Despedimentos em Cuba

A notícias da saída de 500 mil trabalhadores da função pública cubana são más. Não porque essa gente vai ficar desempregada, serão todos transferidos do sector público para o privado, mas porque o papel dos sindicatos reduz-se a dizer amém ao partido e ao Estado.
Qualquer sindicato devia primeiro consultar esses trabalhadores e defender os seus interesses, em vez de funcionar como uma repartição do Estado.
Mas isso não justifica que a malta para quem o Sócrates é a luz das sua vidinha esteja tão amofinada com os despedimentos em Cuba. Essas preocupações laborais não condizem com as sandálias. Nunca se lhes leu uma só linha sobre os milhares de pessoas que foram colocadas em listas de excedentários na função pública portuguesa. Jamais protestaram contra o facto de o Instituto do Emprego e Formação Profissional não conseguir explicar como fez desaparer mais de 300 mil pessoas das listagens de desempregados: para eles, tudo o que sirva o Sócrates, mesmo que seja a “martelar” números de desemprego é bom. Do mal o menos, saudemos a sua aproximação às questões laborais… nem que seja em Cuba.

Nota1: Já para não falar no PSD que sonha com o despedimento “livre” dos trabalhadores, a que dá o nome de causa atendível.

Nota2: O que incomoda essa gente não é que o PCP apoie o governo cubano, mas que seja contra o despedimento que eles pretendem de trabalhadores portugueses. Isso é que verdadeiramente os chateia.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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34 respostas a Despedimentos em Cuba

  1. AA diz:

    Mais 10 anos e Cuba é uma grande resort (privada, claro). Será pior do que hoje?

  2. miguel serras pereira diz:

    Caro Nuno,

    sublinho e subscrevo a tua Nota2: “O que incomoda essa gente não é que o PCP apoie o governo cubano, mas que seja contra o despedimento que eles pretendem de trabalhadores portugueses”.
    Mas digamos também, rien que pour faire bonne mesure, que as posições contra os despedimentos, pelos direitos sociais e democráticos dos trabalhadores portugueses, assumidas pelo PCP perdem credibilidade com a indulgência que o mesmo PCP mostra perante regimes em que os sindicatos são capatazes dos detentores do controle sobre os meios de produção e em que as liberdades e direitos elementares são – policial ou militarmente – esmagados. Era o que nos lembrava há dias – criticando simultaneamente certas atitudes aparentadas do BE – o grande Manuel António Pina numa das suas crónicas exemplares: “Democracia? Não, obrigado” (http://jn.sapo.pt/Opiniao/default.aspx?content_id=1662015&opiniao=Manuel%20Ant%F3nio%20Pina).

    Abrç

    msp

  3. Nuno, tenho informação privilegiada vinda de um alto responsável de uma instituição que citaste aí p’ra cima, amigo de muitos anos:

    A Caixa Nacional de não-sei-oquê, que foi refinanciada no tempo do Féfé por aquele outro gajú do MES que foi ministro de qualquer coisa, está apertadinha agora, está toda a gente a sair.

    Como aqui há vagamente 3,5 milhões de pessoas a depender do estado, vai fazendo as contas…

    Não vai ser fácil.

    🙁

  4. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Olá Miguel,
    Cuba é um economia planificada. Até agora a esmagadora maioria dos empregos eram da responsabilidade do Estado , com a progressiva abertura ao sector privado, o Estado liberta e transfere mão de obra para o sector privado.
    Não me agrada o método, embora conheça mal o que se passou. Estou habituado a muita invenção mediática nessa matéria.
    O que a mim me impressiona é que a tua prioridade número um nessa e outras matérias é criticar o PCP. Tens um permantente ajuste de contas com eles. Acho que o devias ultrapassar. Que eu saiba o PCP não se pronunciou sobre a matéria. Não é o governo em Cuba. E estes acontecimentos que levam todos a criticar Cuba e o PCP acontecem todos os dias em Portugal em versão muito pior: os trabalhadores ficam mesmo sem emprego e ordenado, sob o silêncio ou mesmo apoio completo destes imaginativos críticos ao PCP.

  5. Leo diz:

    “Qualquer sindicato devia primeiro consultar esses trabalhadores e defender os seus interesses, em vez de funcionar como uma repartição do Estado.”

    Pelo que tenho lido, andam há mais de dois anos em consultas com os trabalhadores sobre estas questões e a defesa dos seus interesses está acautelada. Esta decisão não caiu de para-quedas nem é nenhuma novidade.

