NEM NATO, NEM EQUIDISTÂNCIA – PELA VITÓRIA DA RESISTÊNCIA! [actualizado]

É enternecedora a compreensão da guerra, especialmente quando ela tem a gentileza de não nos ocupar o quotidiano. Raramente os que a vivem podem optar pela neutralidade, posição política inventada para nos poupar à maçada das trincheiras. Não deixa de ser curioso, no entanto, que quem alega que no campo eleitoral não há espaço para passar a vez, entenda que no campo militar pode concorrer para o lugar do árbitro.

O lema “nem NATO, nem Talibãs” professado pelo Miguel Cardina, radica no mesmo equívoco que levou boa parte da extrema-esquerda a enveredar pelo lema “Nem Washington, nem Moscovo”, nos píncaros e na sequência da segunda guerra mundial.

Hoje como ontem podemos nada querer daquilo em que se transformou o socialismo soviético, da mesma forma que não se desejam vitórias políticas ao projecto estratégico dos Talibãs, mas devemos aprender a escolher quando do outro lado navega o porta-aviões do imperialismo.

Para que sobrasse amanhã ao sonho revolucionário foi antes de mais necessário derrotar a Alemanha nazi, mesmo que aliados a Washington e a Moscovo. Para que amanhã os afegãos tenham ainda uma hipótese emancipadora, teremos, infortunadamente, que fazer unidade com as forças de resistência à ocupação da NATO, o que no Afeganistão tem o nome feio dos Talibãs.

A vitória das forças militares do ocidente continuará a ser o melhor aliado do fanatismo islâmico e este só pode ser superado com a derrota do ocupante. A invenção da terceira trincheira, essa abstracção niilista, nesta como em qualquer outra guerra, será sempre um lugar imaginário ao serviço do pior dos males em conflito.

Na guerra, a equidistância é um acto de cumplicidade, ignorância ou cobardia. Nada acrescenta à resistência e tudo facilita à velha ordem mundial.

PS: Nesta caixa de comentários, bem como na interpelação do Zé Neves, contesta-se muito do que aqui é escrito (e até muito do que não é) mas qualquer um deles prescinde de justificar o essencial: porque se colocam à mesma distância do colono e do colonizado?

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28 respostas a NEM NATO, NEM EQUIDISTÂNCIA – PELA VITÓRIA DA RESISTÊNCIA! [actualizado]

  1. Diogo diz:

    «Na guerra, a equidistância é um acto de cumplicidade, ignorância ou cobardia»

    Quem dizeu?

  2. Renato Teixeira diz:

    Está mal dito?

  3. Leitor Costumeiro diz:

    “..ignorância e cobardia.”

  4. m diz:

    É o mesmo beco sem saída em que o Bush nos queria colocar quando dizia “ou estás connosco ou com os terroristas”.

  5. Renato Teixeira diz:

    Nem Bush conseguiu estar sempre errado. Quem não esteve contra Bush, esteve seguramente com ele.

  6. miguel serras pereira diz:

    Renato,
    não compreendo a que se refere concretamente o “Nem Washington, nem Moscovo” citado a propósito dos “píncaros” da Segunda Guerra Mundial – altura em que a URSS e os EUA combatiam como potências aliadas o III Reich. Mas, se se trata de um lapso, referindo-se a palavra de ordem evocada à Guerra Fria, devo dizer que, contanto que não fosse seguida do alinhamento com a China de Mao, não me parece assim tão disparatada.
    Em segundo lugar, não vejo por que razão nem por que caminhos poderá o apoio ao “fanatismo islâmico” e a vitória deste ser a melhor maneira de o combater. Houve um momento entre as duas guerras em que o Comintern formulou o mesmo raciocínio nas vésperas da tomada do poder por Hitler na Alemanha, argumentando que uma vitória nacional-socialista só poderia ser um fenómeno passageiro, um incidente de superfície, imeditamente seguido pela derrocada da ordem burguesa. Ora, acontece que a história se encarregou de mostrar o que devemos pensar de cálculos e apostas que tais.
    Finalmente, o exemplo de Bush. Houve quem estivesse contra ele e, ao contrário do “fanatismo islâmico”, não saudasse um acto de guerra de libertação no atentado de 11 de Setembro contra as Twin Towers ou no de 11 de Março em Madrid, mas visse neles crimes contra a humanidade e derrotas dos adversários da política norte-americana.
    Ou não é assim?
    Não posso deixar de aplaudir a inspiração democrática e radicalmente insubmissa do que escreve o meu camarada Miguel Cardina.

    msp

  7. Pascoal diz:

    O teu inimigo continua sempre a ser a esquerda, a que gostas e chamar “estrema-esquerda”. Hoje escolheste o Cardina como poderias ter escolhido outro dos muitos “esquerdistas” de quem gostas de te demarcar à direita arranjando motivos para ires desculpando qualquer “talibanismo”.

