Algumas centenas de anos depois, o Filipe Moura descobre o positivismo


Parece que o capitalismo é como a lei da gravidade. As pessoas sérias, como o Filipe, acham que não se deve pensar em superá-lo, porque assim o determinam as leis da natureza. De uma assentada, o nosso físico do Minho declara o fim da ideologia, da alienação e a incorporação da história dos homens provavelmente à ciência que estuda as pedrinhas, a geologia. ‘Pela minha alminha, os homens não pensam, não fazem as história, são os calhaus que a fazem por eles, e as pedrinhas da calçada sussurram-me Sócrates forever’, deve exclamar sobre este assunto o Filipe. A chatice é que se o positivismo não funciona nas chamadas “ciências duras”, dificilmente é aplicável à história. Basta olhar para o suceder das épocas para perceber que o capitalismo não foi o primeiro modo de produção que conheceu a humanidade e não será o último. Mesmo para a área de estudos que o Filipe é um reputado especialista, não fazia mal reler a “História das Revoluções Científicas” do T. Kuhn, para curar esse positivismo larvar, nomeadamente aquela passagem em que Kuhn escreve que perante uma revolução do paradigma científico, aquilo que parecia normal aos cientistas, parece ter-se transformado em outro planeta com uma paisagem completamente diferente.
O que eu afirmei no artigo que o Filipe criticou é que a ideologia é a matriz que condiciona a nossa forma de ver a realidade social e de encarar os limites da sua transformação. Vivemos uma época em que a maioria dos homens e mulheres encaram como mais possível uma qualquer catástrofe planetária do que a simples transformação deste modo de produção. A ideologia capitalista tem ainda uma outra vantagem para a manutenção do sistema: ela aparece como não existente. Não parece estruturada num discurso programático, mas num conjunto de práticas e relações de poder que a tornam normalmente invisível na nossa vida. Todos os dias fazemos um conjunto de actos e práticas que nos parecem tão inevitáveis como a lei da gravidade, mas que são frutos de uma escolha política e económica que as precede e condiciona. Parafraseando a célebre frase de Baudelaire sobre o Diabo: ‘o maior feito da ideologia capitalista é fazer-nos crer que ela não existe’.
Uma política de transformação não pode ficar-se pelas pequenas reformas no seio do existente, tem de ambicionar subverter a lógica do capitalismo e superá-lo. Como defende Rancière, A política que se afunda na gestão do que existe não passa de administração. E isso não contenta quem quer uma verdadeira escolha e uma acção que persiga a igualdade de condições de vida e de oportunidade para todas as pessoas.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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