    Um bom sítio para acompanhar a discussão disto tudo é o cubadebate, Nuno.

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Leo,
    Obrigado. Vou ler.

  7. rafael diz:

    Nuno, reforço a sugestao do Leo e acrecento mais uma: a intervençao de Raul, se nao me falha a memoria, no ultimo plenário do CC do PCC, do mesmo, a intervençao no encerramento no ultimo congresso da UJC e além disso, just for fun, uma serie de artigos de opiniao sobre economia na revista Temas, assim como as cartas à direcçao do Granma – a partir de abril/ maio deste ano (algumas muito criticas ao processo e outras que apoiam, ambas com bastante validade argumentativa).

    Se, proximamente, os meus afazeres profissionais (em via de caducidade) e pessoais o permitirem, tentarei contribuir para este debate aqui na tasca.

    PS: já agora é importante sublinhar o momento destas reformas e o facto de serem as ultimas a serem realizadas sob a tutela da direcçao historica da Revoluçao, o proximo congresso do PCC,que estava previsto para o ano passado ou para este, foi adiado. Quando se realize, consistirá numa reformulaçao profunda dos protagonistas da direcçao politica (Raul já o admitiu) e talvez, aí, tenhamos indicadores muito importantes, mas mesmo muito importantes da maturidade da Revoluçao Cubana. Se esta é capaz de sobreviver sem cair na burocratizaçao ou na empresarializaçao de estado. Serao tempos interessantes…

  8. Tiago Mota Saraiva diz:

    Esta discussão é absurda. Será que alguém se lembraria de pedir explicações ao PS ou PSD pelos despedimentos de funcionários públicos nos EUA?

  9. Nuno Ramos de Almeida diz:

    é a chamada inteligência em minúsculas.

  10. paulo diz:

    é giro ver o contorcionismo doNRA aquestão é a duplicidade de critérios
    cá o pcp pede aumentos em relação acuba fecham os olhos.

  11. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Paulo,
    Está a falar de quê?

  12. Abilio Rosa diz:

    Qual é o problema?

    Não há um caminho único para o socialismo.

    Aqui na republica sucialista do Socretino qualquer dia estamos todos na sopa dos pobres e com o RSI na mão, e isso, porventura, é socialismo?

    Como disse e muito bem Lenine, e isto a propósito da estratégia politica e militar, às vezes é preciso dar dois passos atrás para podermos depois dar um passo em frente.

    Esta gente não lê os clássicos.

    O Governo de Cuba, em face do embargo norte-americano e em face do paradigma económico mundial vigente, faz bem em agilizar a sua economia, para que esta produza os bens que a sua população necessita.

    Onde está a contradição?

  13. koshba diz:

    ‘as liberdades e direitos elementares são – policial ou militarmente – esmagados. ‘
    Pois!entretanto a democrática UE aprova o uso das Forças Armadas nos assuntos internos dos seus ‘países’.O que é isto sr serras pereira?o pai natal?ou,eu sou o menino jesus?
    A sua sanha contra o PCP já dá parar rir perante a sua duplicidade de critérios e,logo, a falta de honestidade intelectual.

  14. KKl diz:

    Nuno,
    Isso da incorporação no sector privado estar planificada é uma contradição de termos. Depende o emprego desses trabalhadores da resposta privada ao pacote de estímulo agora promulgado. Não pode o governo cubano, nem ninguém, pegar num despedido e colocá-lo à força em empresas que nem existem.

  15. Leo diz:

    “A aquestão é a duplicidade de critérios cá o pcp pede aumentos em relação a cuba fecham os olhos.”

    Cá, Paulo temos mais de 730.000 desempregados, e pior ainda, a grande maioria deles sem qualquer apoio.

    Em Cuba não há desempregados nem vai haver. Do que se trata é da substituição de postos de trabalho actualmente integrados no sector estatal por outros criados em igual número no sector não estatal. E estão assegurados todos os direitos sociais de todos os trabalhadores.

  16. A. Silva diz:

    O que me parece é que estes quinhentos mil ou milhão de trabalhadores cubanos, não vão ser despedidos, mas sim deslocados do estado para outro tipo de empresas que o estado procura criar e dinamizar, diversificando as estruturas económicas, portanto falar de desemprego é uma +precipitação ou mentira.

    A desonestidade da direita até mete nojo, com eles, parece não ser possível qualquer tipo de conversa esclarecedora, mas o estranho, é alguns ditos de esquerda tão prontamente alinharem nesse tipo de atitude e mentiras.

