Alguns doentes mentais, algumas proibições (!?)

Efectivamente, Wagner escreveu em 1850 o texto “Das Judenthum in der Musik”, mas como chamar antisemita a um homem que tinha entre os seus maiores amigos judeus, e era em judeus que ele mais confiava musicalmente, ao ponto de ser um judeu a dirigir a estreia daquele que seria o seu testamento espiritual e musical, Parsifal?

De facto, a perplexidade é enorme perante a obra e o homem, que morreu em 1883!

Como escreveu textos antisemitas e era adorado por Hitler (diz-se, mas eu não sei o que é o “gostar” em Hitler), é um autor oficiosamente proibido em Israel. A situação é tão absurda e ridícula quanto se fosse também proibida naquele país a prática da aguarela, de que Hitler era amante/praticante amador e candidato excluído à Academia de Belas-Artes de Viena (duas vezes, no princípio do século).

Post a propósito disto:

Katharina Wagner, co-directora do festival de Bayreuth, dedicado ao seu bisavô, Richard Wagner, retirou o convite à Israel Chamber Orchestra para abrir a próxima edição do festival devido à indignação de sobreviventes do Holocausto em protesto contra a possibilidade de uma das mais conhecidas orquestras israelitas acabar com o boicote à música de um compositor tido como um antisemita e o favorito de Hitler.

(…)

Apesar de não actuarem no festival no próximo Verão, os músicos israelitas deverão, mesmo assim, actuar na cidade de Bayreuth. Os membros da orquestra foram informados de que não são obrigados a fazer parte do evento e de que nenhum dos ensaios de Idílio de Siegfried, a única peça de Wagner no programa, será feito em solo israelita.

E é com o Idílio de Siegfried, proibido em Israel, que acaba o post; por Georg Solti, talvez o seu melhor intérprete:

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24 Responses to Alguns doentes mentais, algumas proibições (!?)

  1. Da minha ópera favorita, por uma das minhas intérpretes de eleição (a última vez que vi isto foi no São Carlos de Lxª, com a Janine Altmeyer — a Sieglinde do Ring de Chéreau/Boulez a fazer de Isolde).

    http://www.youtube.com/watch?v=_mOA8pZ_I4M

    Quero cá saber se o Wagner era facho ou não, a quem faz música desta perdoa-se tudo.

    😉

  2. Carlos Vidal diz:

    Tudo.

    E mais: o homem morreu em 1883, e é nosso, digamos assim, um cume da “cultura europeia” – que Israel agride impune e continuadamente.

  3. André diz:

    Os Judeus também eram nossos e contribuíram mais para a cultura Europeia do que 5000 Vidais.

    Tem toda a razão: Wagner e o seu anti-semitismo é inegavelmente Vosso. Fiquem com ele.

  4. Carlos Vidal diz:

    André, enormíssimo André, assim mesmo é que é.

  5. Abilio Rosa diz:

    Só tenho pena é do brilhantíssimo Richard Wagner não ter sido um bom bolchevique.

    A música dele é empolgante, arrasadora e tremendamente revolucionária para a época.

    Ainda hoje é dificil alguém o superar!

  6. Andre diz:

    “Como escreveu textos antisemitas e era adorado por Hitler (diz-se, mas eu não sei o que é o “gostar” em Hitler), é um autor oficiosamente proibido em Israel. A situação é tão absurda e ridícula quanto se fosse também proibida naquele país a prática da aguarela, de que Hitler era amante/praticante amador e candidato excluído à Academia de Belas-Artes de Viena (duas vezes, no princípio do século).”


    wagner nao foi banido em Israel porque hitler gostava dele.

    foi banido por compartilhar os ideais de hitler de forma explicita e clara.

    eu n concordo com a proibiçao. mas compreendo-a. os sobreviventes do holocausto merecem esta demonstraçao de respeito.

