As tropas de propaganda linguística (mais um épico musical)

Uma das características dos concertos de verão da Galiza (sim, estamos perante uma posta post-férias) é que estão cheios de portugueses, criando um fervedoiro de espanhuel e espalego (somos assim). Na espera à abertura de portas para os Arcade Fire, ouvi a seguinte fala:

(tuga): El problema ez o tempo… el caluor.. eztá… eeeh… mmmm… “abafado” como dizimos loz portuguezes… percebe? (depois, como ele apanha confiança, segue a falar o portunhol mas acrescentando palavras como “fixe”, “gajo” ou “bué” ante o aterrado olhar dos namorados que, até o momento, conseguiam seguir a conversa no idiolecto).

Só a réplica seguinte poderia levar o diálogo aos palcos:

(galega): Si… si.. entiendo… aqui a iso chamámoslle abafado. Eeeeh… Si… el calor… caen los pajariños do calor. Mi madriña bendita!

O meu colega queixava-se da desgraça de galegos e portugueses partilharmos uma fala mas ter a teima de nos relacionar através doutra e procurava em mim (coitado!) respostas, como suposto “perito em portugalidade”. Evidentemente, nem pensei em negar a minha qualificação e lá fui eu desventrar motivos: a fascinação pelo alheio, a recepção das TV espanholas em Portugal, a boa venda da marca “Espanha” e o pouco que faz por se publicitar culturalmente a Galiza, o mundial de futebol, a capacidade galega para negar o próprio idioma… enfim, lugares comuns e mentiras, todo mentiras.

Como estou disposto a demonstrar, trata-se de uma manobra secreta dos mais secretos grupos de poder que montam campanhas secretas para, secretamente, atacar os países estrangeiros e impor a sua língua através de, adivinham?, secretas e dissimuladas missões de destruição: A música melódica. Sejam corajosos e “leiam o resto”. Não me faço responsável de possíveis traumas cerebrais.

Começo por confessar que não faço ideia do que é exactamente a música melódica mas algo no meu interior fica perturbado com a leitura, em preto, desse sintagma. Recomendo aos produtores do Saw que o próximo filme leve o subtítulo de Música melódica. Terror assegurado.

E como quero começar deixando claro que não sou simplesmente um imbecil e sim um imbecil com estudos, abro o tema com uma citação

Uma língua não se converte em língua global a causa das suas propriedades estruturais intrínsecas, ou a causa do tamanho do seu vocabulário, ou a causa de ter estado associada no passado com uma grande cultura ou religião. […] Uma língua converte-se em internacional fundamentalmente pelo seguinte: o poder político da sua gente, especialmente o seu poder militar

(D. Crystal, English as a global language)”

Uma árdua pesquisa no youtube serve para localizar os soldados de cavalaria desta guerra secreta e cruel que finalizará com a nomeação da Praça de Camões em “Plaza de Camuenes”. A estratégia é muito simples: levar a língua local até o ridículo traduzindo temas espanhóis ao português e metendo aos próprios artistas a cantar na língua de Caetano e Marco Paulo. A partir da redução do moral local todo é possível, como bem sabe o Domenech.

Jose Luís Rodriguez (não Zapatero mas “El Puma”: cantor melódico que fazia as delícias das nossas maduras mães) (mentimos a nós mesmos ao pensar que era pela sua voz), perpetuou brutalmente uma série de versões em português dos seus clássicos (?). Neste vídeo podemos comprovar o modus operandi que as tropas de doma e castração linguística utilizam: smoking (sempre!!), difusão da imagem para não ver quem nos ataca, trevas…

Arrepiante, não é? Pois só acabamos de começar. A onda kitsch vinha da mão do progressista-e-gajo-sempre-na-moda Miguel Bosé quem, antes de se chamar a sim próprio “Papito” e ser Grande Artista, mandava mísseis aos ouvidos brasileiros. Da danceteria a uma body-bag linguística em tão só três caipiroskas.

Não temos de vídeo para analisar, mas já a capa do disco com ele vestido de matador dá conta das suas escuras intenções. Depois disto não compreendem que Saramago fosse viver para Espanha? (e que pedisse ser soterrado baixo uma pedra?).

