Dizer adeus a Lenine para dizer olá a Fabian Figueiredo?

Segue uma “crítica gratuita e tendencialmente corriqueira”, com apenas duas intenções: perceber por intermédio de um study-case mas, afinal, o que quer, o que é o Bloco de Esquerda? e lembrar ao study-case que por estas bandas há o terrível hábito de fazer críticas relativamente bem fundamentadas, onde a boa disposição não deve ser confundida com falta de conhecimento. Ao contrário dos blogs partido que proliferam na praça, este tem dado lições de convívio e de debate no campo da esquerda à esquerda do socialismo democrático. Ao contrário das pretensas colagens que tentam fazer, ora ao nacionalismo árabe ora ao PCP, qualquer leitor atento perceberá pelo que lê todos os dias que há mais cores no 5dias do que alguma vez houve no BE. Será porventura essa uma das características mais apreciadas do vinho desta tasca e um dos aromas que leva até os mais cépticos a voltar todos os dias.

Ao ganhar a juventude do BE em Coimbra, único organismo que não era controlado pela direcção, Fabian Figueiredo mostrou ao seu Comité Central o dote que lhe pode valer uma meteórica ascensão na hierarquia do partido. Não é para menos. Durante quase dez anos este núcleo de jovens foi o único bastião que não dizia ámen a cada devaneio social democrático da Mesa Nacional (uma espécie de internacional dos quatro partidos federados com meia dúzia de observadores normalmente pouco satisfeitos mas relativamente bem comportados).

Para quem esteja baralhado importa dizer que sim, é verdade, o BE tem jota, e que sim, é verdade, o BE não tem um mas quatro Comités Centrais. Não creio contudo que seja o espírito clássico da nomenclatura, o problema de um partido que se constrói mais como uma marca do que como organização, embora tenha 100 funcionários para 500 militantes (os outros oito mil são aderentes).

Quando tanto se fala de pluralismo no interior dos partidos, está visto, o BE terá sempre grandes lições a dar a todos os outros. Haverá algum onde a sua direcção de turno domine cada uma das estruturas? Do movimento estudantil ao trabalho, das autarquias ao aparelho burocrático da capital? Haverá algum que tenha tido em toda a sua vida apenas uma direcção?

O Playback do Carlos Paião bastaria para responder a esta espécie de aderente de quem ainda muito se há-de falar. Que chegará ao Parlamento sobram poucas dúvidas, resta saber se vai ser pelo engenho no mata-mata do jogo do tacho em que se transformou o BE desde que teve 16 deputados, se por ter dado o corpo ao manifesto na luta política. Confesso que do personagem conheço apenas o rumor do seu ego, que é amigo do amigo e que milita contra a violência policial (pelo menos contra alguma), mas depois da sua interpelação parece não haver razões para acreditar que valha a pena dizer adeus a Lenine para dizer olá ao Fabian Figueiredo.

Playback

Composição: Carlos Paião

Podes não saber cantar,
Nem sequer assobiar
Com certeza que não vais desafinar
Em play-back, em play back, em play-back!

Só precisas de acertar,
Não tem nada que enganar,
E, assim mesmo, sem cantar vais encantar
Em play-back, em play back, em play-back!

Põe o microfone à frente,
Muito disfarçadamente,
Vai sorrindo, que é p’ra gente
Lá presente
Não notar!…

Em play-back tu és alguém
Mesmo afónico cantas bem…
Em play-back,
A fazer play-back
E viva o play-back
Hás-de sempre cantar
em play-back, respirar p’ra quê?
Quem não sabe também não vê…
Em play-back,
A fazer play-back
E viva o play-back
Dá p’ra toda uma soirée!..

Podes não saber cantar,
Nem sequer assobiar
Com certeza que não vais desafinar
Em play-back, em play back, em play-back!

Só precisas de acertar,
Não tem nada que enganar,
E, assim mesmo, sem cantar vais encantar
Em play-back, em play back, em play-back!
.
Abre a boca, fecha a boca
Não te enganes, não te esganes,
Vais ter uma apoteose,
Põe-te em pose
P´ra agradar!…
Em play-back é que tu és bom,
A cantar sem fugir do tom…
Em play-back
A fazer play-back
E viva o play-back
Hás-de sempre cantar
com play-back até pedem bis:
Mas decerto, dirás feliz…
Em play-back
A fazer play-back
E viva o play-back
Agradeces e sorris!!

Podes não saber cantar,
Nem sequer assobiar
Com certeza que não vais desafinar
Em play-back, em play back, em play-back!

Só precisas de acertar,
Não tem nada que enganar,
E, assim mesmo, sem cantar vais encantar
Em play-back, em play back, em play-back!

Em play-back, em play back, em play-back!

Em play-back, em play back, em play-back!

