Jornalismo de “serviço”

A entrevista “non stop” que, desde que foi condenado, Sua Inocência tem estado ininterruptamente a dar às TVs teve o mais respeitoso e obrigado dos episódios na RTP1, canal que é suposto fazer “serviço público”.

Desta vez, o “serviço” foi feito a um antigo colega, facultando-lhe a exposição sem contraditório das partes que lhe convêm (acha ele) do processo Casa Pia e promovendo o grotesco julgamento na praça pública dos juízes que, após 461 sessões, a audição de 920 testemunhas e 32 vítimas e a análise de milhares de documentos e perícias, consideraram provado que ele praticou crimes abjectos, condenando-o à cadeia sem se impressionarem com a gritaria mediática de Suas Barulhências os seus advogados, o constituído e o bastonário.

Tudo embrulhado no jornalismo de regime, inculto e superficial, de Fátima C. Ferreira, agora em versão tu-cá-tu-lá (“Queres fazer-lhe [a uma das vítimas] alguma pergunta, Carlos?”). O “Prós & Contras” só não ficará na História Universal da Infâmia do jornalismo português porque é improvável que alguém, a não ser os responsáveis da RTP, possa chamar jornalismo àquilo.

Manuel António Pina no JN, citado a partir de João Tunes, do Vias de Facto, com o título sugestivo de Suas barulhências no apoio a Sua Inocência.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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19 Responses to Jornalismo de “serviço”

  1. Abilio Rosa says:

    Realmente um post muito oportuno e lúcido sobre a infâmia que se abateu sobre o jornalismo português, e principalmente sobre a RTP, uma televisão alegadamente de serviço público, mas que há muito tempo não é mais do que uma «lavandaria a seco» do regimen e um instrumento de propaganda e da agenda da clique que assaltou o poder.

    Num país minimamente decente a tutela demitiria todos os responsáveis por esse infame programa, onde os srs juizes são gozados de forma soez, reles e nojenta!

    Eu pergunto, é este «serviço público» que a RTP quer prestar à sociedade?

    Como é que é possível que uma empresa pública, paga com o dinheiro dos contribuintes e que sustenta o mais reles proxenetismo informativo, ande a gozar com os tribunais e com as instituições, e pior, com a inteligência dos cidadãos?

    Quando é que algum partido chama ao Parlamento os responsáveis por mais esta infâmia?

  2. Rui F says:

    É uma vergonha esta democracia de fantocha.

  3. António Figueira says:

    Belo texto.

  4. Pisca says:

    Nuno
    Cuidado que ainda vem aí o Daniel Oliveira desancar isto tudo

  5. Mas o facto é que , objectivamente e analizando este caso com alguma frieza, que as provas que sustentam as acusações e as condenações deste caso, são muito fracas, para não dizer fraquíssimas, apoiadas apenas em declarações e depoimentos verbais. Não há, tanto quanto que eu saiba, gravações, fotos, ou provas materiais com semen tipo caso Monica Lewinsky.

    Também não sei, porque não acompanhei este caso ao pormenor na Imprensa, se os miúdos que se dizem vítimas foram alguma vez submetidos ao teste do polígrafo.

    Também seria útil sabermos se no rescaldo deste caso, todos as instituições com menores já tomaram pelo menos algumas medidas preventivas contra pedófilos, como colocar camâras com gravação, para pessoas e para matrículas de carros, nos portões de entrada, etc.