Sejam bravos e não fujam. Ainda há mais. Camilo Sexto (ignoro se é apelido ou antes ouve outras cinco tentativas… só de pensar nessa possibilidade ganho agorafobia) deu também porrada nos tomates de Camões, adiantando-se no tempo aos dois anteriores. Olhar angelical e remodelação do visual: fora smoking, venha a camisa colorida e as calças tipo… bom, essas calças. E uma indefinição sexual que não impedia, inexplicavelmente, ser um sex symbol da época, com aqueles ares de urso amoroso.

Camilo (desculpem cortar o fio da minha evidente demonstração) foi, como não podia ser de outro modo, o protagonista de JesusCristo SuperStar na versão espanhola. E vendo algum dos vídeos dele, não surpreende nada (o inicio do vídeo está especialmente recomendado para as pessoas que adoram os vídeos de gatinhos):

Claro que já está este imbecil mostrando as misérias da música melódica espanhola, para que pensemos que tudo é assim de bizarro”. Ponto para ti, meu querido leitor. Por isso agora mudamos para um músico pelo qual sinto certa simpatia (mas, por favor, não contem isto por aí adiante. É um suicídio social entre a juventude). Joan Manuel Serrat tem um disco de versões em português com a Gal Costa. Conta como murro idiomático. Romântico e com swing. Mas murro na mesma.

Com coragem pelo seu ponto anterior, o leitor responde: “Meu caro, não percebes que tudo isto não está em português e sim em “brasileiro”? O alvo é Rio e não Lisboa.” Pois não. Primeiro por culpa da unidade espiritual da língua portuguesa sem a qual todos os parágrafos anteriores ficariam sem sentido (e certas cátedras na universidade de Coimbra também). Segundo, por tudo isto ser uma manobra de subterfúgio. A secreta agência de colonização linguística no estrangeiro tinha preparado algo grande para o país vizinho. Ao Brasil enviavam os peões… para Portugal reservavam a torre, o cavalo e o bispo, todo junto num smoking e um eterno bronzeado que mereceria ser alvo de uma tese em dermatologia. Sim. Estamos a falar de Júlio.

Não será esta a única ocasião na que o secreto serviço de (bom… já sabem) designe a Julio para tarefas no estrangeiro. Sem ir mais longe, Júlio será um dos encarregados de bater na inimiga Norte-América (nessa manobra com Diana Ross perpetrada num vídeo sobre uma festa na que o MDMA foi confundido com o molho dos canapés). Já só a entrada de Julio no vídeo mereceu que os americanos entregassem linguisticamente o Texas. Não podiam prever que os espanhóis atacariam, anos depois, com os mesmos genes…

Sem hesitar, voltando ao caso tuga, Júlio ataca. Sem piedade. Não contente com se borrifar para o idioma, decide atacar o simbólico fado. Rouba a melodia da Amália sem perder o sorriso Colgate e profana sadicamente acrescentando um sonido de teclado Casio “so eigthy” no início para desenvolver uma cantiga de louvor a Portugal que teria tirado as cores ao António Ferro. Pega no fado Coimbra e, como mostra do perímetro dos seus atributos, chama-o “Abril em Portugal” dez anos depois da Revolução. Se agora estão a pensar “Olé”, não é por acaso, é por Julio. Podemos considerar, portanto, a Julio Iglesias como um “Cantor de Abril”. Observem:

Bom, enquanto Fausto e José Mário Branco contratam a alguém para me partir as pernas, continuemos.

Muito gozar com Portugal, espertinho” – volta o leitor, único que segue este desvario – “e a Galiza que, eh?”. Bom, a Galiza foi, sinto admiti-lo, o campo de provas para Julio. Antes de se provar com Portugal decidiu dar porrada na casa (não esqueçamos que Júlio, como bom gentleman da direita bon vivant e champagnófila, é galego). Encontramos que, com uns anos menos, Julio tinha os tomates de mandar “Um canto a Galicia (hei)” em galego (ou algo semelhante, a universidade de Vigo ainda não conseguiu dar um parecer).

