A irresponsabilidade da equidistância – “O capitalismo americano é uma força com mais poder destrutivo do que os talibãs.” S.Žižek

Uma polémica para florir ela tem que ser como o sexo. Para a produção de avanços a uma, e de preferência, às duas partes em debate, recomenda-se, sabemos todos, reciprocidade dialéctica. Podem usar-se imagens caricaturais para que se percebam ideias com menos palavras, exageros polémicos que puxem o lustro à razão do nosso ponto de vista, fazer melhor ou pior uso da retórica, enfim, até uma boa dose de demagogia de parte a parte deve ser saudada com fraternidade.

O que não deve acontecer é que para clarificar o que está a ser colocado em perspectiva se opte pela rapsódia de temas que o Miguel Cardina e o Hugo Dias fazem ao longo destes textos. Operetas de ideias sobre as quais não há qualquer polémica e que não esclarecem porque se aconselha o equidistante “Nem Nato, nem Talibãs”, entre as duas forças em conflito na guerra do Afeganistão.

O carácter reaccionário de muitas organizações de libertação, da barbárie sobre a mulher ao fanatismo religioso, devem ser combatidos no terreno social e pela emancipação das suas populações. Sabemos que bombardeiro nenhum convence ninguém sobre o obscurantismo de uma burka ou de uma lapidação, e que os seus generais são os grandes responsáveis pelo crescimento do protagonismo social e político do islamismo radical. Hoje os factos no terreno transformaram a resistência islâmica em verdadeiros exércitos de libertação nacional, especialmente aos olhos das populações civis. É inegável que a vitória militar do imperialismo será o melhor fermento para as intenções estratégicas do fundamentalismo. Sem a derrota da ocupação da aliança, nem a resistência islâmica tem que enfrentar o sufrágio das suas populações para proliferar, nem o mais selvagem dos regimes será forçado a retirar como retirou de todas as outras cruzadas.

Olhe-se portanto a história desse internacionalismo que reclamam, e eu saúdo, de vistas largas. Há ou não sectores conservadores nas fileiras evangélicas dos Sem Terra? Há ou não sectores da extrema-direita a parasitar o movimento anti-globalização? Quantos facínoras não libertaram África do colonialismo europeu? Porque não clamou a resistência antifascista em Portugal por uma invasão “libertadora” dos países ditos democráticos?

É claro que no terreno se podem e devem desenvolver projectos políticos laicos, emancipadores e de preferência socialistas, mas a única resistência militar de relevo no terreno tem, para castigo dos idealistas, inspiração divina.

Não há nada de original em fazer unidades militares (tácticas Miguel, nunca estratégicas) sem qualquer simpatia política pelo aliado de circunstância. Isso não faz de nós cúmplices da agenda de quem nos unimos, pontualmente, numa dada jornada de luta, seja contra a guerra como pelo resto. Se assim não fosse, de resto, toda e qualquer unidade seria sinónimo de capitulação política.

A terceira trincheira é portanto uma abstracção, que nada disse aos movimentos de libertação e de emancipação do último século, e nada dirá a aos palestinianos, aos libaneses, aos iraquianos e aos afegãos nas próximas décadas. O desejo de que no futuro as nações produzam melhores direcções não nos deve impedir de ver que o desenvolvimento dessas organizações depende de não viverem sob a ditadura da guerra, do genocídio e da ocupação.

Em suma, pior do que o perigo de ter a teoria a desmentir a realidade, é ver render a teoria pela beleza insofismável das nossas boas intenções.

“O capitalismo americano é uma força com mais poder destrutivo do que os talibãs”, logo a partir do segundo 35′.

Ver também a parte 2, 3, 4, 5 e 6.

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13 respostas a A irresponsabilidade da equidistância – “O capitalismo americano é uma força com mais poder destrutivo do que os talibãs.” S.Žižek

  1. Pedro Lourenço diz:

    O mesmo é asseverar-se a putativa superioridade moral dos EUA nesta “war on terror”.

    Acerca disso, discute-se muito actualmente a construção do centro islâmico próximo do ground zero. Para mim a exequibilidade ou legitimação de uma uma idéia de superioridade moral dos americanos, largamente fragilizada logo na invasão iraquiana, acaba com no cadafalso junto de Saddam. A superioridade da civilização ocidental e dita civilizada é enforcar uma pessoa?

