Entrevista com Robert Fisk (versão alargada)

É o decano dos jornalistas no Médio-Oriente. Residente em Beirute há 34 anos, foi o último “infiel” a entrevistar Bin Laden. Conhecedor profundo da região afirma que “o jornalismo tem que estar sempre do lado das vítimas”.

No Médio-Oriente entre as pessoas que mais contribuem para compreender a região está incontestavelmente Robert Fisk. Correspondente estrangeiro em Beirute há 34 anos, poucos são os factos de relevo que lhe escapam à memória e nenhuma das fontes mais difíceis deixa de lhe telefonar quando há algo importante para dizer. Por essa razão os seus artigos e as suas reportagens, depois de serem publicadas no Independent, são vendidas e traduzidas para dezenas de meios de comunicação em variadíssimos países.

A sua última paragem como correspondente internacional antes de rumar ao Médio-Oriente foi Portugal onde esteve no período imediatamente a seguir ao 25 de Abril e acompanhou boa parte do Verão quente.

A entrevista transformou-se numa conversa de horas, entre a Spaghetteria e o seu apartamento no afamado Corniche, da qual publicamos os excertos [agora em versão alargada] mais clarificadores das problemáticas que cicatrizam o Médio-Oriente:

O que recorda do tempo que passou em Portugal?

Robert Fisk: A primeira coisa que me vem à cabeça foi o pavor com que os meus editores me disseram que tinha que ir para Portugal. ‘Tens que ir imediatamente para Lisboa. Temos informações que está em marcha um golpe de estado comunista e que o Cunhal vai tomar o poder’, disseram. Claro que ao fim de poucas semanas em Lisboa percebi que para perceber o que se passava tinha que ir para onde estava a acontecer a revolução, e isso era no Alentejo e não na capital onde estava um batalhão de correspondentes internacionais, ou no Algarve, onde estava a maior parte dos jornalistas britânicos.”

Que entrevistas ou contactos que mais o marcaram?

RF: Já lá vão demasiados anos mas lembro-me daquele diplomata ligado aos interesses norte-americanos, como se chamava?”

O Carlucci?

RF: Sim, o Carlucci, como me pude esquecer, ele tinha mesmo ar de Carlucci. Conheci também o Soares e fiquei com a sensação que era uma pessoa dúbia e uns anos mais tarde, numa reunião da Nato em Paris, pude confirmar que afinal se tratava de uma pessoa muito dúbia. [risos]”.

Por onde andou? O que conheceu? Viu uma revolução bolchevique em marcha como lhe avisaram os seus editores?

RF: Fora de Lisboa, em particular no Alentejo, de facto havia muita coisa a acontecer, ocupações de terras, tribunais populares, etc, mas longe de justificar as informações alarmistas dos escritórios de Londres. Uma Cuba na ponta mais ocidental da Europa seria impossível, sem sentido. Falei também com as pessoas no terreno. Agricultores, sindicalistas, militares do MFA e claro o Otelo Saraiva de Carvalho, o Costa Gomes o Spínola. Guardo óptimas recordações desta que foi a primeira revolução na Europa depois da revolução russa.

Também houve a Espanha…

RF: Não sei se podemos caracterizar o processo espanhol como uma revolução.

Quando regressa agora a Portugal o que é que vê?

RF: Francamente? Vejo apenas mais um moderno país europeu apesar alguns jovens ainda se vestirem como nos tempos da revolução. Do que me apercebo há muito pouca memória desse período.

Depois veio para o Médio-Oriente e é cá que se encontra desde então… é muitas vezes conhecido por ser o “repórter do Bin Laden” fruto de o ter entrevistado duas vezes e dos elogios que ele lhe teceu. Chateia-o essa redundância?

RF: Sim as entrevistas com o Bin Laden é algo que as pessoas associam a mim. Foram momentos importantes do ponto de vista profissional, claro, mas sublinharia outros mais importantes.

Quais?

RF: Do ponto de vista histórico foi a revolução islâmica no Irão, que desafiou em absoluto o poder norte-americano e mudou o mapa no Médio-Oriente. Cheguei relativamente tarde a Teerão em 79 mas ainda testemunhei o regresso do Ayatollah Khomeini, que cheguei a entrevistar ainda durante o episódio do assalto à embaixada dos EUA.

Do ponto de vista pessoal o momento que mais me marcou foi em 83 nos massacres de Sabra e de Chatila. Era praticamente preciso escalar os corpos para entrar nos bairros e o chão estava forrado de cadáveres. Eram centenas e centenas de corpos. Pavoroso.

