A praxe ou Se virem um trajado, atirem-lhe um ovo, por favor.

A posta inaugural da Diana Dionisio (bem vinda à tasca, by the way) avivou-me a memória e a consciencia de uma condição de aluno de 1º ano que tive há cerca de 15 anos. Tive a sorte de ser primeiro-anista na FAUP, que cumprindo a (outra) tradição, integra os novos alunos através de uns jantares, umas noites de copos e uns concertos. Não tive, portanto, o dilema de ter que me declarar anti-praxe, como muitos (valentes e corajosos) amigos e camaradas o fizeram.

A praxe (não ela em si, mas o que representa), na minha opinião, simboliza o que de mais podre e perigoso existe na condição humana. Esta coisa, ranhosa e asquerosa, este procedimento medieval funda-se numa estrutura hiper-hierarquizada, anti-democrática e onde a permanência, a imobilidade é premiada com os mais elevados direitos e regalias. É uma espécie de culto à estupidez: quanto menos capaz fores, quanto mais imbecil te mostrares, mais apto estás a assumir o reino dos eleitos.

E depois, existe o processo de ritualização propriamente dito, da praxe. Sim, sim, é uma brincadeira. Mas é uma brincadeira que na sua fundamentação conceptual aponta que a unica forma de ascender, a unica forma de ser socialmente aceite é entregar-se à vontade e ao desejo de uma elite (estupida, volto a referir), é a humilhação, é a resignação completa e absoluta ao desejo do outro – sem que o tal outro tenha de argumentar a validade dos seus propósitos.  E este é um problema, essencialmente, politico. Um problema de cidadania. Quando se educa (e muitas escolas secundárias copiam este mdelo perverso e desumano de “integração”) os jovens estudantes neste modelo sociopata de funcionamento social, quando as instiuições (sejam os media ou as universidades ou as forças de segurança) toleram a vergonha reinante, que esperança podemos ter de que os “drs” do futuro não reproduzirão estes mesmos comportamentos na sua integração social? Deixar-se-ão ser humilhados para ascender, humilharão os seus subordinados da mesma forma que a criança abusada se pode tornar pedófilo?

E, ainda, estas mafias universitárias com os seus capos, com as suas designações de veteranos, duxs, magnum concilium veteranorum e merdas semelhantes, tentam ainda (e aqui sim, uma razão objectiva para  preocupação) condicionar, infiltrarem-se nos processos eleitorais nas mais diversas organizações do ensino superior. Arrebenham uns miudos, forçam ou condicionam os seus votos seja por mero interesse pessoal, seja por interesse financeiro, seja por ordem partidária (normalmente da JSD) e desta forma fica irremediavelmente desfigurada a democracia das nossas escolas.

Quando vejo um destes pinguins, vejo, naquilo que representa o traje e a ideia que transportam, similitudes, partilhas do mesmo campo de conceito -como diria Deleuze- com os afrikaners sul africanos, com as SS nazis ou com a mocidade portuguesa.  Se virem um trajado, atirem-lhe um ovo, por favor. A democracia agradece.

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27 Responses to A praxe ou Se virem um trajado, atirem-lhe um ovo, por favor.

  1. antónio says:

    se virem o rafael, atirem-lhe um ovo, por favor. a sociedade agradece.

  2. Douche (bag) veterasnum says:

    Se virem o Rafael Fortes atirem-lhe um calhau. Ou seis.

  3. Rafael Fortes says:

    E eu que nao sabia que os “pinguins” vinham ao 5 dias. Que diabo! surpreende-me que saibam ler…

  4. Abilio Rosa says:

    Façam como eu.

    Quando quiseram «praxar-me» em determinado sítio, recusei propositadamente.

    Não levou muito tempo para que uma «comissão de praxe» viesse
    interpelar-me e começaram a ameaçar, isto e aquilo.

    Não me fiz rogado. Quando uma determinada palavra soou mal ao meu ouvido desferi um valente soco nas ventas do «magister» da «comissão».

    Remédio santo, puseram logo o rabinho entre as pernas, e até hoje estou à espera «deles».

    Conclusão: os caloiros têm que organizar-se em «comissão» e dar uma valente porrada nesses grunhos e calões que querem fazer praxes e empaviar cerveja!