    O que Cuba procura e está a fazer é repensar a sua economia e o seu sistema sem abandonar o socialismo, o estúpido é aqueles que acusam o regime cubano de estar parado e de ser incapaz de avançar, virem agora dizer disparates completamente infundados, quando o governo apresenta soluções. Não se procura a verdade, mas sim o ataque à possibilidade de criar um mundo diferente deste pântano capitalista.

    Não tenho seguido a discussão que se passa em Cuba sobre este assunto, mas daquilo que conheço dessa sociedade, seria muito difícil, para não dizer impossível, que uma medida destas fosse tomada sem que houvesse uma profunda discussão em toda a sociedade… Ainda não perceberam que a razão porque o socialismo resiste e permanece em Cuba é porque é uma sociedade profundamente democrática onde toda a população participa na tomada de decisões, qualquer outro país já teria dado voltas e mais voltas se se vissem obrigados a tomar as medidas que infelizmente Cuba se viu obrigado a tomar.

    E já agora é bom não esquecer, que grande parte do sofrimento a que este país é sujeito é devido ao bárbaro e criminoso bloqueio americano.

  17. Nuno Ramos de Almeida diz:

    KKI,
    Em Cuba o Estado tem a responsabilidade e garantir o pleno emprego, pelo que li, creio que grande parte das empresas privadas em questão serão participadas pelo Estado e caso os trabalhadores não encontrem emprego no sector privado serão colocados em outros trabalhos do sector público.
    Agora o que me parece grave é que o Estado está a refazer um processo de acumulação primitiva em que retira os trabalhadores do sector público para dar mão de obra em boas condições para o privado. Uma espécie de capitalismo de Estado. Mas posso estar errado, por isso vou ler as fontes locais que alguns comentadores me enviaram.

  18. Fernando diz:

    O Leo e o Rafael, quiçá jovens revolucionários profissionais assalariados do PCP, já mostram quão consolidada está, internamente, a “via” cubana.
    O PCP que hoje apoia a via chinesa, estava absolutamente contra esta em 79 quando foram tomadas as medidas de abertura ao mercado, que mais não foi que o que Cuba começará a reproduzir agora.

    O que ninguém tem tomates para dizer é que Cuba está falida e não tem remédio senão atirar o socialismo para a gaveta.

  19. Manuel Monteiro diz:

    Estes trabalhadores passam para a “iniciativa privada”? Mas onde está a revolução, a colectivização dos meis de produção, o fim da propriedade privada?
    Mas estamos rumo ao socialismo ou rumo ao capitalismo?
    Tudo isto é muito triste, digo-o com o coração apertado…
    Manuel Monteiro

  20. Leo diz:

    Eu limitei-me a dar a minha opinião pessoal, Fernando. Mas já que se mostra interessado na opinião do PCP aqui lhe deixo a

    Nota do Gabinete de Imprensa do PCP
    Sobre aspectos da situação em Cuba
    Sexta 17 de Setembro de 2010

    Em resposta a vários pedidos de diferentes órgãos de Comunicação Social, sobre aspectos da situação em Cuba, o Gabinete de Imprensa do PCP entendeu divulgar a seguinte nota.

    É ao povo cubano que compete, soberanamente, tomar as decisões que considere mais adequadas para prosseguir a construção do socialismo, consolidar as conquistas alcançadas e defender a soberania e a integridade territorial do seu país.

    Não se pronunciando sobre decisões de natureza económica em curso em Cuba, importa sublinhar que a deliberada distorção difundida para apresentar como despedimentos o processo de reorganização de actividade com “reorientação laboral de trabalhadores para outros postos de trabalho” e “outras formas de relação laboral não estatal como o arrendamento, o usufruto, cooperativas e trabalho por conta própria”, mantendo em muitas situações a mesma actividade que exerciam com a garantia dos direitos e apoios sociais, como salienta a Central dos Trabalhadores de Cuba, tem por objectivo não apenas prolongar o ataque a Cuba, como procurar justificar a ofensiva dirigida no nosso país contra os trabalhadores com vista à liquidação de direitos e o aumento da exploração.