    os srs perdoam tudo, claro. se os temas de Alfredo Merceneiro tivessem sido escolhidos como pano de fundo para a erradicaçao de toda a comunada portuguesa, gostaria de saber como seria hoje tratado o fado de coimbra por V. exas. a Amalia a tocar enquanto
    vocemesses sao fuzilados no rossio aos milhares.

    a musica de wagner era usada nos CAMPOS. e voces querem que um pais de sobreviventes tenha que ouvir isto? os sobreviventes nao merecem respeito? o respeito que israel lhes deve deve suplantar qualquer argumento em nome da liberdade de expressao. a musica de wagner era anti-semita? claro que nao. esta sensatez fria e calculista que separa a musica de wagner dos seus ideais e’ , intelectualmente falando, perfeitamente defensavel. mas nao e’ aceitavel.

    claro que sim. para os que nao passaram pelos campos…e’ muito facil perdoar TUDO.

    http://users.belgacom.net/wagnerlibrary/prose/wagjuda.htm

  7. Andre diz:

    Israel agride a “cultura Europeia.”

    Voce e’ um perfeito pacovio, Vidal.
    Sabe disso, nao sabe?

  8. Andre diz:

    e’ NOSSO. wagner e’ NOSSO. cume da NOSSA CULTURA EUROPEIA.

    pergunte a um alemao se o wagner e’ europeu ou alemao?

    a cultura alema e’ a minha cultura. como? quando? e’ minha porque eu ouço wagner e adoro a sua musica, diria o sr?? e’ minha porque eu li goethe (no original) e adoro nietzsche?? estas minhas predileçoes demonstram a minha pertença a cultura Alema? claro que nao.

    eu conheço a cultura alema, Vidal. mas a cultura alema NAO e’ minha.

    o complexo de inferioridade portugues e’ a coisa mais patetica que eu ja vi na minha vida.

  9. joão viegas diz:

    Bom, o que o post pretende demonstrar, é que não existe coisa nenhuma neste mundo, por mais bela que seja, que não possa ser conspurcada e instrumentalizada ao serviço de uma reles polémica boçal.

    A grandeza de um Wagner, tal como a de um Chostakovitch alias, reside precisamente ai : a beleza da sua musica é perceptivel por TODOS os ouvidos, até pelos dos mais empedernidos cretinos.

    You proved your point…

  10. Zegna diz:

    as mentes judaicas têm sempre pontos de vistas masoquistas mesmo assim a comunidade internacional assiste a isto e ainda bate palmas……

  11. Carlos Vidal diz:

    Conclusão: André é o Chico da Tasca.
    (Há aqui Andrés a mais, como no post abaixo.)

  12. Ricciardi diz:

    Vidal, filho, o problema não está na musica de Wagner, está no que ela faz lembrar…

    … não se lembra, nem deve ter ninguém que lhe lembre, mas a musica de Wagner era tocada enquanto ‘carne humana’ era queimada…

    Um dia, quando o tempo ultrapassar o que a memoria ainda não esqueceu, a arte de Wagner será bem-vinda.

    Até lá… meta-o no iphone, coloque auscultadores, e bem alto imagine o que representa aquela musica para quem a ouviu pela ultima vez…

    RB

  13. A minha versão do Tristãoé com a Dernesch, o Vickers e salvo erro a Ludwig. Axo que tenho outra. A minha versão do Ring é a do Chéreau/Boulez que passou na TV aqui.

    Podem-se realmente separar coisas.
    Ainda me lembro de uma entrevista que o Jon Vickers deu ao Avant-scène de lOpéra (Chamava-se “La Lumière Noire”, algum dos meus amigos ainda há-de ter isso…) a dizer que desprezava o personagem de Tristão, espécie de traidor filho-da-mãe. O que não o impediu de o cantar maravilhosamente.

    Enquanto fazia as Wesendonck Lieder o Wagner atirou-se à Mathilde Wesendonck, em casa deles, nas trombas do marido. Ele deixou.

