De um tom patriótico recentemente adoptado à esquerda.

A decisão do Bloco de Esquerda de apoiar alguém da área do PS fez, para mim, com que fosse desde cedo muito fácil decidir em quem votar nas próximas eleições presidenciais. A desistência do Bloco em avançar com uma campanha de esquerda, em prol de duvidosas aritméticas anti-cavaquistas, tornava o candidato a apresentar pelo PCP como a única hipótese viável de voto à esquerda.

Infelizmente o PCP está a fazer o possível por desperdiçar a oportunidade que tem de monopolizar os esforços e a boa-vontade da esquerda anti-capitalista que se dá ao trabalho de votar em presidenciais.

Não digo isto por causa do candidato em si. Não tenho nenhuma antipatia por Francisco Lopes nem me impressionam as acusações de ortodoxia ou de filiação numa suposta linha dura do PCP. O problema não está aí, o problema está na mensagem politica que o PCP decidiu fazer sua nestas eleições, mais concretamente na apresentação da candidatura de Francisco Lopes como sendo patriótica e de esquerda. Eu bem sei que não é de hoje que o PCP se reclama do patriotismo. O que me parece infeliz é que, de entre tantas ideias e bandeiras de que o PCP se reclama, a sua direcção tenha decidido, nestas eleições, colocar o patriotismo na linha da frente. É uma escolha, como podia ser outra e, como todas as escolhas, revela uma estratégia, e tem consequências, que devem ser submetidas à critica.

Aceitemos a tese de que o patriotismo e o nacionalismo são coisas diferentes. Não é isso que interessa discutir agora. Acho que todos reconhecem que o patriotismo de que o PCP se reclama não é um nacionalismo do sangue e do solo, não é racista nem xenófobo, nem sequer, em última análise, politicamente fechado, pelo menos nos seus supostos doutrinais. Quero com isto dizer que aceito sem problemas que os militantes e dirigentes do PCP vêm no tal patriotismo um degrau para o universalismo. É com esta posição etapista que não podemos concordar.

É que a nação é uma identidade que se sobrepõe à divisão de classes e que muitas vezes a esconde. É um traço de união de um colectivo que está atravessado de desigualdades e de dominação. Do mesmo modo, essa dominação não conhece fronteiras, e é por isso que a repartição da humanidade em nações, esconde a sua divisão em classes. A lógica da luta igualitária deve ser, portanto uma lógica universalista, que se deve traduzir, no plano prático, por uma indiferença em relação à identidade nacional. Ao colocar a palavra « patriotismo » no centro dos seus cartazes o PCP está a reforçar a ideia perniciosa, de um ponto de vista da luta igualitária, de que existe tal coisa como o « interesse nacional ». Em que é que consiste tal interesse nacional? No interesse dos nacionais? Se não, então porquê insistir no uso do adjectivo « patriótico »? Falar em « pátria » como realidade política relevante é dar ao « povo da pátria » o papel de sujeito político colectivo relevante. E de um ponto de vista de luta de classes, que relevância pode ter um sujeito político onde se inclui o patrão e o operário?

E contra quem se reclama este patriotismo? Contra o capital estrangeiro? Nesse caso pergunto-me: o capital nacional é melhor? É mais aceitável a exploração capitalista quando o explorador é português? A propriedade privada dos meios de produção colectivos é melhor quando a titularidade dessa propriedade é nacional?

Pode dizer-se que a existência de estados-nação e a correspondente concentração de poder e de recursos em centros de decisão nacionais obriga à adopção de estratégias de luta vinculadas ao estado-nação. Mas se é uma questão de estratégia, então porquê embandeirar em arco com o patriotismo? Os dirigentes e militantes do PCP devem saber que as escolhas que fazem dos slogans e mensagens políticos têm poder performativo. Ao colocar no centro do palco o patriotismo, o PCP reforça a própria ideia de que a nação, ou a pátria, é um quadro de acção relevante e, pior do que isso, desejável. Reforça a ideia de que existem interesses nacionais e de que é uma tarefa da esquerda defendê-los.

Depois de tudo isto, é possível ainda votar na candidatura de Francisco Lopes? Na minha opinião, sim. É que a questão não é só de conteúdo, mas também de forma, se me é permitido usar esta algo simplista divisão das matérias em causa numa qualquer campanha eleitoral. Repare-se na diferença entre o PCP e o BE. Este último associou-se a uma candidatura pessoal, em que o candidato já tinha decidido avançar, é à qual o BE se juntou, reforçando assim o carácter unipessoal da campanha presidencial, o qual, diga-se, se adequa ao que está na letra da lei e na concepção hegemónica do cargo e da campanha que o antecede. É justamente esta lógica pessoalista que deve ser contrariada nos seus pressupostos, e que deve ser abertamente subvertida, e é isso que o PCP vem fazendo, aproveitando as campanhas eleitorais para fazer aquilo que tem de fazer: luta política. O Dallas não o podia ter dito melhor, no spectrum: não interessa o candidato do PCP, porque quem vai a votos é o partido. Num palco que é essencialmente de personalidades, e de propostas individuais, o PCP, saudavelmente, subtrai-se a esta hipertrofia de « egos » apresentando sempre as suas posições em nome de um colectivo, e as suas ideias como sendo o resultado do trabalho de muitos, e não das cogitações de uma bondosa alma singular. Tinha sido fácil ser diferente, e ser melhor, esta candidatura do PCP. Bastava fazer o mesmo do que na de 2006, de Jerónimo de Sousa. Mas tenho a certeza de que, da boca de Francisco Lopes, na noite das eleições, não vou ouvir a ladainha do « assumo todas as responsabilidades, etc., etc. », própria dos pavões enfunados que começam a preparar-se para o cortejo das vaidades. Convenhamos que, nos tempos que correm, não é nada mau.

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