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8 respostas a Dizer adeus a Lenine para dizer olá a Fabian Figueiredo?

  1. LAM diz:

    Curioso para quem viveu os períodos imediatamente pós 25 deAbril, desde 74 até 80 e picos, assistir agora a quase mais ou menos as mesmas discussões, mas com os protagonistas agora nos lados (digamos) opostos. Tal como agora, nessa altura era o PCP acusado de revisionista (agora o BE é “social-democrata”), por tentar por todos os meios estancar as lutas populares para não “desestabilizar” a “consolidação” da democracia e dos apelos incessantes às boas graças do PS para a formação de uma “maioria de esquerda”, o período em que a esquerda revolucionária, os “esquerdistas”, eram designados pelo termo mais tarde apropriado pela direita, de “esquerdalhos”. Era também o período em que, ao contrário de hoje em que as baterias do PCP se concentram em grande parte nos ataques ao BE (o número de declarações, intervenções em comícios, posts na blogosfera, em que o BE é referido bate todos os recordes), nunca ou quase nunca era feita menção pelo PCP aos partidos ou organizações políticas à sua esquerda, ocupados que andavam não só em silenciar e votar à inexistência esses partidos, como continuar o namoro com os socialistas democráticos e as forças políticas “responsáveis”.

    Hoje parece que a situação se inverteu. Os “esquerdistas” abrem-se aos “socialistas democráticos” e aceitam reformas que, no entretanto, minorem a má qualidade de vida da generalidade da população, pelo contrário o PCP vira “revolucionário” e fecha-se cada vez mais na sua concha.
    É a conversa da reforma vs. revolução. Já tem muuuitos anos.

  2. Renato Teixeira diz:

    Não me parece uma análise de matemática pura LAM. É verdade que com a social-democratização do BE, o PCP acertou o passo à esquerda, embora, e é pena, apenas no plano parlamentar. No campo sindical e no campo eleitoral as respostas são as que temos visto e estão longe de caminhar para o campo revolucionário. Quer o PCP uma revolução? Há quanto tempo não o ouvimos sequer dizer tal coisa? Os militantes de base sim querem, mas muitos no BE também, agora de que vale a vontade militante contra o carácter das organizações?
    Quanto ao BE nada mais a dizer. Remendos, côdeas, alegria e analgésicos. Está visto que passaram definitivamente a dizer ao que vêem.

    O seu paralelo tem no entanto a virtude de alertar para a pobreza que é debater o BE e o PCP como as comadres gabam os filhos, fazendo valer as qualidades dos seus apenas pela enumeração dos defeitos dos filhos das outras.

  3. LAM diz:

    certo, Renato. O que mais quis vincar é que o filme é velho e que houve apenas (pelo menos aparentemente), uma troca de papéis dos protagonistas. E isto é tanto mais interessante quando até há semelhanças nas tácticas de ostracizar (ou) reclamar do outro.
    Isto porque, naturalmente, as pessoas mais novas que não viveram esse período não podem ter essa perspectiva nem a acuidade crítica que lhes permita agora ir além da espuma.

  4. Pingback: cinco dias » Como o seitan pode parecer tudo sem saber a nada

  5. Rui F diz:

    Revolução…Socialismo…
    Quem é mais revolucionário…quem é mais Socialista.
    Socialismo…Comunismo…
    Que revolução o PCP quer? O PCP é comunista ou socialista…
    Que revolução querem alguns bloquistas?
    Tu revolucionas aqui…ele revoluciona ali…

    Foda-se!
    Parece conversa de bêbados! Estamos em Portugal e a URSS acabou. A desgraça do Muro caiu e ainda bem.
    A China explora os chineses até ao tutano e a Coreia do Norte mete-os num buraco até ao fim da vida. Um telemóvel em Cuba custa um balúrdio, e fogem da ilha aqueles que conseguem.

    Enquanto vocês, teóricos da teta tapam o sol coma peneira, os Liberais metem-se no cu dos vossos filhos.

  6. mamene diz:

    Esquerda do socialismo democrático????E,q tal capitalismo democrático?Não?
    É q são sempre os messmos gajos nos CA’s e,eu nunca votei nesses cabrões!!!!

    Este3 rui f. é mesmo a média aritmética dos habitantyes da cloaca xamada de portugal.Néscio!

  7. Renato Teixeira diz:

    Mamene, “capitalismo humanitário, esta é a história do Fundo Monetário”.

    Cada qual lá sabe a que reformas adere. Esta malta, está visto, é gente de convicções.

    Fabian F., meu arrivista de primeira aguada, estou estarrecido com a tua resposta ao “questionário 5dias”. A palavra é essa: estarrecido.
    Essa de te googlar foi engraçado embora não tenha encontrado resposta para nenhuma das minhas “perguntas”. Continuo à espera. Assim: estarrecido.

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