O não-jornalismo e as não-notícias

Na edição online do Público apareceu ontem aquilo a que podemos e devemos chamar esta não-notícia.

O anúncio do candidato do PCP exigia que se procurassem consequências nos restantes partidos de Esquerda e o bom do jornalista lá foi à procura das «amolgadelas» que tal candidatura poderia provocar no BE. Foi, infelizmente, um trabalho mal feito e sem qualquer espécie de preparação.

Tudo o que começa mal dificilmente poderá acabar bem e a não-notícia tem um mau começo logo no título. Ao puxar para ali que os «bloquistas que contestam apoio a Alegre preparam lista alternativa a Louçã» a jornalista demonstra desconhecer que esses mesmos bloquistas (uma boa parte deles, pelo menos) já haviam apresentado uma moção própria na última convenção do BE.

Na ânsia de publicar qualquer coisa que fizesse transpirar o suposto mal estar vivido no seio do BE a jornalista esqueceu-se de completar a notícia com dados concretos. A dada altura escreve que «depois de gorada a iniciativa de realizar uma convenção extraordinária para debater o apoio ao socialista, o Ruptura/FER avançou com manifesto (…)». Em bom rigor a jornalista devia ter, pelo menos, feito o esforço de explicar que a iniciativa de realizar uma convenção extraordinária falhou porque apenas foram recolhidas 318 assinaturas para o efeito. Facto que se pode facilmente confirmar no blog criado pelos promotores da iniciativa.

Registe-se, por fim, a ironia de constatarmos que estes mesmos bloquistas que, segundo a jornalista, vão fazer uma lista contra Louçã o vão fazer porque queriam que fosse o Louçã o candidato do BE. Confuso? Talvez. Mas mais confuso é não ver nesta gente a mínima vontade de derrotar Cavaco Silva…

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11 Responses to O não-jornalismo e as não-notícias

  1. Renato Teixeira diz:

    E é essa a vontade do BE? Derrotar Cavaco Silva? Bem sei que é o que dizem, oficialmente, mas o que querem estrategicamente com esta táctica para as eleições presidenciais?

    Parece-me que ninguém está com vontade de derrotar Cavaco Silva. As três candidaturas ditas de esquerda mais não fazem do que dar boas razões aos eleitores para não saírem de casa.

    Estarão todas desmotivadas para derrotar Cavaco Silva? Ou mais adiante José Sócrates ou Passos Coelho? Ou simplesmente não conseguem vislumbrar porra nenhuma nestas candidaturas de coutada?

  2. Renato Teixeira diz:

    Outra coisa: para uma matéria de não jornalismo fica a sensação que consegues ver nela algumas notícias. Ou estou a ler mal dado adiantado da hora?

  3. Carlos Guedes diz:

    Renato, a candidatura apoiada pelo BE (em boa ou em má hora, isso é outra questão) dificilmente poderá ser considerada uma «candidatura de coutada». De resto, as tuas questões são pertinentes. Mas, mais uma vez, recordo que eu aqui não escrevo em nome do BE. E eu estou motivado para derrotar o Cavaco, tal como estava há cinco anos e tal como tenho estado desde que essa figura surgiu na cena política.
    Quanto à questão do segundo comentário, podes ser mais específico?

  4. aderente chateado diz:

    Carlos, não sei se apoias o candidato do governo ou qualquer outro candidato. No entanto quem escreve “Em bom rigor a jornalista devia ter, pelo menos, feito o esforço de explicar que a iniciativa de realizar uma convenção extraordinária falhou porque apenas foram recolhidas 318 assinaturas para o efeito. Facto que se pode facilmente confirmar no blog criado pelos promotores da iniciativa.” parece querer dar uma mãozinha ao Louçã no que diz respeito a “parecer ser democrático”.
    Aquilo que dizes está errado. Aliás no “blog criado pelos promotores da iniciativa” que linkas está lá explicado que 316 ou 318 assinaturas seriam mais do que os 10% dos aderentes no exercício dos seus direitos (como está escrito nos estatutos).
    No entanto, a tua fúria contra estas notícias que, na tua opinião, só ajudam a eleger Cavaco leva-te a dizer o que não está escrito no blog que linkas. Que é exactamente a mesma opinião da Comissão Política do BE. Ou seja, a adesão ao BE é vitalícia. Não interessa se se pagam quotas ou nem sequer se se participa da vida do BE. O que interessa é que em algum momento da vida o aderente tomou a decisão de aderir.
    E a partir daí conta como militante de plenos direitos. Especialmente se servir para negar a convocação de uma convenção extraordinária que não interessa à sua Comisssão Política.
    A democracia no BE deixa muito a desejar, mas ainda há arautos que querem ser mais papistas que o papa e vêm já avisar toda a gente que se o Cavaco ganhar, a culpa também é do Ruptura/FER que andou a dividir, etc, etc, etc.
    Desculpa, mas parece que andas já a estudar os argumentos para minimizar os danos da derrota do Alegre, arranjando bodes expiatórios de forma preventiva.