Há algum sítio em que gostava de ter feito reportagem e não fez?

RF: Lamento não ter sido repórter na segunda guerra mundial. Acho que foi o acontecimento mais vibrante para a história do jornalismo.

Consegue trabalhar em árabe?

RF: Consigo ler bem árabe embora a minha pronúncia seja terrível.

Fora do jornalismo o que é que mais aprecia fazer?

RF: Gosto muito de tocar violino e tenho pena de não poder tocar mais vezes um violino iraniano que a minha mulher, em tempos, me ofereceu. Tenho pena de não ter tempo para tocar mais vezes.

Disse que o Irão foi um dos acontecimentos mais importantes na História do Médio Oriente, o que concluiu da fúria revolucionária de 79 e que paralelos se podem ou não fazer com o recente movimento verde?

RF: Em 79 havia muito medo, no Irão, que a CIA estivesse a organizar um golpe de Estado, coisa que provavelmente estavam, tal como já o tinham feito contra Mossadegh, e por isso havia ordens para executar as figuras de proa do anterior regime, e claro, muitos dos dissidentes. Isso fez daquela revolução um banho de sangue.

Não tenho dúvidas que a última eleição foi forjada, principal motivo de contestação do tal movimento verde. Acho no entanto que Armadinejad ganhou as eleições ainda que não pela margem que ele diz ter ganho. Da mesma maneira que não tenho dúvidas de que a esmagadora maioria do movimento verde não queria acabar com a República Islâmica.

Acha que o ocidente reagiu da melhor maneira, em particular os EUA?

RF: Não cometeram a loucura de começar um conflito militar, mas ao optarem pelo embargo deram a Armadinejad o presente que ele queria. Os líderes ocidentais continuam a pensar que toda a gente no médio oriente é estúpida mas os factos têm demonstrado que eles não são.

O ocidente bombardeia e invade muitos destes países sem qualquer convite e ainda quer que eles agradeçam? “Nós” já perdemos a fé em Deus há muito tempo, e os muçulmanos não aceitam continuar a ser dominados politica, económica e socialmente, por aqueles que nem a sua fé e a sua cultura conseguiram salvaguardar.

Como ganha o Irão com o embargo?

RF: Quem é que afecta o embargo? Principalmente a classe média aqueles que gerem o motor da economia do Irão. Quem é que ganha com um bloqueio que afecta principalmente as pessoas mais susceptíveis a vir defender uma mudança de regime? Além de tudo isto os EUA estão a oferecer um mercado muito apetecível à China que hoje como nunca ama verdadeiramente o Irão. Os americanos ainda não se deram conta que a China já é uma superpotência…

Pode ser feito um paralelo entre estas sanções que estão agora a ser aplicadas ao Irão e aquelas que foram aplicadas ao Iraque?

RF: Não, de todo. Não terão o mesmo efeito.

O embargo não será então a preparação do terreno para uma guerra entre o Irão e os EUA?

RF: Uma guerra com o Irão neste momento é o pior pesadelo de Obama e ela só pode acontecer se Israel a forçar. Apesar disso, sabemos que se a guerra estalar, o que por vontade do Lieberman, um verdadeiro Armadinejad hebraico, já tinha acontecido, os EUA defenderão o seu aliado de sempre mesmo com enormes custos políticos e até militares. As minhas fontes em Washington, ligadas ao Exército, dizem-me claramente que os EUA não estão em condições de ter uma terceira frente de guerra. O Afeganistão e o Iraque já é demasiado e também aí as coisas não estão a correr bem. Há mais soldados ocidentais no mundo muçulmano do que cruzados no século XI e XII. Estamos perante uma segunda cortina de ferro.

Uma segunda cortina de ferro parece uma ideia bastante assustadora…

RF: Pense estrategicamente, como se estivesse em Washington. Para que serve esta cortina para além da questão do petróleo do golfo? O que está para lá dos países que a formam?

A China?

RF: A China e a Índia. Os EUA querem usar a Índia como o seu guarda avançado para suster a crescente influência da China, mas esta estratégia também não irá resultar. A Índia e a China gostam uma da outra e têm tudo a ganhar com o reforço das suas relações bilaterais.

Então é essa a principal preocupação dos EUA? O despertar da economia desses dois gigantes?

