Os mistérios da República à luz de um mínimo de conhecimento histórico

Se eu escrevesse posts sobre física ou química, também eram capazes de ficar assim, coxinhos. Mas eu não escrevo posts sobre física nem química, e se calhar a estimável Palmira Silva também não devia escrever posts sobre história, que têm um certo ar de redacções do ciclo preparatório. Eu sei bem que a data devia ser festiva (embora não se notasse muito), mas o espírito comemorativo não explica tudo: não chega, por exemplo, dizer que a I República devia ter dado o voto às mulheres para ser mais democrática: é preciso dizer também que a I República era anti-democrática porque negava o voto aos analfabetos, que eram a grande maioria dos portugueses e a esmagadora maioria de quem trabalhava, mulheres e homens.

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SEXTA | António Figueira
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22 Responses to Os mistérios da República à luz de um mínimo de conhecimento histórico

  1. República instaurada pelas lojas maçónicas portugesas, com o apoio da maçonaria francesa e americana… está-se à espera do quê???

  2. Ó António Figueira,
    e em quantos países da Europa dessa época é que se praticava o sufrágio universal masculino?

  3. António Figueira diz:

    Ricardo Alves,
    Como V. provavelmente também saberá, já havia à época sufrágio universal masculino ou perto disso em vários países europeus, de França para cima, e a tendência consolidou-se com a I Guerra. Nada de comparável com Portugal. Duas evidências: primeira, havia monarquias muito mais avançadas no plano da representação política que a República portuguesa, o que prova a irrelevância prática da questão do regime nesta matéria; segunda, a generalidade dos partidos “avançados” na Europa da época fazia sua a causa do sufrágio universal, ao contrário dos republicanos portugueses, o que também confirma o seu elitismo e a concepção “utilitária” que tinham do papel das massas na política.

  4. António Figueira diz:

    Eu disse “utilitária”? Devia ter dito “instrumental”.

  5. Leon diz:

    Muito bem dito, António. Sucinto e perspicaz, como sempre. É de facto curiosa esta aplicação fervorosa do deveria ter ou ser ao passado.

  6. Justiniano diz:

    Talvez se devesse esclarecer que a República queria ser, por natureza, apenas República. Espaço de virtudes e não de virtuosidades, uma vez que não havia, àquele tempo, nem tempo nem paciencia para aturar as alminhas democráticas. Nem sei onde foram buscar essa pretensa aspiração democrática à pobre República!!

  7. Abilio Rosa diz:

    A I República foi uma república ao serviço da burguesia e do capital.
    Visceralmente anti-democrática, perseguiu os operários, os sindicatos, e as manifestações dos trabalhadores.
    O voto nem sequer chegava a 10% da população e estava manipulado por caciques locais, ao serviço dos latifundiários, proprietários, industriais e alta burguesia.
    Arrastou para uma guerra imperialista centenas de milhares de camponeses que foram dizimados nos campos das Flandres.
    Os mais humilhados da sociedade daquele tempo e os herdeiros da luta dos trabalhadores, o Partido Comunista, não tem nenhumas razões de festejar essa merda!

  8. No Reino Unido, em 1910, só votavam 40% dos homens. Em muitos outros países havia restrições. Muitos ainda hoje não deixam os estrangeiros votar. Mas ninguém caracteriza esses regimes a partir daí.

  9. António Figueira diz:

    Ricardo Alves,
    Parece-me de facto muito sensato não caracterizar esses regimes a partir daí. Para sua eventual informação, no Reino Unido, por exemplo, só nos anos 40 é que acabou o voto plural para certas categorias do eleitorado; espero contudo que não tenha a falta de bom senso de afirmar que o UK não era uma democracia política à época. A introdução do sufrágio universal no Reino Unido foi gradual, e passou por sucessivos Reform Acts, que alargaram progressivamente o eleitorado e impuseram o princípio “um homem, um voto”, durante cerca de um século, de 1837 (salvo erro) até ao pós-guerra. A comparação com Portugal é penosa, e pouco simpática para a República: o corpo eleitoral diminuiu em 1910, por comparação com a monarquia liberal, e pouco passava do meio milhão de potenciais votantes, para uma população dez vezes maior. Acha mesmo que vale a pena continuar esta polémica, ou tem alguma revelação sensacional para fazer?

  10. Pingback: História jugular « O Insurgente

  11. assinaolado diz:

    que estucha do caneco! tou-me a borrifar para a drª propriamente dita mas fiquei com a ideia que assinalou o facto (nem vou reler) quando refere a cisão dos tais grupos feministas. Sempre que se fala de mulheres leva-se com um grande “shiu, que´isso é de segundo plano, fala mas é do que é para todos”. Ok, tão do lado certo da gramática, quando dizem “todos” estão incluídos de certeza. Uma nota, uma gaja nova que queira perceber a história SABE, descobre isso que estão a falar (o todos, classes) e tem que abrir uma camada “só gajas” (que não é uma classe, é MUITO mais estranho) para cruzar as duas, até porque a informação está muito mais enterrada. É uma estucha que essa informação util, boa, dos comentários acima não consiga ser lida em cruzado com o todAs, só com o todos. Como se a cabeça não chegasse lá, and yet it thinks…

  12. António Figueira diz:

    assinaolado,
    temo q V, para além de assinar, também leia ao lado: o problema aqui não é de género, é de quantidade.

  13. tragediaGeek diz:

    A “redacção” da Palmira sobre o voto das mulheres, por acaso, até diz que “a I República era anti-democrática porque negava o voto aos analfabetos”. Não o diz com essas letras todas mas está lá como qualquer criança do ciclo preparatório percebe.

