Em vésperas de ir para os Estados Unidos, os meus irmãos deram-me um único mas prudente conselho: “Leva uma poltrona! Leva a enciclopédia geral! Leva caixas de espargos!”. Quem passou as férias a ler o Moby Dick em vez de reler “A Cidade e as Serras” é capaz de não se lembrar, mas isto é o que o Jacinto diz ao Zé Fernandes quando o amigo lhe anuncia que tem de regressar à Guiães natal, abandonando a Paris civilizada para acorrer aos negócios do tio.
“—‘Para Guiães! Oh Zé Fernandes, que horror!’ E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, tão longe da Cidade, uma pouca de alma dentro de um pouco de corpo.”
Sem espaço para a poltrona, eu levei os espargos, 600 deles, muitos isqueiros, e patchs de nicotina suficientes para dopar a tripulação de um Jumbo 747 durante a volta ao mundo em 80 dias; e quando, depois de duas semanas a viajar nesse remoto país, me perderam a bagagem (que não foi parar a Tormes, Salamanca, mas sim a Tóquio, Japão), e me vi sem uma muda de roupa nem uma pasta de dentes a que chamar minha, dei graças à previdência que me levou a acomodar os legumes na mochila e não na mala.
Ser fumador sujeita-nos a muita maçadazinha, mas em lado nenhum encontrei esta perseguição aos fiéis da Igreja Adventista da Nicotina a Todas as Horas, claramente uma violação da liberdade religiosa instituída pelos Pilgrims Fathers. Em Berkeley, tinha eu acabado de fumar um cigarrinho num jardim a céu aberto, numa área sem proibições à vista desarmada (não sem antes confirmar com um grupo de estudantes que era possível fumar ao ar livre, sim, sem ser desterrada para Guantanamo), quando vem uma fulana a sprintar de sirene ligada e nos interroga, numa excelente imitação do Hercule Poirot com tensão pré-menstrual: “Qual de vocês estava a fumar?!? Qual de vocês estava a fumar?!?!”. Os meus companheiros, solidários, não quiseram denunciar-me, e eu não quis que o grupo perdesse as bolsas e subsídios que lhes permitem a frequência dessa nobre instituição de ensino por minha causa, por isso não tive outro remédio senão chegar-me à frente e confessar o crime. “I’m sorry… I didn’t know… There aren’t any signs… I didn’t know… I’m… European…”. Foi quanto bastou para aplacar a fúria da brigada anti-tabaco. “Enough said”, mãos erguidas em sinal de paz para com a apache europeia; “I apologize for getting so angry” (“incensed” would have been a better word, mas esta é a falta de rigor semântico que se encontra hoje nas universidades americanas), “mas o problema é que o fumo sobe e entra pelos nossos gabinetes!”. Ela tinha cara de quarenta e muitos anos a desafiar o cancro de pele sem protector solar, mas músculos mais sólidos que eu aos 18, por isso aposto & ganho que faz parte das massas que fazem jogging no meio do trânsito, peito aberto ao dióxido de carbono, deixai vir a mim o desgaste das articulações e o enfarte do miocárdio, mas o glorioso aroma do tabaco in the morning, vade retro, fumador. Esta neurose com a saúde e a insensatez dominante produzem outros cocktails pouco potáveis; eu acho enternecedor que me peçam identificação para me servirem um inocente copo de vinho, quando é patente e notório que deixei de ter 21 anos há quase outros tantos, mas parece-me que se uma criatura pode levar com um balázio aos 18 ao serviço do imperialismo pátrio, também tem idade para emborcar um shot sem ter de prestar contas a ninguém, Zé Fernandes.




sempre um prazer de ler…
Sempre amável…
Atenção Morgada de V., há ruas inteiras em NYC onde não se pode fumar, e muito menos no deck (ao ar livre) para Ellis Island, por exemplo.
Pena não lhe dar jeito levar o elevador que fazia os encantos do Jacinto.
Take care…
Foi aos States ?!
Ao antro do IMPERIALISMO ?!
E sobreviveu…
Deo gratias !!!!
Caríssima Morgada, faço minhas as palavras da cara ana cristina leonardo.
Um bem haja para si,
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