    Agora a verdade é que o caso Casa Pia e outros do género foram e são sempre a sorte grande dos Governos, sejam eles do partido a ou b, que estiverem em funções, enquanto se fala disto, não se fala e não se repara nas asneiras da governação…

  6. Nuno Ramos de Almeida says:

    Carlos Fernandes,
    Duvido que tenha lido o processo e certamente não leu a condenação que vai estar disponível amanhã. Eu não li a totalidade do processo, mas já li parte e sem entrar nele, digo-lhe que há duas coisas :
    Primeiro, muitos jovens da Casa Pia foram de facto violados. Existem exames médicos às vítimas que determinam isso mesmo. Foram feitas peritagens médicas e psicológicas que confirmam isso. Esta situação é um crime inominável. Normalmente, no meio do circo existente as pessoas costumam esquecer-se dos jovens da Casa Pia. Têm sempre imensas dúvidas, mas nunca se preocupam com o que aconteceu.
    Segundo, vê filmes a mais: o polígrafo não constitui prova no ordenamento jurídico português e não pode ser utilizada num processo.
    Finalmente, alguém me explica qual é o interesse dos jovens violados denunciarem pessoas que não praticaram os crimes? O que ganham com isso? A mim parece-me que se discute este assunto com alguma leviandade e achando normal que os jovens de colégios pobres sejam sujeitos a abusos sexuais e que deviam calar-se e não incomodar suas excelências.

  7. Carlos Vidal says:

    Que venha o DOliveira, então.

  8. Nuno, não é o primeiro texto do Manuel António Pina sobre este circo. Já antes ele tinha escrito isto
    http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.com/2010/09/porque-vida-e-vida-e-nao-se-resume-aos.html
    Quanto ao resto, os condenados estão no seu direito de fazer o barulho que quiserem. Mas assistir ao CC a chamar com desdém “rapazes”, “prostitutos” e “interessados” a vítimas que, na altura dos factos, tinham entre 10 e 13 anos é de dar volta ao estômago.

  9. LAM says:

    Manuel António Pina tem um bom texto sobre este assunto, com um senão: a influência da CS neste processo (com jornais e tvs à cabeça), não é de agora, existe desde o início do processo. E foi, num processo complicado como este, o que a CS queria, conforme o “lado” escolhido, que ia formatando a opinião pública. Ainda nos últimos dias antes da leitura da sentença, alguns opinadores referiam que o desfecho deste processo (leia-se condenações), eram um momento imperdível para a reabilitação da Justiça (leia-se também branqueamento do fim dos freeports, bpn s , face oculta e derivados). A própria chamada da rainha de inglaterra ao palácio presidencial da república uns dias antes não deve ser estranha a isto.

  10. Pingback: cinco dias » O esplendor de C. Cruz e a “dúvida metódica” do “arrastado” DOliveira

  11. Abilio Rosa says:

    Mais um post brilhante do Prof. Carlos Vidal.

    Um autêntico libelo acusatório contra a bovinidade que está atingindo a sociedade portuguesa.

    Já tive oportunidade de abordar este assunto noutros posts deste blogue e nunca é demais denunciar a infâmia que está em curso para branquear os mais vis crimes contra crianças desprotegidas e pobres.

    Tudo isto não é inocente. É tudo preparado ao mílimetro para preparar a opinião pública para os recursos que aí vêm e para todo o circo mediático que já se vislumbra.

    Como é que televisão que alegadamente emite «serviço público» pode descer tão baixo, desrespeitando os tribunais, o estado de direito, as vítimas de tão hediondos crimes, dando lugar a «debates», «entrevistas» e outros sub-produtos de intoxicação desinformativa?

    Não esquecer que tudo isto – a somar à telenovela do futebol – interessa à nomenklatura do poder, pois enquanto a «opinião pública» e «publicada» debate apaixonadamente estes assuntos, vão vergastando a população com mais medidas restritivas e espoliadoras dos portugueses.

    Quanto ao triste «arrastado», por curiosidade fui visitar os aposentos de tão desprezível pessoa e quase que vomitava com a filosofia e jurisprudência da treta que o assalariado do Bolsanamão enlenca.

    Felizmente apareceram lá bastantes comentadores a desmontar aquela operação de lavagem.

  12. Abilio Rosa says:

    Este post era para ser anexo ao post do Carlos Vidal, mas também aqui fica muito bem.

    Obrigado.