  2. Semeador de Favas diz:

    Pelo menos numa coisa estou 100% de acordo com o Renato Teixeira, é que sem uma táctica de libertação eficaz de nada serve uma bonita estratégia. Isto é elementar. Se pensarmos em exemplos históricos – e salvaguardando as devidas distâncias -, por exemplo, na Revolução de 1917, se não tivesse sido pela táctica e pela técnica do Golpe de Estado elaborada por Trotsky e pelos técnicos militares, engenheiros, «especialistas» disto e daquilo e uma «tropa de choque» decidida que o apoiavam, «ainda hoje» os bolchevistas estariam à espera, em inflamados debates, que – pelo intermédio de deus ex machina – as massas visem a divina luz marxista da estratégia de Lenine.
    Tudo isto apenas para dizer o seguinte: se deixarmos, de maneira dogmática e arbitrária, tudo nas mãos dos princípios e da moral, corremos o risco de quando chegar o tempo de aplica-los também não sabermos como.

  3. Renato,

    A rapsódia como camuflagem está do teu lado. Foste tu que decidiste criticar o lema “nem NATO, nem talibãs” e agora falas do Afeganistão juntamente com o Líbano, os evangélicos dos sem-terra e os facínoras que lideraram movimentos independentistas em África. Daqui a nada estás a colocar no mesmo patamar a presença da JOC na próxima greve geral…

    Subscreveria muitas das frases genéricas que adiantas, mas acho que elas não devem ser uma linha prévia a aplicar em todas as situações. É que devemos ter cuidado na instrumentalização dos princípios e valores. Podes chamar-lhe “beleza das boas intenções” que não me ofendo. Claro que as unidades (tácticas ou estratégicas, como queiras) podem ser legítimas. Mas no Afeganistão isso significa mandar para a fogueira (em alguns casos literalmente) quem não aceita a ocupação mas também não quer voltar ao domínio talibã. Eles e elas não te agradecem essa solidariedade internacionalista.

  4. Índio Joe diz:

    Num artigo intitulado “Obama’s Finest Hour: Killing Innocent People For “Made-Up Crap”, Chris Floyd descreve os ataques feitos com “drones” norte-americanos contra alvos civis no Afeganistão.

    Os “drones” ou “aviões-robot” têm nomes como “Predators” ou “Reapers” (gadanhas da morte). Os mesmos “drones” também estão a ser usados em Gaza pelo exército israelita.

    Floyd é da opinião que não existe diferença entre os democratas de Obama ou os republicanos “tea party” de Sarah Palin. As duas facções protegem e defendem a indústria militar que fabrica estes «aparelhos da morte».

    A indústria “drone” foi arquitectada ou desenhada para criar cada vez mais inimigos e mais empresas contratadas para produzir mais “drones”. Parece um plano para criar mais «terrorismo». Portanto, se houver um alerta geral nos EUA contra o´«terrorismo», mais destes «drones» serão produzidos e mais alvos civis serão bombardeados no Afeganistão, sejam eles festas de casamento, funerais, escolas, etc…

    Chris Floyd fala em “cleptocracia militar” que é diabólica e qualquer facção política que a não denuncie e tente desmantelar, é cúmplice deste acto diabólico (… uma pequena farpa para o blogger “m”)

    A escolha é a não cooperação com o mal, como defendida por Thoreau, Tolstoy, Gandhi (como exemplos)… A escolha, neste caso, é ir contra o poder militar norte-americano que faz lucro com as suas guerras no Afeganistão.

    Qualquer ideia em misturar inimigos é falsa. Aliás, os talibãs, com os seus guerrilheiros das montanhas, estão muito atrasados em relação à tecnologia militar norte-americana, com os seus «drones»…

    É inacreditável que alguém use argumentos do tipo “contra a NATO e contra os talibãs”… As pessoas que usam este tipo de argumento, estão mal informadas e, ao mesmo tempo, são cúmplices do mal criado pela indústria militar norte-americana.

    Toksha Aké!

  5. Renato Teixeira diz:

    Cardina, continuas sem clarificar a equidistância. Sobre o resto, como já disse, estamos globalmente de acordo. Posto que não há um exército, nem uma organização com influência que defenda o “nem Nato, nem Talibãs”, por que saída militar achas que os afegãos agradeceriam solidariedade? ONU para Cabul já com o tradicional render da guarda do “império”?

