Existem movimentos sociais sem instrumentalização?

O Zé Neves, a propósito de um texto do Spectrum sobre a instrumentalização dos movimentos sociais pelos partidos, opinou o seguinte: “os funcionários e dirigentes de um partido (e não estou a falar do dirigente da célula do BE de cabeceiras de cima ou do colectivo da faculdade xpto) têm todo o direito a participar activamente em movimentos, associações ou coisas do género, mas era bom que não o fizessem”.

O meu desacordo não podia ser mais total. Como votante ocasional naqueles dois partidos, aquilo que me irrita é o excesso de dirigentes do PC e do BE no parlamento. Acho que a maioria dos dirigentes partidários da esquerda devia ser obrigada a participar em movimentos sociais, em sindicatos e em iniciativas populares. Embora isso, por si só, não bastasse, era uma forma de contribuir para esses partidos não serem instituições dependentes do calendário eleitoral que se tornaram meras máquinas apostadas na manutenção dos respectivos grupos parlamentares.

Acresce a isso, que apesar de não ser militante de nenhum partido, me irrita esta espécie de racismo dos “puros”: ‘o bom movimento é aquele que é independente’… mas todo o movimento não é dependente das pessoas que o constituem?  A prática prova que o sectarismo não é exclusivo dos militantes partidários, há muito tipo do  sem-partido que é tão sectário, como o mais grunho dos dirigentes partidários.

A questão normalmente levantada é que os movimentos sociais têm determinados objectivos e os partidos têm outros completamente diferentes. Neste sentido, a participação de dirigentes partidários desviaria os movimentos da sua pureza natural. Entendamo-nos, não há objectivos “naturais”. Um movimento é definido pela acção daqueles que lá estão. A criação de um movimento social não é o resultado de uma determinação biológica ou geológica. Os movimentos sociais são criações de activistas, com as suas ideias e objectivos. Nesse sentido, parece-me divertido argumentar que os dirigentes partidários, ao participarem num movimento social, não estão, usando exemplo dos trabalhadores precários, interessados em promover a auto-consciencialização e auto-organização dos precários, mas apostados em  instrumentalizar a sua luta. Sinceramente, acho que o objectivo de ‘auto-consciencializar e auto-organizar’ uma classe profissional é tão ideológico e instrumental como o de fazer do seu combate um contributo para uma luta contra o capitalismo, pelo socialismo, ou mesmo pela quarta, a quinta ou a sexta internacional. Tudo depende da forma como se vê a sociedade e a sua transformação. Não falando que esse “auto” imposto de fora é já de si, uma das muitas “instrumentalizações” possíveis, apenas digo que não se pode pedir que um marxista participe num movimento social  para cumprir a agenda política de um anarquista ou de um sindicalista da UGT.

No fundo, o que o Neves propõe é que alguém que milite num partido que acredita na teoria da existência de uma vanguarda revolucionária faça o favor de passar a ter os pontos de vista dele, sobre a inexistência de vanguardas revolucionárias. Acho absolutamente legítimo que o Zé tenha as suas convicções, já me parece mais complicado pretender fazer delas pensamento único em matéria de participação nos movimentos sociais

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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