  8. Renato Teixeira diz:

    Pascoal, o maior inimigo da esquerda sempre foi a esquerda. É bom que ela se debata mais do que ela se resigna.

  9. maumaria diz:

    Bacalhau Pascoau

  10. Renato Teixeira diz:

    MSP, onde lê píncaros deve ler também sequência. Vou retocar a pintura para que não perca demasiado tempo com ruído.

    Não me espanta que se solidarize com a equidistância. É coisa digna de democratas. Quer ir por ai? Como justificar a mesma distância entre ocupante e ocupado?

  11. augusto diz:

    Como justificar a mesma distância entre ocupante e ocupado…..

    Em 1968 os tanques do pacto de Varsóvia invadiram a Checoslsváquia.

    Mais tarde a União Soviética invadiu o Afeganistão.

    A esquerda COERENTE condenou estes dois atentados aos direitos dos povos, como condenou a invasão do Vietname, pelo USA .

    Para que conste….

  12. Renato Teixeira diz:

    Não sei que raio de esquerda é essa que tem o exclusivo da coerência, mas a minha foi contra a ocupação soviética do Afeganistão e da Checoslováquia.

    No que diz respeito ao Vietname não conheço nenhuma esquerda que tenha apoiado a invasão.

  13. Jorge diz:

    A posição do Sr. Miguel Cardina pode ser esta:

    “Não me metam no assunto, seja Nato, seja talibãs… desligo-me da situação do médio oriente… não percebo nada de Fallujah, nem do cerco a Gaza… não sei do exército de Israel… deixa-me comprar “O Público” e ver as setas de quem desceu e subiu na consideração dos portugueses… deixa-me ir para casa fazer um bocadinho de zapping na televisão… o que é isso de imprensa alternativa?…”

    Infelizmente, já me acostumei ao que são os “politicamente correctos” da nossa praça.

  14. Vitor Ribeiro diz:

    “porque se colocam à mesma distância do colono e do colonizado?”
    Para que alguém possa responder em consciência a esta pergunta é primeiro necessário que se perceba ou esclareça quem são o ‘colono’ e o ‘colonizado’. Ora, face às duas únicas opções que o texto apresenta, e se bem que o ‘colono’ me pareça evidente, confesso não ser capaz de vislumbrar o ‘colonizado’ em nenhuma delas…

  15. m diz:

    Jorge,

    Já recorre a esse argumento típico da direita conservadora de acusar o adversário de “politicamente correcto”?

  16. Renato Teixeira diz:

    O povo afegão Vitor Ribeiro, em todas as suas categorias e com todas as suas contradições.

    m, a direita conservadora acusa quem de ser politicamente correcto?

  17. Pedro Pousada diz:

    Caro Renato os afegãos ainda tem saudades da suposta ocupação soviética, e sobretudo do martirizado Najibullah-recentemente uma reportagem da televisão russa mostrava uma visita ao antigo palácio da cultura de cabul, agora uma shooting gallery para os heroinómanos locais, o cicerone era o chefe da brigada anti-narcótico, um filosoviético que se recordava de ter aprendido artes marciais e assistido a espectáculos nesse agora decrépito edifício; o que veio a seguir foi um regresso ao passado e o que se vive agora é puro colonialismo.razão tem os cubanos, um povo unido e armado jamais será vencido, acredito que os afegãos aprenderão o seu caminho e como aconteceu com o hezbollah os grupos radicais compreenderão que os comunistas (ainda activos na resistência) são os aliados mais leais e consequentes para vencer a ocupação.

  18. m diz:

    Renato, regra geral acho que não fazem distinção. Para eles só há dois campos e ou se está com eles ou contra eles.

  19. Jorge diz:

    m,

    Se não está nem pela NATO, nem pelos talibãs, então está do lado de quem, afinal? Dos direitos humanos? Das brigadas pela paz (aquelas que não existem)?

    A situação no médio oriente é demasiado complexa para fazer apenas a distinção entre NATO e Talibãs…

    Aquilo que me chateia mais, nestes comunicados e nestas pequenas comunicações é o esquecimento sobre outros assuntos…

    Assim, por exemplo, quantos já morreram no Iraque? Um milhão e duzentos mil? Cerca disso? Quantas crianças iraquianas vivem desprotegidas e sem os seus pais? Quantos são, afinal, os refugiados iraquianos? Quantos são os refugiados palestinianos – aqueles que viviam no Iraque?

    Gostaria também de saber se há hipótese de verificar todos os atropelos e ilegalidades, já para não falar em actos de violência, que são cometidos diariamente contra o povo palestiniano – os que vivem em Gaza, na Cisjordânia e cerca dos colonatos.