  5. Renato Teixeira diz:

    Posso. Eu vejo várias notícias neste notícia de não-jornalismo, como lhe chamas. E também não me importava que todas as não-notícias tivessem pelo menos o jornalismo desta.

    De resto, vem na linha do que já tinha sido feito com muito brilhantismo pela Ana Sá Lopes (na concorrência) que em boa hora o Tiago Mota Saraiva divulgou aqui na tasca. http://5dias.net/2010/08/25/o-bloco-na-clandestinidade/

    Que notícias encontramos: Há desconforto interno no BE. Dizes: Não é uma novidade. Terás razão. Mas desde quando o jornalismo e até as notícias têm que estar amarradas, com um espartilho, à novidade?

    Segundo, houve mais de 300 militantes que assinaram um documento a pedir um congresso extraordinário. Conheço o BE muito bem. Sei que não tem, nem de perto nem de longe, mais de 1000 militantes. A não ser que contes o Nabais e o Tó Silva (entre tantos outros que cavaram) o número que a direcção apresenta é mentiroso e anti-democrático. Todos o sabem e tu também o devias saber. Estamos por isso a falar de perto de metade das pessoas que fazem o BE todos os dias e pelo que me pude aperceber foram mais do que os militantes da FER. Ou a FER tem 300 militantes? Não significasse isso um problema a direcção do BE teria feito o abraço do urso e teria ela própria convocado um congresso para ratificar a sua linha alegrista. Porque não o fez se são assim tão esmagadores nesta matéria?

    Terceiro, o candidato do PCP foi um verdadeiro salvo contudo para os erros do BE. Optou por ficar na sua coutada para que o BE fique na dele. E sim, por tudo o que tem sido o BE nos últimos meses há mais que matérias para fazer notícias e jornalismo: apoio às teses do FMI e BM para o empréstimo à Grécia, apoio ao candidato presidencial do governo; a patranha dos temas no Socialismo 2010 (aqui demonstrado sem margem para dúvidas pelo NRA: http://5dias.net/2010/08/27/sobre-as-utopias-reais-e-outros-rodriguinhos/ ou aqui http://5dias.net/2010/08/26/uma-questao-de-memoria/) e o mais recente embalo numa campanha contra o Irão são apenas exemplos de outros tantos que poderia resgatar de outros meses mais longínquos.
    Não acharias o mesmo se tudo isto tivesse a ser defendido pelo PCP ou se o PS passasse a defender a luta de classes e a revolução socialista?

    Por último e fora já das questões que levantas do foro jornalístico devo dizer-te que não tenho nenhuma simpatia pela estratégia levada a cabo pela FER. Fui como sabes militante dessa contente durante tempo suficiente para ter tirado as minhas conclusões. Mas como poderás concluir do tema da lapidação gosto muito pouco de cavalgaduras e dificilmente ajudarei a direcção do BE em deixar as fragilidades da FER a nu numa altura em que como nunca foi importante dar um combate para denunciar a social-democratização do BE. O Ruptura faz bem o seu trabalho de casa nesse campo? É discutível. Mas não é discutível que quem pela esquerda quer militar no BE terá que se entender com eles para o que quer que seja e não deve cair na ratoeira da direcção do BE de se criticar esses “camaradas” por dá cá aquela palha com a única intenção de camuflar os seus telhados de vidro. Quem como tu já mostrou muitas destas preocupações deveria ter essa corrente numa conta diferente do que a direcção do BE tem.

  6. António Figueira diz:

    Esta peça não apareceu apenas na edição online do i: ontem eu comprei a edição em papel do jornal – para ler a entrevista ao Robert Fisk, claro! – e também a encontrei por lá. Francamente, não percebo por que razão há-de ser uma peça de “não-jornalismo”: desenvolve a tese da Ana Sá Lopes sobre a “passagem à clandestinidade” do BE durante a campanha das presidenciais, e por isso será incómoda para o dito (como este post deixa perceber), mas parece-me fair game: a perspectiva é a do jornal (é o seu direito) e as partes citadas são ouvidas. Mas ter comprado o i ontem (vou passar a fazê-lo mais vezes) valeu ainda por mais duas coisas: saber que o Duarte Lima considera a “campanha” de que estará a ser vítima por causa do folhetim Tomé Feteira/Rosalinda/Giselle como “vil e tenebrosa” (sic) e descobrir que o “Forum de Ideias Socialismo 2010” que o BE organiza este fim-de-semana em Braga inclui um workshop sobre “As danças dos trabalhadores”, orientado pelo deputado José Soeiro, que explica a propósito ao jornal que “muitas das danças nasceram a partir de gestos dos trabalhadores” e que “por exemplo, a dança das sevilhanas nasceu a partir da apanha da fruta”. Pois.

