Alguém faz o favor de traduzir e editar este livro em Portugal?

O que me faz mais impressão é que a academia israelita – para o pior e para o melhor, uma extensão das academias norte-americana e britânica – tenha precisado de chegar ao século XXI para “receber” Gellner e todo o chamado “modernismo” nos estudos sobre o nacionalismo, e para perceber (entre muitas outras coisas) que, se até ao marxismo é atribuído um prazo de validade, essa fantástica construção histórica que é o sionismo tem esse prazo já desde há muito perimé. O poder da ideologia não cessa nunca de me espantar.

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SEXTA | António Figueira
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12 respostas a Alguém faz o favor de traduzir e editar este livro em Portugal?

  1. Luís Teixeira Neves diz:

    Mas o livro não está traduzido e editado ou simplesmente está esgotado e a precisar de ser reeditado?! Em todo o caso a edição inglesa está disponível e adquire-se facilmente pela Internet.

  2. Leo diz:

    Muito mais actual é o relatório da missão do Conselho de Direitos Humanos da ONU à flotilha:

    Report of the international fact-finding mission to investigate
    violations of international law, including international
    humanitarian and human rights law, resulting from the
    Israeli attacks on the flotilla of ships carrying humanitarian
    assistance*

    http://www2.ohchr.org/english/bodies/hrcouncil/docs/15session/A.HRC.15.21_en.pdf

  3. José diz:

    “O poder da ideologia não cessa nunca de me espantar.”
    Isso é inteiramente verdade.
    Aplicando-se a favor e contra o sionismo.
    Mas, vivendo-se o pós-sionismo ( e o pós-nacionalismo?), resta o direito dos povos à sua auto-determinação. Mesmo que um povo seja judeu.
    Encontrarás excelentes críticas, genericamente negativas, à obra mencionada do Shlomo Sand, dos historiadores revisionistas israelitas, como Benny Morris e Avi Shlaim.

  4. António Figueira diz:

    “Resta o direito dos povos à sua auto-determinação. Mesmo que um povo seja judeu.” – Não me parece uma frase feliz, não só porque insinua uma discriminação anti-judaica que não existe, como ainda porque dá por incontroversas realidades que não o são: O que é um “povo”? Quem é que atribui esse “direito à autodeterminação”? Como se resolvem os conflitos de direitos?, etc. Repito: o que acho mais notável no livro do Schlomo Sand é que tenha sido preciso esperar até agora para o ler; a história de praticamente todos os países do mundo já foi escrutinada à luz da teoria crítica do nacionalismo, a excepção israelita parece-me um anacronismo intelectual injustificável.

  5. Luís Teixeira Neves diz:

    Desconfio que o José leu as “excelentes críticas, genericamente negativas” à obra de Shlomo Sand, mas não leu a obra de Shlomo Sand. Desconfio que o José nos está a querer sugerir que não vale a pena ler a obra de Shlomo Sand porque existem “excelentes críticas, genericamente negativas à mesma”. Desconfio que com isto o José nos está a querer explicar porque não vale a pena editar ou reeditar a obra de Shlomo Sand em português. Ou porque foi decidido não editar ou reeditar… Ou porque o editor foi dissuadido a não reeditar…

  6. António Figueira diz:

    Encontrei este comentário do Tony Judt ao livro que me parece que toca no mesmo ponto que eu levantei: “Shlomo Sand has written a remarkable book. In cool, scholarly prose he has, quite simply, normalized Jewish history. In place of the implausible myth of a unique nation with a special destiny – expelled, isolated, wandering and finally restored to its rightful home – he has reconstructed the history of the Jews and convincingly reintegrated that history into the general story of humankind. The self-serving and mostly imaginary Jewish past that has done so much to provoke conflict in the present is revealed, like the past of so many other nations, to be largely an invention. Anyone interested in understanding the contemporary Middle East should read this book.” Normalized, that’s the word.

  7. José diz:

    AF:
    não insinuo nada relativamente ao teu texto.
    Acho extraordinário que aches “povo” e “direito à autodeterminação” como realidades controversas. Grandes mudanças desde a FDL.
    Foi preciso chegar aos 800 anos da existência do estado/nação português para, consistentemente, fazer uma crítica ao nacionalismo português. Semelhante processo iniciou-se antes dos 50 anos do estado israelita.
    Não sei se já leste o livro em causa. Se quiseres, posso tentar remeter-te por mail a versão francesa. É uma obra controversa, sem dúvida, mas é um mau serviço à historiografia. Quem gosta de história, independentemente da ideologia que a cada um contamina, reconhecerá fragilidades na fundamentação de algumas teses expostas. Há por ali demasiada Achalogia… demasiadas convicções e poucas fundamentações.
    Por outro lado, pretende ser a contra-prova daquilo que apenas uma minoria ultra-ortodoxa ainda pretende ser verdade: a pureza racial judaica. Tese que os sionistas fundadores e dominantes até finais dos anos 70, de base marxista, não vejo terem alguma vez proposto.
    O judaísmo é algo mais do que apenas um filiação religiosa, é um complexo múltiplo e diverso de consciência cultural, de adesão a valores próprios, cimentado por séculos de resistência a integração ou perseguição.
    O sionismo é um fenómeno recente, secular (para não dizer herético), tornado popular nas comunidades judaicas nos anos 40 et pour cause…
    Para esse fundadores do Estado – e normatizado na legislação fundamental israelita – israelita é todo aquele que for judeu, mesmo que convertido. E a conversão sempre foi aceite no mainstream judaico, explicando que haja comunidades judaicas negras, indianas, chinesas, ou louros e morenos, de feições tipicamente eslavas, alemãs ou com rostos semelhantes a ti ou a mim.