  14. António Figueira diz:

    Pois está, como é que eu não vi?! Obrigado, TragediaGeek, pelo seu oportuno comentário.

  15. António Figueira,
    à época, todas as democracias eram de base censitária. É só isso que estou a sublinhar. Podemos discutir se restringir o voto aos que têm propriedade é melhor do que restringi-lo aos que têm instrução, mas com 75% de analfabetos compreende-se melhor os últimos.

  16. António Figueira diz:

    Ricardo Alves,
    1 – Não é rigoroso dizer que, em 1910, todas as democracias eram de base censitária, em 1910 já havia sufrágio universal em vários países, na Europa e fora dela;
    2 – Noutros países europeus, nomeadamente no R-U, que V. usa para exemplo, a franquia eleitoral foi-se alargando progressiva e significativamente desde a primeira metade do século XIX;
    3 – A generalidade dos partidos radicais e socialistas europeus defendia esse alargamento da franquia eleitoral e o sufrágio universal, pelo menos masculino;
    4 – Nada disso se passou em Portugal: a legislação eleitoral da República Portuguesa era consideravelmente mais anti-democrática do que a de muitas monarquias europeias e não se conhece ao PRP nenhuma intenção de conferir o direito de voto à grande maioria da população, que era analfabeta.
    V. tem todo o direito de gostar da República; as crenças têm razões misteriosas e eu próprio sou do Sporting; pf não diga é que a República era democrática (não era), que quis ser democrática (não quis), que confiava no voto popular (não confiava) ou que era mais democrática que muitas monarquias europeias: não era certamente por o Sr. Manuel de Arriaga ser Presidente e Eduardo VII ser rei que Portugal era mais democrático que o Reino Unido, ou a Bélgica, ou a Suécia, ou… preciso mesmo de dizê-los todos? Acho que não.
    Cumps., AF

  17. António Figueira,
    estou sobretudo enfastiado das hipocrisias nesta discussão.

    Os republicanos terem votações eleitorais reduzidas antes de 1910 é considerado prova da sua pouca popularidade; o partido católico ter muito menos quando concorreu lá para o final da 1ª República, já é prova de fraude eleitoral.

    A direita conservadora que hoje se opõe à expansão do universo de sufrágio, critica a exiguidade do mesmo há 100 anos; os filo-bolcheviques que não ligam muito a eleições criticam a 1ª República (que as fazia, com vários partidos), mas não a URSS (que quando as fez, foi com partido único).

    Enfim.

  18. António Figueira diz:

    Ricardo Alves,
    Registo uma notável evolução no seu último comentário: já desisitiu de tentar sustentar o insustentável – isto é, o carácter democrático da I República – e passou a tentar caracterizar a suposta hipocrisia de quem assinala a sua evidente falta de democraticidade. A pouco e pouco V. vai lá: qualquer dia é capaz de reconhecer que eleições com vários partidos já se faziam em Portugal antes da I República, e que até para isso o 5 de Outubro de pouco serviu.

  19. assinaolado diz:

    “não é de género, é de quantidade.”…hum? A ver se percebi….
    Discursos de genero são discursos de minorias. Minorias têm a ver com quantidade? Não. Minorias são pessoas definidas como excepção à |norma a partir da qual se desencadeia a regulação|. Defender o voto para uma minoria não desencadeia a restrição do voto à norma (ou tem razões para suspeitar que sim? mas a definição/essencialização de uma minoria tem como objectivo fazê-lo). A cisão republicana feminista entre o voto a letradas e iletradas implica que um grupo, republicano, defendia o voto independentemente da literacia para homens e mulheres nacionais |omisso colonialismo|, em oposição prática a 3 outras opiniões republicanas (letradas, só homens que saibam ler, só homens). Não viu, não reparou; justificava uma crítica à “prosa fraquinha”, ok. Uma contribuição condescendente por se perceber mais habilitado, tudo bem. Mas será que não viu/não reparou/repudiou em vez de acrescentar por falta de habito nos discursos minoritários (rotação da excepção ao leitor principal_o leitor É tomado como parte da minoria), que tantas vezes enfurece as pessoas contra discursos de genero_clamando-os acessório, apêndices, precisamente excepções? (e digo falta de habito por esperança_porque tantas vezes acontece em que sinto que são reminescências identitárias dos tempos de outras senhoras….)

  20. António Figueira diz:

    “Discursos de genero são discursos de minorias” é uma frase que me lembra uma outra, atribuída faz muitos anos a Lauro António (não sei se justamente), segundo o qual as mulheres são a maior minoria sexual em circulação, muito maior que a dos homossexuais; e essoutra “Minorias têm a ver com quantidade? Não. Minorias são pessoas definidas como excepção à |norma a partir da qual se desencadeia a regulação|” parece-me demasiado inverosímil para ser verdadeira: se maiorias e minorias não têm que ver com quantidade, então a lógica é uma batata, o MRPP ganhou as últimas eleições e V.Exa tem toda a razão (sobre este assunto ou outro qualquer).
    PS Gostei do uso dos ||,//,_ _; um dia também vou experimentar.

  21. tragediaGeek diz:

    António Figueira, eu não assino ao lado mas às vezes leio de lado os textos da PS cujo uso exagerado da adjectivação (ainda por cima são sempre os mesmos adjectivos) têm esse efeito na minha trágica pessoa. Li melhor depois do expediente e, enfim, cá estou a retirar o que disse.

  22. António Figueira diz:

    tragediaGeek,
    tragedy is in the air, ataca-nos a todos, também não pretendo a melhor das leituras sempre, vai-se tentando.
    Abraço, AF

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