Até cá o perturbador teatro de guerra hispano-lusa. Mas, achavam que o tal gabinete secreto fazia isto só por pura maldade? Por volúpia de conquistar Lisboa (para além dos Bancos Santander, Zaras, Telefónicas e demais)? (Sim, agora é que chega a troca de perspectiva que nos levará de odiar a tais pérfidos burocratas secretos que atentam contra o idioma luso a sentir um tenro carinho por eles e os acrescentar como amigos do facebook e enviar abraços virtuais). Acham que só os espanhóis jogam a este jogo? Não, meus caros. Há uma autêntica guerra linguístico-musical encoberta, escondida e, sim, secreta. Espanhol e Inglês levam anos atirando-se aos seus melhores representantes sem que esta carnificina fonética lhes leve a algures. Podem reconhecer aos participantes pelo sotaque assassino, a distinção que lhes outorga o smoking e a paixão na interpretação.

E a culpa? Quem lançou a primeira pedra? Quem foi que começou toda este loucura? Quem é que me vai compensar por estes 20 minutos perdidos lendo a posta?. Tranquilos, responderei às três primeiras perguntas… com outro impagável documento.

Tranquilos, há versão com legendas.

E Portugal? Conhecem acções perpetradas por comandos musicais portugueses? Algum contra-ataque (para além do Blitzkrieg do Sócrates)?

Entretanto, já sabem, fujam dos homens de smoking como do diabo!

(e bom retorno das férias)

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16 respostas a As tropas de propaganda linguística (mais um épico musical)

  1. c diz:

    hoje tive uma epifania. já reparaste que os “amanhã que cantam ” se pode traduzir por cantamañanas ? je , je.

  2. Henrique diz:

    Brilhante ‘approach’ 🙂

    às vezes quando ouço catalão ponho-me a pensar como seria de facto essa língua sem as mistelas castelhanas…

    A Galiza mais cedo ou mais tarde vai ter de se libertar da sombra ‘meseteña’ e tornar-se o 8º país lusófono.

  3. c diz:

    lusofona ? a galiza ? so por cima do meu esquelete. e do castelao. que tella esa que o galego asemella portugues. antes assemellarme ao inferno. sen mistelas casteláns galego non fica portugues , e se non aboas , vai ler o manolo rivas o o suso del toro , modernos , de hoxe. que dos de antaño , non pescas nadiña sin axuda. ( ves , pons o Y e fica castelán , pons o J e fica tuga )
    e sei do que falo : falo perfeito português , falo perfeito castellaño. galego nem por isso. tenho que ter um diccionário ao lado sempre que leio em galego. por alguma cousa será. mais se asemella o portugués ao castelán que o galego.
    foi simples apremder a escrever em português : tudo o que acaba em ión ? ão. galego ? inda vou nas calendas.

  4. *ôssa Antonio Mira, o que deixas acima não é um post, é um tratado….

    Estou a brincar, claro…

    😉

    Conheço um bocadinho da Galiza, até me dei ao trabalho de ir à terra do arriba F. peró más alto qué Carrero B. (a ‘coisa’ chama-se Ferreol, é lá p’ra cima, nada de especial…) e adorei o país, tanto fax a língua que utilizas. eles entendem tudo…

  5. Antonio Mira diz:

    Ora viva!

    Henrique: Não sei se o catalão apareceu por culpa da Diada (dia da Catalunya), que é hoje… desconfiarei que se trata do galego do que falas. 🙂 O da Galiza na lusofonia é muito mais complicado do que parece e acho que já houve tentativas de aproximação que fracassaram… em Madrid. :s

    C: A verdade é que fico confuso com o teu comentário. Não percebo muito bem o que queres dizer… não falo só da tese… refiro-me às frases, em ocasiões. Do pouco que percebi, ainda discordo com bastante 😉 mais acho que isso pode ser mais interessante para ser tratado numa posta do que em comentários (e prometo fazer algo nas próximas semanas). Para já dizer que, tanto Castelao como Suso de Toro falam da semelhança entre galego e português. Assim que deixemos ao coitado do Castelao e o seu esquelete em paz, que já teve bastantes problemas na vida e depois dela. (Falaremos de Castelao proximamente, e do seu mexido enterro e traslado Argentina – Galiza). Não é um tema (este da relação entre o galego e o português) fácil nem livre de polémica. É mais: em ocasiões tanta polémica não deixa trabalhar…

    J.C.A.: Já disse no título que era uma posta ÉPICA. Ninguém me pode acusar de mentir!!!
    Ferrol tem mais coisas para além de ser berço do tal anão (e do fundador do PSOE e a UGT, Pablo Iglesias). Por exemplo é um foco de resistência operária do sector naval.