    LTN: quem tem “palas” não sou eu seguramente. Não me limito a ler apenas aquilo que me agrada. E, por falar em insinuações… estamos conversados.
    É sempre bom ler alguém como você, cheio de substância nos seus textos.

  8. António Figueira diz:

    Caro José,
    Já li o livro, na edição que ilustra este post.
    Achas que presta um mau serviço à historiografia; o Hobsbawm e o Judt, por exemplo, discordam; por mim confesso que achei a parte histórica stricto sensu relativamente fastidiosa, mas o problema não é do livro, é meu, porque a história do judaísmo e dos judeus não me interessa por aí além. De há vinte para cá, um dos tópicos de estudo que mais me interessa é o do nacionalismo e da construção nacional, que estudei em vários lados, sob várias perspectivas e sobre o qual publiquei e acabei por me doutorar (razão pela qual problematizo noções que antes me pareciam menos problemáticas, é bem possível e ainda bem que assim acontece); é também nessa óptica que o livro me interessa, e é nessa óptica que eu o acho surpreendente: como vou dizer pela terceira vez, acho espantoso que tenha sido necessário esperar até hoje para analisar o sionismo e o Estado sionista com ferramentas teóricas que estão à disposição da comunidade académica desde o princípio dos anos 80 – e perdoa-me que te diga que o argumento da juventude do Estado de Israel, para o isentar dessa análise, me parece um bocadinho à côté de la plaque, para não dizer outra coisa: olha, o Kosovo nem um ano tem e já se escreveram certamente sobre ele carradas de livros parecidos com este.
    Cumps, AF

  9. José diz:

    AF: não me passa pela cabeça querer “isentar”, como dizes, Israel de qualquer análise, seja ela qual for. A juventude do estado israelita pode ser apenas uma explicação para o atraso nessa análise. Se assim não for, e não quisermos acreditar em teorias de conspiração, do tipo Mossad a reprimir todo e qualquer intelectual que tenha iniciado semelhante trabalho, então só mesmo a distracção poderá servir de justificação.
    Perante os teus pergaminhos nesta área – e, acredita, não estou a ser sarcástico – não quero ensinar o padre-nosso ao prior, mas parece-me que o caso do Sérvia/Kosovo/Albânia é substancialmente diferente do caso israelita/palestiniano, nas suas implicações sobre estados-nações pré-existentes. A Palestina árabe nunca viu a luz do dia, a Jordânia – a outra parte da Palestina do Mandato – apenas tem alguns anos mais do que Israel, não chegando para desenvolver uma narrativa nacional suficientemente sedimentada.
    O que, notoriamente, não sucede no caso da Sérvia. Acho deplorável o que foi feito no caso do Kosovo.

  10. António Figueira diz:

    José,
    O exemplo do Kosovo é apenas um exemplo. Pelo mundo fora, há batalhões de académicos dispostos a investigar o pedigree de qualquer etnia/povo/nação, e a parir milhões de páginas sobre o assunto todos os anos. Israel, embora seja, politicamente, o umbigo do mundo, escapa ao fenómeno. Só lá ninguém nunca chamou as coisas pelos nomes e denunciou o carácter largamente mitológico da narrativa histórica oficial – que serve para legitimar comportamentos políticos bem presentes. Porquê?, perguntas tu, e falas da Mossad; pois isso eu não sei, e não sou especialmente dado a teorias conspirativas, mas lá que me parecem existir dois pesos e duas medidas cada vez que se fala de Israel, isso parece – que começam logo nas intoleráveis acusações de anti-semitismo de cada vez que alguém faz algum reparo ao Estado de Israel. Como diz o Tony Judt, é preciso “normalizar” o tratamento de Israel, nomeadamente na literatura académica. O livro do Schlomo Sand é muito bem-vindo por isso; era óptimo que fosse traduzido em português e muita gente o lesse.

  11. José diz:

    “O livro do Schlomo Sand é muito bem-vindo por isso; era óptimo que fosse traduzido em português e muita gente o lesse.”
    Nisso, estamos de acordo. Há poucas traduções deste tipo de livros.

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