante (uma operação que pode ser repetida ad infinitum): a questão relevante não é se as alternativas estão bem ou mal formuladas, é se foram ou não, também elas, LIVREMENTE formuladas… A liberdade é um conceito muito tricky, e muito dificilmente compatível com juízos absolutos…
    Cumps., AF

    • CL diz:

      AF

      As alternativas são sempre livremente formuladas. Até parece não conhecer o verso da canção “não há machado que corte a raiz ao pensamento”.

      Entendo onde pretende chegar. Mas veja que até as estafadas coerções económicas não conduzem toda a gente a elas sujeitas à prostituição ou que a sua ausência não impede que alguns a escolham. Note, por exemplo, que nos regimes comunistas onde não existiria coerção económica, porque o direito ao trabalho estaria garantido, houve e há pessoas que optam pela prostituição (seja ela apenas tolerada ou seja proibida).

      A questão é sempre a mesma: existir quem pretende substituir-se aos próprios interessados para lhes dizer o que é bom ou deixa de ser, o que devem fazer das suas vidas, etc. A liberdade do outro é que parece continuar a ser assustadora. E julgo ser tempo de se deixar de ter medo da liberdade de cada um. Foi esse o grito que me pareceu ter sido dado com o post do Sérgio Vitorino. O resto, que é pouco, alguns pretendem que continue a ser tudo. Aguém tem de romper com as grilhetas do preconceito.

      Uma vez que não adiantamos mais, cumps também para si.

  4. António Figueira diz:

    “As alternativas são sempre livremente formuladas”? Desculpe lá, CL, whoever you may be, mas essa frase não passa o crivo rigoroso da razão crítica.
    Cumps., AF

  5. A.R diz:

    Sérgio a posição que o senhor defende é altamente reprovável. Gostava que o senhor fizesse 1 exame à sua consciência. Não vale a pena insistir em algo errado só por teimosia, só “for the sake of the argument”. Lembre-se que só as pessoas inteligentes admitem que erram. O que disse no seu post a responder ao meu não está correcto. Basta passar pelas ruas de certas zonas de Lisboa ou outras do país e perceber, que, de facto, aquelas pessoas não estão ali por escolha. É muito triste ter que olhar para a degradação da vida daquelas mulheres. Só num primeiro olhar a sua destruição física é visível e a sua destruição psicológica é sub-entendida. A maior parte das pessoas que se tornam prostitutas não são pessoas que tiveram acesso à educação e a 1 vida estruturada. São pessoas que, infelizmente, são dependentes de drogas ou que são vitimas de niveis graves de pobreza e exclusão. Se ler o estudo referido com atenção verá que as mulheres que tentam escapar a essa vida são presseguidas pelos homens que mandam nas suas “escolhas”. Não seria preferível 1 mundo em que não existisse degradação da existência humana? Não seria preferível que todos tivessem acesso à educação e às mesmas oportunidades? Não são estes os valores que distinguem a esquerda da direita? Se me responder que a prostituição é impossivel de erradicar por isso mais vale legalizá-la, apesar de já ser legal em Portugal (o que é proibido é o lenocínio) esse é 1 argumento falacioso. Se for por aí também lhe posso dizer que é impossível erradicar a pobreza então vamos dizer que achamos bem que pessoas morram de fome, já que é impossível combater a pobreza. Vamos dizer também que achamos bem a exploração do homem pelo homem, já que também é impossível de combater e por aí fora. Já experimentou ir para o terreno e falar com prostitutas e falar com as associações que lhes dão apoio? Aconselho-lhe. Pode ser que mude de opinião

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