RF: Eu estou convencido que sim o que coloca o Paquistão no centro do problema. Não há dúvidas que o Paquistão está a dar apoio aos Talibãs mas porque o estarão a fazer? Precisamente porque estão convencidos desta estratégia de aliança e receiam que os EUA acabem por dar Caxemira à Índia, o que também é bem capaz de ser verdade. Assim sendo, percebe-se porque entendem que os soldados americanos devem sangrar até à última gota em Kandahar. O Afeganistão era e é o país dos Talibãs. Basta aterrar em Kandahar e encontra-os logo no aeroporto.

Pode considerar-se o Afeganistão um novo Vietname?

RF: Em termos de baixas americanas ainda não. Não porque estejam a perder poucos soldados mas porque no Vietname eram aos milhares. Se pensarmos em termos de dinheiro, sim.

No seu mais recente livro fala de civilização no singular. Rejeita a ideia do choque de civilizações?

RF: Não há nenhum choque de civilizações porque não se pode falar no plural de civilização. Só há uma civilização e ela está melhor representada do lado de cá da cortina. Ouça os idiotas de Washington a falar, com aqueles argumentos infantis. Têm todas aquelas Universidades, Fundações e Gabinetes de Estudo espalhadas pelo mundo com milhões de dólares para o perceber e o que é que eles sabem? Nada. Rigorosamente nada. É confrangedor. Uma pessoa chega a um departamento de Estado e somos confrontados com quadros que parecem autênticas crianças a argumentar. É ridículo. A Condoleezza Rice quando esteve aqui em Beirute no meio do banho de sangue da guerra de 2006, deu uma conferência de imprensa a dizer que o Líbano estava a ser a sala de parto de um novo Médio-Oriente. Eu tinha chegado à conferência de imprensa vindo de um sítio onde estavam a tentar perceber a que corpos pertenciam algumas cabeças de crianças… sala de parto? Mas esta mulher está doida, pensei eu.

Fala como se fosse impossível aos EUA ganharem a guerra no Afeganistão…

RF: Seriam os primeiros, se o conseguissem. Basta sobrevoar o Afeganistão e olhar para baixo para perceber que qualquer iniciativa militar ali está condenada ao fracasso. Pergunto-me porque é que Obama não acaba de vez com esta loucura do Geoge Bush…

E porque é que acha que ele não acaba?

RF: Eu acho que Obama é uma imitação. Não se importa com a colonização de Israel de terras árabes, com o cerco a Gaza, com o roubo de água, com o problema de Jerusalém… pergunto-me como foi capaz de aceitar o Nobel da Paz. A partir de agora só pensa em ser reeleito e por isso está-se borrifando para os Palestinianos, os Sírios ou os Libaneses. Sharon é um criminoso de guerra e Israel um apartheid. Os Estados Unidos da América de um super Estado terrorista. Claro que quando dizemos isso todos nos acusam de anti-semitismo mas isto é dizer toda a verdade. A actual política de Israel está a transformar o anti-semitismo em algo respeitável, o que é uma vergonha para Israel.

Vê com bons olhos o resgatar do processo de paz?

RF: Falar em processo de paz neste contexto é um disparate. Lixo. Quantos mais árabes são assassinados mais se fala em processo de paz. Obama, quando começar a próxima guerra entre Israel e o Líbano, irá dizer que esta é uma boa oportunidade para relançar o auto proclamado processo de paz.

Dá crédito então aos rumores de uma nova guerra entre Israel e o Líbano?

RF: Será no próximo ano, pode escreve-lo. Os dois lados querem ir para a guerra. O Hezbollah quer provar que consegue vencer o exército israelita e Israel quer provar que ainda é capaz de ganhar uma guerra aos árabes coisa que não acontece nos últimos 37 anos. Aqui, uma vez mais, Obama não vai fazer nada para o impedir. Acredite no que lhe digo. No entanto Israel não invadirá novamente o território com soldados. Serão esmagados se o fizerem e correrão pelas suas vidas como fizeram em 2006. Vi-o com os meus próprios olhos ao lado dos militares do Hezbollah. Mas isso não evitará o conflito. Veja bem qualquer um dos dois, Israel e o Hezbollah dizem estar preparados e têm brinquedos novos vindos da indústria militar americana e iraniana. Ninguém sabe ao certo o que o Hezbollah tem, sendo certo que têm baterias anti-aéreas e mísseis terra-terra falta saber se têm mísseis terra-ar, capaz de derrotar a supremacia militar da aviação hebraica. Aqueles que como eu vivem aqui desejam que tenham pois ninguém quer morrer bombardeado pela aviação israelita. Tragicamente estão ansiosos para experimentar os seus novos brinquedos. Vai ser uma guerra feia.