    Quanto às recentes medidas de “actualização do modelo económico” em vigor, num momento em que o mundo é sacudido por uma violenta crise do capitalismo, há razões para confiar que uma revolução que tem heroicamente resistido ao criminoso bloqueio dos EUA e que já por duas vezes se viu forçada a reestruturar a sua economia – após a libertação do colonialismo norte-americano e na sequência das derrotas do socialismo na URSS e Leste da Europa – enfrentará com êxito novos problemas surgidos no seu desenvolvimento, e as exigências de afirmação do seu projecto de construção do socialismo.

    http://www.pcp.pt/sobre-aspectos-da-situa%C3%A7%C3%A3o-em-cuba

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  22. Licas diz:

    Ó M.Monteiro , então estás om o coração apertado . . . pode
    sber-se a razão (ou usaste ironia)?

  23. Sarrabulho diz:

    1º Como já foi escrito pelo Leo, a evolução no modelo económico em Cuba já à anos que anda ser discutido nas fontes já referidas. Tanto o CTC como outras organizações da sociedade cubana têm sido envolvidos na preparação, pois a grande preocupação desde o inicio é que não se pretende criar desempregados, mas sim estimular a economia e legalizar algumas actividades que já existem mas não estavam legalizadas (fabrico e venda de materiais para a construção ou de utensílios domésticos, por exemplo).Ver este documento https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=sites&srcid=ZGVmYXVsdGRvbWFpbnxlYXRvbmRvY3VtZW50czF8Z3g6MTdkMjBlZDExODBkOTJjYQ&pli=1
    2ª A transferência dos 500 mil agora e mais tarde do 1 milhão de trabalhadores não é exclusivamente para o sector privado, é também fomentado o empreendedorismo cooperativo. Sim, não se trata só de iniciativa privada, também há cooperativas de trabalhadores a explorar negócios. Exemplo: a entrega de terras como estímulo à produção agrícola nacional, pelo governo cubano que se tem vindo a levar a cabo, tem tido as vertentes individual e cooperativa.
    3º O estímulo ao surgimento dos cuentapropistas, iniciou-se acerca de 1 ano e meio com programas piloto na província de Santiago de Cuba. Exemplos: Os agricultores passaram a vender eles mesmos a sua produção, vários estabelecimentos comerciais que eram explorados pelo governo de serviço foram entregues para exploração a grupos de trabalhadores (barbearias, cabeleireiros, etc.).
    4º Tudo isto são mudanças que traduzem a evolução de um modelo que se adapta às dificuldades da crise económica mundial e evolui sem colocar em causa os 2 princípios básicos da Revolução de soberania nacional e justiça social.

  24. Licas diz:

    Aonde está a Liberdade de Expressão?

  25. miguel serras pereira diz:

    Viva, Nuno.
    Não deste por eu ter criticado de caminho o BE – por crónica do MAP interposta?
    Também não deste pelos comentários desta caixa dos adeptos da candidatura alternativa de Francisco Lopes que defendem a “agilização” da economia cubana e a multiplicidade das vias para o socialismo (mas a da precarização será uma novidade – ou antes uma reiteração da via chinesa?)?
    Quanto ao resto, não tenho poupado o alegrismo, o jugularismo e outras esquerdas da região quando fazem o mesmo que critico no PCP, deitar a democracia borda fora quando isso limita as suas ambições de poder — ou o poder das suas ambições de poder. Quando muito, tento reservar alguma artilharia para, perante a segunda volta das presidenciais – se a houver — a usar contra os volte-faces dos que agora queimam Alegre, mas se preparam para o legitimar como alternativa a Cavaco, juntando-se aos que o fazem desde já, avalizando, queiram-no ou não, as manobras de F. Louçã, e deitando fora a democratização efectiva das instituições políticas e económicas que, tal como tu, penso ser condição necessária do “socialismo”.

    Abraço para ti

    msp

  26. rafael diz:

    Caro Miguel,

    nao sei se quando falava dos “adeptos da candidatura alternativa de Francisco Lopes que defendem a “agilização” da economia cubana e a multiplicidade das vias para o socialismo” falava (tambem) de mim, mas enfiei a carapuça.