    Vão ver que eles vão correr a gritar «oh mãezinha, oh mãezinha».

    Porrada para cima dessas bestas!

  5. Abilio Rosa says:

    Diz o amigo Rafel Fortes que quando avista um «pinguim» das praxes faz-lhe lembrar os afrikänders, as SS ou da mociedade portuguesa.

    Mas se alguém pretende intimidar esses «pinguins amaricados» que envergue um uniforme do «exército vermelho» ou uma indumentária à «tio Estaline» com «foice e martelo» como braçadeira.

    Verá que essas bestas das praxes vão correr a sete pés.

    Foi assim que o tio Estaline correu com toda essa canalha na Europa segundo a II Guerra Mundial, e não só…

  6. Carlos Vidal says:

    Excelente post, e grande abraço Rafael.
    Muito bem lembrado, agora nas semanas desta praga.
    Tb eu tive a sorte de andar por um sítio onde não se vêem trajados.

  7. rafael says:

    obrigado, Vidal. Abraço.

  8. Teixo says:

    Das profundezas deste pobre Portugal, os meus parabens pelo escrito.
    Nos anos que trabalhei na Europa (decada de 80), nunca vi nenhum estudante “fardado”. Será que existem e se são passeadas pelas ruas, mesmo sem aulas?
    Quanto às praxes, só posso dizer que este país está estupidificado demais e há tempo demais.
    Cultura, precisa-se!

  9. Rui Costa says:

    Eu acho que a praxe representa muito bem a sociedade actual. Representa bem os problemas que podemos ter quando somos inconformistas e optamos por confrontar o poder estabelecido.
    Na praxe, como na vida, podemos fugir. Até podemos afirmar que fugindo somos realmente corajosos porque não nos submetemos. No entanto a atitude que considero mais brava é ficar e lutar, dentro do que existe, para que seja melhor.

  10. João says:

    Eu Estudo no ISA (Instituto Superior de Agronomia) no ano em que fui caloiro as únicas praxes que ocorriam eram desde saltinhos, flexões comboios a cantar o hino da faculdade, pinturas a marcador do curso de cada caloiro no braço e pouco mais. No entanto não fui praxado, apenas porque não calhou. Hoje, também eu ando trajado e sou um desses “pinguins” no entanto estou no meu 3º ano e nunca praxei ninguém…

  11. serraleixo says:

    E porque é que/para que é que vestes o traje, João?

  12. miguel dias says:

    Eu também antigo FAUP (1988/94), começado e iniciado em actividades várias nas instalações da ESBAP, passados mais de vinte anos, para não dizer mais, tudo o que pedi ao meu filho, que orgulhosamente afirmo franqueará por estes dias aquelas portas, foi que não se envolvesse e trajasse nessas actividades. Tudo o resto lhe perdoarei.

  13. m says:

    Eu tive o prazer de tirar o curso nas belas do porto e como tal não tive a oportunidade de participar em tais rituais arcaicos.

    Deixo apenas o programa de recepção aos novos alunos da FBAUP para mostrar que é possível integrar(eles gostam muito de falar em integração) os novos alunos de forma civilizada:

    http://aefbaup.files.wordpress.com/2010/09/recepcao-ao-novo-aluno-2010-2011-fbaup.jpg

  14. Abilio Rosa says:

    Não se esqueçam do conselho do camarada Abílio:

    Porrada de criar bicho para cima dos «trajados»!

    Não há que ter dó!

  15. paulo says:

    ainada alguem se lembra porque é que em coimbra se andava de capa e batina?
    não gosto de praxes nem nunca praxei mas dai às SS ……90% dos praxadores nem sbem quem foram as ss
    nesse mundo perfeito do abilio só os pioneiros praxariam os inimigos do operariado

  16. Alex Brito says:

    O problema não é da praxe mas do conceito degradado e das atitudes das pessoas. Quando estive na faculdade, praxe não tinha esta carga negativa, pelo contrério: foi divertida e útil: não paguei comidas uma semana e a madrinha até me deu os apontamentos dos anos anteriores. A “praxe”, que todos fizemos, foi um discurso em mau Latim, e um passeio de latada. Porquê culpar o traje e não os que o sujaram? Usei traje e tenho saudades. Nunca tive nenhum problema. E nenhuma má recordação de Coimbra.