  6. Henrique diz:

    Não, efectivamente referia-me ao occitano do sul 😛

  7. c diz:

    Ai , Mira , ti non sabes que o Alegre fala de amanhãs que cantam ? un cantamañas pleno..
    detesto que portugueses queiram aproximar galiza a portugal. tolero , gosto , que queiram aproximar minho e trás os montes ( lindos , igualiños a nós ), agora , o resto ? nai miña , que mal fixen eu ao Señor para gramar con semellantes esperpentos?

  8. Renato Teixeira diz:

    podesterescritoistosóbriomasestavaspelomenosderessaca.
    Granda posta. E eu a pensar que nada era pior do que Toy ou Quim Barreiros…

  9. José Manuel - Porto diz:

    Na sua origem galego e português são, pelo menos até ao séc. XIV uma única língua: o galaico-português. Basta ler, na grafia original, das crónicas do Fernão Lopes. Existem mais diferenças entre o português e o Mirandês do que com o Galego. Isto explica-se porque o Mirandês deriva do medieval Astur-Leonês enquanto que o português moderno deriva do Galaico-Português. Mas ainda antes da uniformização linguística induzida pela televisão nas zonas rurais do Minho e do Barroso as palavras e as pronuncias eram idênticas às galegas. A separação linguística foi imposta politicamente às populações. Com a autonomia a questão linguística transformou-se numa questão politico-partidaria, o que só prejudicou a autenticidade linguística. Existem duas correntes opostos: uma (oficial) que pretende alinhar o galego com a norma linguística castelhana e outra que defende o seu alinhamento com a norma linguística portuguesa.

    Para quem quiser conhecer a verdadeira música e idioma galego por um dos seus melhores grupos (Fuxan os Ventos):

  10. LígiaPaz diz:

    Muito bom!!!!!

  11. Gracias pela Cantiga de berce, José Manuel.

    Vou passar a estar com mais atenção a esse pessoal…

    🙂

  12. Antonio Mira diz:

    C: Não tenho muito controlado ao Alegre… poeticamente ainda tenho uma série de nomes para conhecer antes… muitos nomes.
    O tema da aproximação linguística tem que ser visto na sua justa medida… uma coisa é que entremos na lusofonia e outra que comecemos a passar os fins-de-semana enfiados no shopping center. 😉

    Renato: Gosto que repares nos detalhes…. 🙂

    José Manuel: Fico muito chateado com o senhor!!! Não me venha adiantando futuras postas nos comentários! Assim não me deixa nada sobre o que escrever! 😉
    Agora a sério. O que diz José Manuel é certo e falaremos com mais vagar noutra posta (quando me tenha habituado à volta ao trabalho).
    De Fuxan os Ventos a mim sempre me arrepiou até o pranto a de “Muller”.

  13. francisco caetano diz:

    o “mirandês” deriva do medieval Astur-Leonês? a isto se chama “pôr em bicos de pé”.pantomineirices. o “mirandês” está para o português como o “barranquenho”. não são mais que falares da raia.

  14. francisco caetano diz:

    poupem-me com as lusofonias. eu gosto do galego como os galegos gostam.eu gosto do português como os portugueses gostam.por estas e por outras sou contra acordos ortográficos.gosto de ouvir a cesária évora como o bonga e o francisco (buarque de holanda) e o caetano(veloso) e a uxia como ao serrat e ao francisco ibañez.

  15. AGIL diz:

    Parece-me que da colheita do “Julito” esqueceu o “Tenho saudade…”, fuzilado da canção desse título de André Dobarro. De resto, parabéns! Gostei imenso do artigo.

    • Antonio Mira diz:

      Como diz o Miguel-Anxo Murado: O Ramón Piñeiro pensando horas e horas para separar filosoficamente os conceitos de “Morrinha” e “Saudade” e depois chega o Julito e com uma musica de 3 minutos manda todo ao traste…

      Grande erro não ter nomeado o “Tenho Saudade”, mas achei que havia vídeos de Julio que bastassem…

      Obrigado pelo comentário, passe por cá quando quiser.

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