  13. koshba says:

    O que é estranho neste ‘pocesso’(oje tou com uma ‘dicção’ cavaquista) é q é todo orientado à maltosa do P’S’.E os outros gajos,os do psd?
    E a merda de ‘investigação’ sem fotos do ccruz a ir a Elvas ou à casa da av das forças armadas,gravações de audio e vídeo(é fácil fazer um furinho na casa da vizinha e enfiar um fibra óptica pelo tecto).A judite está caquética?Não entendo,a não ser que seja um show-off para entreter o pagode e dar a vez ao partido com mais corruptos por metro quadrado,aqui do bueiro….

  14. joão viegas says:

    Bom senso.

    Abstraindo do caso em apreço, quando aceitamos que se critique nos média sem qualquer rigor uma sentença CUJO TEXTO NEM SEQUER E CONHECIDO, estamos perante uma grave falha. Estamos perante uma atitude que aposta POR PRINCIPIO no discrédito do aparelho judicial.

    Porque é fundamental continuarmos a ter o direito de criticar julgamentos com rigor (perante uma autoridade independente) convém denunciar alto e bom som a forma perfeitamente chocante com que o assunto tem sido tratado, não so pelo advogado de uma das vitimas (este, ainda va la, tem um objectivo processual, embora demonstre comportar-se como quem não tem argumento sérios), mas pelo bastonario da ordem !!!

    O aparelho judiciario NAO E’, pelo menos em democracia, um poder arbitrario nas mãos dos poderosos. E’ antes uma administração publica que da a funcionarios com garantias, com regras e alias com uma responsabilidade que são cuidadosamente definidos por lei – lei de nos todos – a incumbência de apreciar as culpas e de aplicar a lei.

    Esta administração existe, não para os ricos que podem pagar advogados e fazer valer o seu ponto de vista junto da opinião publica, mas para proteger os fracos.

    E’ por conseguinte inaceitavel a atitude do bastonario. E que não me venham dizer que é a posição corajosa de quem não acredita no sistema. Afinal, se ele não acredita no sistema, porque é que cobra honorarios ?

    Finalmente, não me façam dizer o que não digo. Com todo o respeito que devemos aos magistrados, escolhidos em aplicação e por critérios que nos fixamos (na lei), é importante poder criticar as sentenças que proferem. Como advogado, é o que passo a minha vida a fazer (nomeadamente em sede de recurso).

    Agora ha que fazê-lo de forma séria e responsavel.

    O que eu tenho visto é antes uma palhaçada, perfeitamente inaceitavel para quelque profissional forense que se preze.

  15. A. Silva says:

    Como já disse noutro post, é realmente vergonhoso e infame toda esta reverencia a carlos cruz

  16. joão viegas says:

    Corrijo : para QUALQUER profissional forense que se preze.

  17. LAM says:

    As coisas não se excluem: a reverência a Carlos Cruz por uma das tvs (a tvi por exemplo “joga” no outro lado desde o início do processo), não dita automaticamente a sua culpa. É um acontecimento (grave) paralelo, mas que só reforça cada vez mais que este é um processo que está e foi desde o início inquinado por jogos de bastidores. Dos quais o público foi e vai no futuro sabendo (não estou a ver muita gente a dar-se à pachorra de ler um processo com quase 2 mil páginas…), aquilo que esses órgãos querem que se saiba, interpretanto e sublinhando as versões que melhor convém à sua causa.

  18. isabel says:

    de facto foi uma vergolhança.

  19. O título, com efeito, é muito sugestivo. Por isso mesmo desconfio dele. Um jogo de palavras, por brilhante que seja, nunca substitui um argumento racional.

    De tudo o que li neste blogue sobre este processo, só posso concluir uma coisa: as pessoas que têm certezas podem não odiar as que têm: as pessoas que têm certezas podem não odiar as que têm a certeza oposta (são, por fim de contas, aves da mesma pena). O que lhes faz confusão e suscita o ódio é a dúvida.

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