  17. antónio says:

    e então!? já levaste com algum ovo na tola!? vá.. diz qq coisa..partilha.. não guardes esses momentos só para ti..

  18. Diana Dionísio says:

    Ó Alex, mas sem esse discurso em mau Latim e sem madrinhas por cima não conseguias os apontamentos? De igual para igual, falando com o vizinho do lado que até se podia – imagina! – vir a tornar teu amigo?

    Ainda bem que o Rafael se alongou mais do que eu neste tema da praxe, que acho que deve ser discutido e não é uma coisinha de somenos importância como já em tantas discussões me disseram – sobretudo pessoas de esquerda, de lutas, etc…

    E ainda mais estranho do que pessoas dessas acharem que o tema é inferior para nos preocuparmos com ele – que temos é de lutar tão somente contra o monstruoso neo-liberalismo e pensar só na grande economia e nas tricas do parlamento – é encontrar pessoas dessas a participar nas praxes. Falas da JSD, mas há muito boa gente militante de partidos de esquerda que anda metido na praxe… Que os partidos de esquerda não queiram tomar uma posição pública contra a praxe eu, vá, até percebo, têm de ganhar votos e a praxe é popular…, mas que andem nas praxes pessoas que se preocupam com o mundo e que têm tantas ideias sobre a injustiça disto e sobre a discriminação daquilo, sobre a falta de cultura aqui e sobre a falta de participação ali… não percebo. Ultrapassa-me.

  19. Nelson Oliveira says:

    Ainda bem que demonstra tanto civismo como aqueles que critica.
    Parece-me que existe por aí algum sentimento de frustração, mas é apenas uma opinião.

    A praxe, como em tudo é alvo de abusos, principalmente em locais que nem sequer sabem o que é a tradição académica.

    Fui praxista (qb e sem nunca fugir às minhas responsabilidades enquanto estudante, é que para alguns, ser-se praxista é sinónimo de ser bêbado, reprovar de ano constantemente, etc), e acho que irei ter sempre um sentimento muito próximo dos rituais académicos.

    Quem é contra a tradição praxista, tem que saber que, se o é, também tem que ser contra o uso do traje, contra a cartola e bengala, contra as serenatas, contra as Queimas das Fitas, contra tudo o que envolva uma palavra – Academia.

    Academia é bem diferente de ensino superior!

    As regras da praxe não obrigam ninguém a fazer nada e são contra a “humilhação”. Desde que a praxe seja feita por praxista que souberam o que é ser caloiro, está tudo bem.

    O problema é que quando os meninos são caloiros “de merda”, resulta em Doutores “de merda” que só praxam para verem os outros a serem ultrajados, sem terem noção sobre o que é a praxe.

    Este sim é o real cancro praxista – Caloiros de merda que nada sabem daquilo, e que depois se acham os maiores quando têm um traje.

    Aqui entra o poder dos mais velhos que tem a obrigação de proteger o novato caloiro e penalizar os Senhores Doutores praxistas da treta.

    Não confundam as coisas. O melhor ano de um praxista, é o de caloiro. Desde que se ande numa faculdade em condições e com regras. Eu sei do que falo… Fui praxado com os meus 500 colegas durante 365 dias no primeiro ano de faculdade, e garanto que para todos foi o melhor ano da Academia.

    Não insultem sem conhecimento do todo. A parte é execrável.

    Viva a praxe, tal como ela é. Sem “chicos-espertos” que nada percebem daquilo.

    Dura Praxis, Sed Praxis

  20. Rafael Fortes says:

    Ora, estamos de acordo, Nelson. Sou claramente contra a concepçao de academia e tudo o que ela representa.

    Diana, quando falo da JSD, refiro-me aos pinguins que recebem ordens das Comissoes Politicas e que tentam profanar os processos democraticos seja para eleiçoes para as AEs, Senados ou orgaos de gestao das Faculdades.

  21. Diana Dionísio says:

    Pois eu percebi, Rafael.

    Já cá nos faltava um Nelson para decidir por si próprio e sozinho, com o seu olho de lince e o seu apurado dom da certeza – melhor que a de todos os outros seres à face da terra – quem são os caloiros-de-merda e quem são os caloiros-não-de-merda. Os dignos de passar melhor a merda de mão em mão construindo uma verdadeira e secular tradição e os que só vêm chatear a Academia-como-o-nelson-acha-que-devia-ser.

