Mas, afinal, o que quer, o que é o Bloco de Esquerda?

O ultimo post do Tiago pôs-me a pensar um pouco no significado que tem hoje em dia o BE na Esquerda portuguesa. O aparecimento do Bloco como a congregação de vários politicos de esquerda com diminuta expressão eleitoral há uma década e qualquer coisa atrás parecia(pelo menos, a mim) alentar uma esperança para uma construção de uma esquerda com E grande. Um contributo que podia ser dado junto com o PCP (mas não só) a construir um projecto de poder sólido assente na solidariedade, na democracia participativa, na construção de um Portugal menos desigual. Confesso que tive (às vezes ainda tenho) essa ilusão.

O BE apresentava-se não como um partido, mas como um movimento. Uma plataforma, um sitio de encontro onde todas as esquerdas anti-capitalistas podiam se reunir. E essa ideia, a mim parecia-me bonita. Realmente uma ideia bonita, podiam-se respeitar as diferenças das esquerdas em prol da construção de umas bases minimas de entendimento para um novo Projecto Social.

Pensava eu, e mal, que algumas picardias entre as esquerdas iam esmorecer. Que era possível um momento histórico onde as várias Esquerdas olvidassem sectarismos e divergências (algumas delas que nada têm de politico e chegam ao nivel pessoal). Era um sonho bonito e ainda não o perdi de vista, embora cada vez mais me pareça um sonho longinquo…

Para que não haja confusões, acredito que muitos interlocutores válidos da Esquerda estão no Bloco e será com eles também que se construirá o combate por uma Sociedade mais Igual, mas, infelizmente parece-me a mim que está a ganhar força dentro deste Partido politico (o movimento, a plataforma de encontro de esquerdas já desapareceu) uma via tendencialmente interessada em preparar um discurso do possível, das cedências necessárias e nem de perto, nem de longe o vejo como uma cedência ao Governo imediato do PS. Não.

A minha análise, e espero estar profundamente enganado, é que existe um pensamento cada vez mais dominante no Bloco que implica a sua mais perfeita social-democratização a todos os niveis. Uma social democratização que começa a preparar agora uma relação com um PS pós-Sócrates, um pouquito mais à esquerda. Um PS que aceitará um reformismo do capitalismo, um PS que não se importe em não dar tantos privilégios aos que mais podem. E aí, estarão criadas as condições para um entendimento. Aí, o Bloco poderá aparecer como o “aliado temporal da burguesia” ou coisa que o valha.

Mas até aí, tudo bem. Mas, e a seguir?  A seguir, é a diferença entre aceitar a exploração como inevitável e o combate desenfreado contra a opressão do capital. A seguir,  é a diferença entre o dirigismo e o dirigente, entre reforma e revolução, entre a normalização e a ambição, entre contentar-se com “remendos e côdeas” ou lutar pelo “casaco” e pelo “pão por inteiro”.

Eu, actualmente,  pouco acredito no potencial revolucionário do Bloco porque parece começar a existir uma teoria não escrita, uma linha de pensamento dominante -não sei se puramente estratégico ou não- que a radicalização da forma do discurso é inversamente porporcional à radicalização do conteúdo. Quando o BE fala de socialismo, de que socialismo nos fala? O que é o socialismo do Bloco? Em que se materializa? Qual o modelo, o ideal -a ideia deleuziana- deste Socialismo? Qual é a ambição, a motivação, o quadro programático do socialismo do Bloco?

Como se pode ser socialista no século XXI e guiar-se/ ser guiado pelos media dominante? Como se pode ser socialista no século XXI e enjeitar posições, mesmo que de forma pontual, com a Direita internacional? Como se pode acreditar mais no Inimigo que no nosso camarada de luta? Como se pode mentir, mentir despuradamente contra o nosso Irmão de batalha? Como se pode esquecer a História, o contributo de practicamente todos os revolucionários do século XX? Como se pode ser socialista no século XXI e ter a pretensão de querer começar a História do zero, apagando da memória o sangue de milhões de revolucionários que deram a vida por uma sociedade livre da exploração, do fascismo, do racismo, da homofobia, do colonialismo e do pós-colonialismo, do intervencionismo e do imperialismo? Como se pode ser socialista no século XXI e ter vergonha dos socialistas do século XX? Como se pode ser socialista no século XXI e não ser revolucionário?

Eu, um dia, tive um sonho bonito e depois acordei…

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