    Primeiro, nao posso concordar com o Nuno quando ele fala que a CTC funciona como correia de transmissao do PCC. Poderao estar unidas de forma indelével mas a leitura que tenho feito de alguns amigos bloggers radicados em Cuba leva-me a crer (e isto ou se acredita ou nao!) que existe uma reciprocidade de confiança politica entre as duas entidades (assim como outras organizaçoes de massas, embora nao goste do termo) e que a CTC nao anuncia meramente estas medidas, têm-as como objecto de debate de há dois ou mais anos para cá. Existem vários episodios -nao só com a CTC- que demonstram isto mesmo. O caso mais paradigmatico foram as criticas da UNEAC, entre outras organizaçoes -se nao estou em erro- aos criminosos UMAP e às leis homofobicas de Cuba, que resultaram no encerramento destes campos (duraram entre 65 e 68) e numa gradual retirada das leis homofobicas com o periodo de rectificaçao de erros e desvios, creio que no 3º congresso do PCC. Volto uma vez mais a lembrar, uma leitura atenta do Granma mostra uma diversidade de opinioes bastante grande (em alguns casos superior a alguma “imprensa plural” cá do burgo). Pessoalmente, nao me revejo no modelo da Grande China (espero que entenda a ironia…) e preocupam-me estas alteraçoes em Cuba, mas no entanto, os alguns dos seus objectivos parecem-me louváveis e creio irem no sentido correcto.

    A saber: cortes na burocracia, aumentando a força de trabalho ligada ao sector produtivo e diminuindo as chefias (que se consideram exageradas, fruto de desenvolvimentos negativos do período especial), tentativa de implementaçao da soberania alimentar (é tb um dos objectivos deste plano), fomento à iniciativa dos cidadaos auto-organizados em cooperativas orientadas para a venda livre dos seus produtos incluive ao sector estado com uma carga fiscal mais baixa (creio que toca algumas das suas teses, nao?). Preocupa-me como é obvio, que haja entre os economistas cubanos alguns que defendam o fim da livreta de bens essenciais, assim como nao percebi ainda o que significa o fim de encarar o ensino como uma profissao, mas isso o tempo o dirá e caso existam desvios do socialismo para um capitalismo de estado, estou certo que existirá uma reacçao por parte das tais organizaçoes de massas.

    Segundo, nem Cuba é a China, nem Cuba é a URSS. Em nenhum momento, vi o PC de Cuba sequer discutir a inclusao da burguesia na sua definiçao de socialismo como de algum modo fez o PC chinês e nao pode haver maior sinal da critica à burocracia stalinista que as constantes alusoes ao problema da burocracia, da corrupçao e de alguns desvios das chefias intermédias que as que tanto Fidel como Raul têm feito nas suas multiplas intervençoes.

    Terceiro, e para terminar, assumo aqui a minha posiçao pessoal de votar num candidato Alegre, caso este passe a uma segunda volta. Nunca o disse, mas também nunca o neguei. Se lhe encontre enormes defeitos e sectarismos primários quando toca a falar de esquerda? sim, encontro. Se acredito que irá fazer fretes a Socrates? sim, acredito. Se vejo que será pouco mais que um balao inchado a proclamar a sua visao do que é a patria e a esquerda, inactuante, talvez um pouco ridiculo? sim, vejo. Mas Cavaco é o mentor moral de uma geraçao politica que se está a assumir como a degenerescencia maior da vida publica portuguesa e esse é um simbolo que há que derrotar a qualquer custo.

    Quarto, e para terminar, fala da conquista do poder do PCP e da sua ausencia de democracia. Lembro-me de há uns valentes anos estar em animada cavaqueira com um membro da CP do CC do PCP e ele dizer-me mais ou menos o seguinte, que se aparecesse uma força politica, um movimento, um partido que tivesse a força para implementar um programa justo, progressista ou até socialista (sem claudicaçoes) o PCP nao teria o minimo problema em nao assumir nenhum tipo de poder e apoiar energicamente esse programa. E eu acredito piamente nesta “bondade”.

    Cumprimentos
    rafael

  27. miguel serras pereira diz:

    Caro Rafael,
    não me parece que os factos, examinados com o espírito sóbrio que Marx recomendava, justifiquem as suas análises prospectivas. Mas estou pronto a discutir consigo, que pelo menos não tem dúvidas em se declarar anti-estalinista _ embora não tenha pensado em si ao escrever o comentário anterior.
    Quanto ao que nos opõe – a natureza do regime cubano -, creio que o socialismo entendido como exigência democrática consequente não pode ter a ver seja o que for com, por exemplo, um poder pessoal, quase familiar e partidário tão estritamente monopolizado como o da Ilha. Creio também que estamos a assistir agora à reforma unilateral e superiormente decidida de uma ditadura, que troca um modelo por outro e que se prepara para criar a tal burguesia que a China pelo seu lado já integrou na construção da sua “sociedade harmoniosa” pela via da luta que conduz na vanguarda dos agentes da precarização global da grande maioria da população global.
    Nenhuma destas diferentes interpretações do que se passa me impede – repito – de considerar justa o que me parece ser a sua concepção fundamental do socialismo como exercício democrático efectivo do poder político (incluindo a direcção da economia) pelos trabalhadores e conjunto dos cidadãos auto-organizados. Mas continuo sem compreender – ou só posso explicar como fé para além do que o exercício lúcido da razão permite – que o Rafel considere que o regime cubano representa um passo em frente nesse sentido.