  7. Carlos Guedes diz:

    Não estando de acordo com todas as posições da direcção do BE, tenho que dizer que nesta questão das presidenciais estou. E estranho que agora se faça por esquecer e mesmo apagar o que aconteceu na última convenção. Recordo que nessa altura a questão das presidenciais foi discutida e de lá saiu a decisão que depois se implementou. Só não viu e não vê quem não quis e continua a não querer ver. As condições em nada se alteraram e pretender realizar uma convenção extraordinária com base em argumentos dúbios e/ou inexistentes é pura perda de tempo. Mais ainda quando nem sequer se propunha uma alternativa a Alegre. A alternativa Nobre nunca foi assumida e a alternativa Louçã surgiu tardiamente e com objectivos pouco claros e mal explicados.
    De resto, não quero, de forma alguma, desvalorizar o papel da FER no seio do BE…

  8. LAM diz:

    Renato, antes pelo contrário: se há alguma coisa bem delineada pelo BE no apoio a Alegre é exactamente a táctica adoptada. Por muitas negas que haja (e estou convencido que vai haver), por parte de muitos tradicionais votantes no BE no apoio a Alegre, o certo é que se vai juntar a sectores muito mais numerosos, como sejam (penso), a grande maioria de votantes no PS. Que isso, posteriormente, sirva para alguma coisa é que ponho muitas dúvidas. Tanto assim é que, para já, para já, quem engoliu sapos com a candidatura de Alegre foi Sócrates e, no caso, pouco provável, da imposição de uma 2ª volta, sempre é melhor já lá estar no apoio a essa candidatura do que fazer como o PCP e apanhar o comboio na última estação.

  9. aderente chateado diz:

    Desculpa lá Carlos. Mas voltas a trazer um por um os argumentos da Comissão política. Qual megafone no seu melhor sentido.
    Eu também “estranho que agora se faça por esquecer e mesmo apagar o que aconteceu na última convenção.” Recordo até que a passagem do texto aprovado por larga maioria que se referia às presidenciais, era no mínimo ambíguo e dava para se fazer o que se quisesse (o candidato mais abrangente da esquerda ou algo assim…). Uma carta branca à Comissão Política, portanto.
    Se na Convenção ficou tudo tão explicado e decidido, como é que o Luís Fazenda (que não é propriamente um zé ninguém no BE) se dá ao luxo de na última intervenção – Intervenção de Encerramento, portanto – dizer o seguinte:

    “Os camaradas da Moção C inventaram até essa prodigiosa fantasia de que iríamos eventualmente ter um candidato às presidenciais em comum com o governo. É caso para dizer que só contaram para vocês”
    http://www.esquerda.net/mp3/podesquerda/convencao04.mp3 (lá para os 24 minutos e qualquer coisa)???

    Afinal o BE tem mesmo um candidato em comum com o governo! E os outros é que são loucos e estão fora da realidade.

    A realização da convenção extraordinária não tem nada a ver com ser perda de tempo ou não. Ou está nos estatutos que 10% dos aderentes convocam uma convenção ou não está??? Tem a ver com isso. Única e simplesmente. E se 316 aderentes queriam discutir a questão quem és tu para dizer que é perda de tempo??? E também gostava de conhecer os 3160 aderentes do BE NO EXERCÍCIO DOS SEUS DIREITOS!!!!!

    Claro, a alternativa. Se fosse o Carvalho da Silva era utópico, se fosse o Eugénio Rosa era louco, se fosse o Louçã era tardio e com objectivos pouco claros e mal explicados (mais ou menos como em 2006, não é senhor Carlos Guedes???). Como diria o próprio Louçã, estamos conversados no que diz respeito a democracia.

  10. Fazenda diz:

    “estranho que agora se faça por esquecer e mesmo apagar o que aconteceu na última convenção. Recordo que nessa altura a questão das presidenciais foi discutida e de lá saiu a decisão que depois se implementou. Só não viu e não vê quem não quis e continua a não querer ver.”

    Carlos, então o Fazenda mentiu: http://www.youtube.com/watch?v=QP3z_aYsfUg

    É caso para dizer carlos que “só contaram para vocês”

  11. Renato Teixeira diz:

    LAM é mais do que um problema táctico. Este, emana acima de tudo de uma concepção estratégica equivocada e tão velha quanto Fazenda acusa quem não abandona um projecto classista e anti-capitalista. Vejo o vídeo do esquerda.net sobre a abertura do socialismo 2010. Clarificador.

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