  22. Pingback: cinco dias » Protestos com orelhas-de-burro?

  23. Nelson Oliveira says:

    Minha cara amiga Diana. Você se não pertencer a uma associação/clube/organização qualquer, ou rejeitando delinearmente aceitar qualquer convite vindo dos mesmos, penso que não irá querer nada com eles, nem com as actividades que essas mesmas associações promovem, certo?
    Por exemplo, eu sendo benfiquista, nunca irei recorrentemente a eventos promovidos pelo Sporting ou Porto, certo?
    Na praxe é a mesma história. Inicialmente todos são convidados a participar. Posteriormente só fica quem quer. Daí vivermos num país democrático.
    Se quisermos ser praxistas, adoptamos e acatamos as decisões, se não quisermos “Adeus e um abraço”… É simples!

    Só coloco em questão o porquê das pessoas cismarem em usar o traje, praxarem, quererem participar nos eventos da Queima das Fitas, andarem de cartola e bengala no final do curso para o Papá ver, se nunca na P*** da vida concordaram nem quiseram saber da praxe?!?!?!

    Se não gostam, assumam isso, e não andem feitas amélias a queixarem-se à sociedade dos senhores mauzões que andam de traje.
    Conheço dezenas de pessoas que optaram por não aderirem à praxe e terminaram o curso sem uma única queixa. Mas esses foram coerentes. Nunca participaram em nada relacionado com a praxe.
    Não entrem em demagogias, e preocupem-se com outras coisas.
    A Praxe é para quem quer…

  24. Diana Dionísio says:

    Caro Nelson,

    de falta de coerência nesse tema não me pode de certeza acusar. Que eu de bengalas e cartolas só preciso quando tenho pernas partidas ou entro em peças de teatro.

    A praxe é para quem quer, dentro da coacção grunho-grupal que todos conhecem, não é verdade?

    E já que falou em democracia… Aceitando hipoteticamente a sua visão ingénua de que as pessoas que estão na praxe estão lá porque querem imenso e porque decidiram isso sem qualquer constrangimento alheio e apenas porque acharam que era mesmo importante para a sua vida passar por aquilo, e então dirigiram-se a uns veteranos pedindo para serem praxadas e os veteranos reflectiram e até aceitaram praxá-las – ou seja, imensa democracia em todo o lado – a minha pergunta é: e a partir do momento em que começa a praxe, para onde foi a democracia?

    Há democracia em receber ordens cegamente, em não olhar nos olhos do mais velho, em chafurdar na lama e comer sem talheres porque alguém se lembrou? Há democracia em ter um orgulho corporativo desmesurado que faz com que os estudantes trajados se fechem em grupo e gritem para os outros que vão a passar e não são estudantes de forma agressiva e identitária?

    Para acabar este problema é um problema de toda a gente, não é só: «ai quem quer vai quem não quer não vai» pronto. Isso é igual a poeira para os olhos. Também há muitas pessoas que aceitam trabalhar em condições miseráveis e, segundo a sua lógica, se o aceitam não temos nada que ver com isso e está tudo bem.

  25. Francisco Castro says:

    Vocês são mesmo mentecaptos!

    1º Não generalizem; Se em algumas há praxes abusivas, em outras não há! Por exemplo, onde ando, a praxe é extremamente “leve” e é mais rir do que outra coisa. Se fosse tão má, não teríamos uma adesão de 90/95% todos os anos.

    2º Se não gostam, estão no vosso direito, mas devem respeitar quem gosta porque para se ser respeitado, deve-se respeitar!

  26. Joana says:

    Eu ainda não estou em nenhuma faculdade, mas pretendo concorrer para o ano.
    Tenho uma dúvida, as praxes são obrigatórias ?
    Epa, não gosto nada da idéia :S

  27. Joana says:

    A praxe é muito mais do que “chafurdar na lama e comer sem talheres”.
    Mas só quem lá está, de corpo e alma, percebe o que eu estou a dizer. Quem não conhece, quem nunca lá esteve, simplesmente não pode criticar com fundamento.
    O espírito, o companheirismo que se ganha, isso é inexplicável.

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