    Cordiais saudações democráticas

    msp

  28. Jorge Paulo diz:

    “500 mil trabalhadores transferidos do sector publico para o sector privado” em Cuba. Mas qual sector privado? isso em Cuba não existe. A maioria daqueles desgraçados, vão para o sector privado mas é em Miami, porque vamos assistir a um novo exodo de “boat people”.
    Cuba , para quem não ande distraido, é mais um exemplo do fracasso dos sistemas colectivistas: miseria para todos.

  29. Abílio Rosa,

    Respondendo a:
    “O Governo de Cuba, em face do embargo norte-americano e em face do paradigma económico mundial vigente, faz bem em agilizar a sua economia, para que esta produza os bens que a sua população necessita.
    Onde está a contradição?”

    A contradição está em reconhecer que o caminho para que exista a produção que o povo necessita e para agilizar a economia é a descentralização e a aposta na economia privada. Isto de quem advoga o contrário em geral.

    Quem está de fora e não está educado para não por em causa a cassete fica com vontade de rir às gargalhadas.

  30. nuno granja diz:

    2 notas;

    1. Muita gente foi presa e prejudicada ao longo de 40 por pensar o que o Fidel disse na entrevista.

    2. Quem acredita que aquele sistema tem alguma vantagem, merece-me tanto respeito como quem acredita num regime governado 40 anos com mão de ferro por um ditador que quando se sentiu doente passou o poder ao irmão…como diram os homens da luta “e o povo pá???”. Sorte que cá o nosso ditador de 40 anos não tinha irmãos

  31. JMG diz:

    Tenho alguma esperança que o aprofundamento do socialismo em Cuba pela via da adopção de soluções capitalistas ganhe momentum e esta transferência de trabalhadores para o sector privado seja apenas o princípio de um largo movimento naquela direcção. Se mais trabalhadores, como se espera, vierem a ser voluntàriamente coagidos a seguir o mesmo caminho, e se restarem na função pública, ao fim deste glorioso processo, vá lá, aí uns 15%, estar-se-á já muito perto do último estádio do socialismo. Com a vantagem, ainda, de essa solução não se distinguir da existente nos decrépitos regimes capitalistas e, assim, desaparecer alguma tensão que tem existido entre os dois sistemas.

  32. Leo diz:

    Ninguém foi preso por pensar e por opinar em Cuba. Rigorosamente ninguém, como o Nuno bem sabe.

  33. Jorge Silva diz:

    Cuba também não é imune à crise

    No “DN-Economia” de 05/01/11 pode ler-se:
    “São 1,3 milhões de trabalhadores que o Estado cubano pretende dispensar nos próximos três anos. “Reordenamento laboral” e trabalhadores “disponíveis” são as palavras utilizadas pelo regime de Raúl Castro para descrever um processo que, nas palavras de um economista cubano, é “digno de um ajuste do Fundo Monetário Internacional”.
    Perante isto o que dirão os pregadores da “desgraça portuguesa”, incluindo o PCP e os seus “cassetes” de serviço, com Jerónimo de Sousa à cabeça?
    O mais certo é não dizerem nada, pois quando o “modelo” comunista apresenta as suas fragilidades o PCP costuma desligar as “cassetes”.
    A notícia não me dá qualquer prazer.
    Pelo contrário, lamento-a. Pois a pior coisa que pode suceder a quem trabalha é ser despedido sem justa causa, mesmo que em nome da crise.
    No entanto a notícia poderá servir para que se tenha a noção de que, a nível mundial (e não só em Portugal) as coisas estão bem feias.
    Solução?
    À falta de melhor, arregaçar as mangas, trabalhar e lutar solidariamente contra a crise.
    E, a par disso, não alinhar na demagogia dos que (por não terem a possibilidade e a responsabilidade de ascender ao poder) tudo resolvem apregoando a necessidade de se distribuírem facilidades e isenções, a par de aumentos salariais.
    Tal como escrevi em Dezº/2008, continuo a pensar que:
    “afigura-se mais fácil o rejuvenescimento do regime Cubano do que a reconversão dos dogmas leninistas do PCP, que o impedem de adoptar conceitos que inspiram a esquerda moderna”.

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