    O “politicamente correcto” é mencionar apenas “NATO” e “talibã” e esquecer tudo o resto.

    E porque não falar no julgamento de Saddam Hussein? No cerco a Fallujah e nas crianças que nasceram com deformações, derivadas desse massacre norte-americano?

    O médio oriente não é só uma coisa. São várias que chateiam e me(nos) agridem diariamente.

    Por exemplo, chateia-me saber que, enquanto vemos a televisão e compramos o jornal, mais uma ou duas crianças iraquianas foram mortas, devido a esse enorme crime que foi a invasão do Iraque.

    Não é só NATO/talibã… há muito mais e é muito mais chocante e merecedor de atenção do que China, Putin, Chávez… e tudo aquilo que a nossa imprensa publica.

  20. m diz:

    Jorge,

    Mas não se consegue indignar com todas essas situações, tomar posição sobre elas, actuar dentro das suas possibilidades para que a situação se altere, e ainda assim não ter que erguer a bandeira talibã?

    Pergunta-me afinal de que lado estou. É simples. Estou contra a Nato e contra os Talibãs, que considero serem diferentes manifestações da mesma lógica opressora. Acha que quando houve aquelas grandes manifestações contra a invasão do Iraque as pessoas que delas participaram estavam a favor do Saddam Hussein? Isso de dizer que quem não está pelos Talibãs é neutral ou equidistante é uma falácia que parte de premissas erradas.

  21. carmo da rosa diz:

    @ Renato Teixeira: ”Para que amanhã os afegãos tenham ainda uma hipótese emancipadora, teremos, infortunadamente, que fazer unidade com as forças de resistência à ocupação da NATO, o que no Afeganistão tem o nome feio dos Talibãs.”

    Estou de acordo com a totalidade do texto menos esta frase…

    Veja lá se compreende uma coisa, os afegões já de si não são bonitos, mas os Talibãs porra, parecem que fazem de propósito, são feios como a puta que os pariu! Por isso, o melhor é mesmo as forças da NATO ocuparem o país, mas não só! Vá de retirar as burkas as afegonas e toca de as engravidar, em vez de andarem aos tiros ou queimar plantações de papoilas! Toca de misturar aquela raça amaldiçoada pelo Altíssimo com gente mais apresentável e certamente mais inteligente…

  22. Vitor Ribeiro diz:

    Ok, Renato, se é o povo estamos entendidos.
    Agora não me faça por favor escolher entre um colono e outro, ainda para mais quando um deles foi inventado, financiado, armado e treinado pelo outro enquanto deu jeito para fazer exactamente aquilo de que agora esse queixa (ou, supostamente, foi para lá combater).
    Falando claro: que o povo afegão possa ver nos talibãs uma certa capacidade de salvação ou libertação, eu até sou capaz de compreender, mas daí a esquecer-me de quem são e o que querem esses ‘meninos’ vai uma grande diferença.

  23. Renato Teixeira diz:

    Vítor Ribeiro, não se trata de perdoar nenhum crime a quem quer que seja. Trata-se de perceber que não se vencem tiranos internos sob ocupação estrangeira.

  24. Sabemos que vimos o cúmulo do sectarismo quando um esquerdista está tão ansioso para se distanciar das várias correntes de esquerda (todas revisionistas e social-fascistas, na sua visão) que até cai no ridículo de defender que a melhor forma de libertar o Afeganistão do fanatismo islâmico é apoiar os Talibãs.
    Proponho que o Renato vá já para o Afeganistão negociar alianças com os seus amigos Talibãs. Eu até ia mas sou demasiado social-democrata para achar que faz sentido a esquerda apoiar o fascismo islâmico.

  25. Renato Teixeira diz:

    Isto vai lá é com mezinhas, panos quentes, meia-dúzia de vigílias e outras quantas marchas pela paz. É isso Ricardo Coelho? Com quem faria então unidade militar? Releia a posta e vai ver que não encontra qualquer simpatia política pelos Talibãs. Estou certo que saberá distinguir a diferença, ou não gostou da marcha das tropas soviéticas sobre Berlim?

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  27. Portanto, se bem compreendo, a esquerda não deve apoiar os Talibãs nem deve ter qualquer simpatia política mas deve apoiá-los militarmente na sua luta contra os EUA. Para mim, que caio facilmente em mitos social-democratas como o pacifismo, a democracia e o feminismo isto não faz qualquer sentido mas para quem está à minha esquerda, muuuuito à minha esquerda, deve fazer.
    A minha posição, Renato é bem clara: defendo a “equidistância”, para usar o termo que está no post, relativamente à NATO e aos Talibãs. A distância a que quero ambos é a mesma: longe, bem longe. E o mesmo se aplica a quem defende a matança de civis que ambos praticam.

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