  6. nuno diz:

    “Não há nada de original em fazer unidades militares (tácticas Miguel, nunca estratégicas) sem qualquer simpatia política pelo aliado de circunstância. Isso não faz de nós cúmplices da agenda de quem nos unimos, pontualmente, numa dada jornada de luta, seja contra a guerra como pelo resto. Se assim não fosse, de resto, toda e qualquer unidade seria sinónimo de capitulação política.”

    Estranho pois tanta dificuldade Renato, há uns tempos atrás, para se juntar na manifestação contra a lapidação, no Largo Camões. Com o argumento, discutível mas válido, de que não aceitava andar em más companhias, portadoras de más intenções, que integravam a manif. Ele há, de facto, circunstâncias e circunstâncias, afectos e afectos.

  7. Renato Teixeira diz:

    Nuno, deixou escapar as entrelinhas desse debate. O problema dessa manifestação é que secundarizava o problema da lapidação, e já agora da pena de morte, em nome da campanha de diabolização do Irão.

  8. miguel serras pereira diz:

    Renato,
    atenção ao português: “secundar” quer dizer “apoiar”, “corroborar”, “confortar” (um argumento ou uma posição). Ora, que me conste, nem mesmo as mentes mais cor-de-rosa do Jugular secundaram a lapidação ou a pena de morte.
    Outra coisas: as suas posições secundarizam (não secundam) a luta anti-hierárquica, a questão da emancipação dos trabalhadores e das camadas populares, em nome da “independência nacional”.
    Por fim, a frase do Zizek – não todas as frases do Zizek – é um disparate histriónico que só impressiona quem está disposto a deixar-se impressionar por demagogos: até o próprio Renato já sabia que o capitalismo americano, ou a UE, ou a Rússia, ou a RPC, e poupe-me a enumeração, têm mais poder destrutivo do que os talibãs, e, já agora, do que a Al-Qaeda ou talvez até mesmo do que a equipa da “Briosa” (ainda que em tarde inspirada).
    Quanto à abertura do post: “Uma polémica para florir ela tem que ser como o sexo”, já as coisas são diferentes. Tem, ao seu nível, pelo menos tanta força destrutiva da inteligência erótica, filosófica e política, como o Pentágono ao nível militar.
    Quem o avisa…

    msp

  9. Renato Teixeira diz:

    msp, penitência minha. Obrigado pela correcção linguística e pelo aviso para as minhas derivas eróticas.

  10. miguel serras pereira diz:

    De nada, Renato. São coisas que acontecem…

    msp

  11. Índio Joe diz:

    Hau Nuno!

    Fala em «manifestação contra a lapidação, no Largo Camões»…

    …e sobre as penas de morte nos Estados Unidos? Alguma manifestação anunciada?

    Alguns dos sentenciados, como Cameron Todd Willingham (já executado, infelizmente) foram dados como inocentes.

    O tipo de droga a ser usado, na injecção letal contra o condenado Jeffrey Landrigan, no Arizona, está a ser questionado. A sentença de morte deste homem está mercada para o próximo dia 26 de Outubro.

    Que tal uma manifestação para a libertação deste homem?

    Ou a ideia é fazer muito barulho em torno dos afegãos, porque não são americanos e porque fica até muito mal acusar os EUA destes pequenos crimes?

    No fundo, essa associação, de que faz parte o Nuno, e que marca este tipo de manifestações, é um tanto ou quanto hipócrita, senão mesmo oportunista… «Am I right or am I right?»

    Wowahwa! (em lakota, quer dizer «paz»)

  12. Mariana diz:

    “Que tal uma manifestação para a libertação deste homem?”

    Acho muito bem. Participaria sem hesitar se vivesse em Lisboa.

    Não se esqueça de uma coisa: se organizar uma manif contra a pena de morte nos EUA não lhe acontece coisa alguma. Se fizer tal coisa no Irão, vai parar a uma instituição psiquiátrica ou a uma prisão. Os
    tenebrosos Basij encarregar-se-iam de lhe tratar de saúde.

    Assim, Indio Joe, se me permite, sugiro aconselho que organize uma manif contra 1) a pena de morte (tout court) e 2) contra a punição “extra-legal” de todos os que se manifestem contra a pena de morte…two in one, por assim dizer. 🙂

    Se precisar de ajuda, apite. Contribuirei tanto quanto posso.

  13. Mariana diz:

    Renato,

    Uma pergunta para si:

    1) O império Americano (todos os impérios?) é movido por interesses ????

    Concorda??

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