    Se os israelitas não se querem emocionar perante a magia e a beleza por causa de umas merdas que aconteceram no passado, a perda é deles, axo eu.

    Lembro-me perfeitamente, no meu camarote do São Carlos estávamos todos a chorar quando foi da Morte por amor/Liebestodt de Isolde, e eu olhei em volta, não éramos só nós…

  14. Karl diz:

    Essa defesa do Wagner faz lembrar aquela do “racista, eu? até tenho amigos pretos!”

  15. Hans diz:

    “a beleza da sua musica é perceptivel por TODOS os ouvidos, até pelos dos mais empedernidos cretinos.”

    Ena, o João Viegas já decidiu isto.

    Atenção: A beleza da sua musica (de wagner) PODE ser perceptível por todos os ouvidos. PODE. O espírito humano por vezes assume posturas megalómanas perante a omnipotência das probabilidades. LOL…

    A beleza da música de Wagner tem pouco ou nada que ver com o FACTO de que a musica de wagner foi a musica de um regime…era o que se ouvia nas ruas. O adolfinho himself proclamava publicamente o seu afecto auditivo pela coisa. Era, como é que se diz???…a MUSICA DO REGIME. Fisga-se. Respirava-se Wagner pelas ruas, concertetos, concertinas, tertúlias, associações de pais, de mães, de avos e avos get it?????? Wagner era uma condição existencial. Um factum brutum, por assim dizer. Ena. Além disso, para complicar ainda mais as coisas, o gajo era mesmo um filho da puta de um nazi!!!!!Tudo isto é insignificante??

    Será assim tão absurdo a osquestra nacional de israel se recusar a tocar Wagner na Alemanha??? A musica de wagner para um judeu não é e jamais poderá ser APENAS a musica de Wagner. É algo perfeitamente compreensível. Desculpem-me, meus caros, mas se vocês são incapazes de IMAGINAR a cena, o contexto histórico, a natureza dos actos cometidos, a repulsa, enfim, se vocês não conseguem imaginar a possibilidade de que a mente humana também funciona por via da ASSOCIAÇÃO de um som a uma experiência (Metafórica; por vezes) …

    Então a cretinice é toda Vossa.

    Não estudem história. Vocês tratam mal a empatia histórica, diria Herr Dilthey. Que falta de sensibilidade. Porra. Eu tou nas docas de Liverpool?

  16. Hans diz:

    Zegna,

    haagen daas.

    fruitcake

  17. Hans diz:

    André ist fraulein Schnoootle, herr vidal. LOL

  18. Karl diz:

    Convém não esquecer que Cosima fez de Beyreuth um antro de antissemitismo.
    E é capaz de ser boa ideia passar os olhos por isto: http://en.wikipedia.org/wiki/Das_Judenthum_in_der_Musik#Wagner_and_the_Jews

  19. Esta é uma daquelas postas cheias de electividades afectivas, tanto deliquio deleitoso e o que é que tenho a ver com essas proibições?

  20. Carlos Vidal diz:

    Hans, perdão, ezequiel, perdão, Hans, vá descansar.

    Karl, julgando-se esperto:
    «Essa defesa do Wagner faz lembrar aquela do “racista, eu? até tenho amigos pretos!” »

    Não, não é.

  21. joão viegas diz:

    Caro Hans,

    Por favor releia com atenção o meu comentario e considere pousadamente quem são, na realidade, os empedernidos cretinos a quem me refiro…

    Vai ver que, no fundo, concordamos.

  22. Hans diz:

    Her Von Vidal ist und sherlock como deve ser!!

    um bom aufklarung para si, sr prof. 🙂

  23. melhor superar o dogmatismo metafísico e os teus, cá pra mim no drama musical wagneriano sou mais pela dramaturgia ( livret et mise en scène).

  24. é que a musica tem uma toada muito marcial e tal.

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