E que desculpa vão usar para começar a guerra?

RF: Não se preocupe, no dia em que quiserem mesmo começar a guerra encontrarão uma desculpa com facilidade. Se não for este processo do Hariri será outra coisa qualquer. Israel passou a vida a invadir o Líbano. Invadiram em 78, 82, 93, 96, 06. Veremos se desta vez não é o Hezbollah a pensar que, para variar, pode ser ele a invadir, e libertar nem que seja por um dia ou dois algumas aldeias no norte de Israel.

E esse conflito pode envolver o Irão e os EUA?

RF: O Líbano são os pulmões através dos quais o Irão respira. O Hezbollah é a primeira linha do Irão como Israel é a última dos EUA. Se Obama atacar o Irão, o Irão não pode atacar a América mas o Hezbollah pode atacar Israel.

E a Turquia? Como vê a mudança deste aliado estratégico de Israel, em particular no apoio dado ao Mavi Marmara, a famosa “flotilha da liberdade”?

RF: A mudança da Turquia é significativa mas anterior ao ataque. Recorde as palavras de Erdogan naquela cimeira em que acusou Israel de ser muito bom a massacrar as crianças palestinianas. Os turcos são orgulhosos e claro que o episódio da flotilha os deixou feridos. Não queiram brincar com os turcos que eles têm uma marinha que se vê, coisa que Israel não tem. Ainda assim acho que não cumpriram com a ameaça de enviar navios de guerra para proteger as próximas flotilhas. Os EUA irão diligentemente evitar isso.

Se os dinamizadores dos barcos não forem desistindo, e eu acredito que irão desistir, Israel não terá problemas em, se for preciso, afundar os barcos. Eles já são piratas em terra será fácil adaptarem-se ao mar.

O que lhe parecem as acusações que são feitas aos organizadores?

RF: Não sei bem. São de facto misteriosos. Envolve organizações muito diferentes e não se percebem bem os seus objectivos. Uns querem levar comida para Gaza, outros querem furar o bloqueio outros querem libertar a Palestina. Enfim, não está clara a sua agenda nem quem são estas pessoas. Claro que se percebe que é uma resposta, sobretudo islâmica, à humilhação imposta aos Palestinianos, mas isso está longe de explicar tudo. Não obstante, tiveram o mérito de obrigar o governo israelita a dizer as palavras Rachel Currie, algo que seria impensável ouvir das suas bocas.

E porque acha que Israel ordenou o ataque à ultima flotilha?

RF: Primeiro eles não acharam que iriam encontrar resistência a bordo. Depois tinham a esperança de encontrar material militar, coisa que rapidamente reconheceram que não tinha. Contudo, o principal motivo é o que sempre move os serviços secretos de Israel. Havia execuções para fazer. Houve pessoas assassinadas na nuca. Muitas das autópsias que se realizaram em Istambul concluem que se tratou de uma execução sumária. Não se pense que o que aconteceu foi um erro. Houve danos colaterais é certo, mas Israel conseguiu os seus objectivos militares com o ataque. Os crimes de guerra não são um exclusivo do Hamas ou do Hezbollah. Há muito que Israel opera desta maneira.

E que papel pode desempenhar o Egipto?

RF: Nenhum. Enquanto Mubarak estiver à frente do país os EUA nem precisam de bases militares no território. E Mubarak vai viver por mais duzentos anos. No Egipto os islamistas nunca chegarão ao poder. Pode-se matar o Sadat, o amigo de Rommel, numa manhã, que ele será substituído por outro militar fiel a Washington ao final da tarde. Será sempre assim e por intermédio de eleições Mubarak ganhará sempre pois as eleições no Egipto são uma farsa.

A troca de acusações no assassinato de Hariri pode desencadear numa guerra civil?

RF: Não acredito. Ninguém no Líbano quer uma nova guerra civil. Quando me perguntam, aqui, se eu acho que o Líbano tem futuro, eu respondo-lhes que enquanto fizerem essa pergunta a ocidentais como eu, a Washington, Londres, Tel Aviv ou Paris, não terão qualquer futuro. Digo-lhes sempre que esta é uma pergunta que eles devem colocar a si próprios.

Acredita que algum dia haverá paz na região, que a Palestina e Israel venham a respeitar a soberania das suas fronteiras mutuamente?

RF: Não acredito que algum dia haja um Estado Palestiniano. Metro quadrado por metro quadrado Israel vai ocupar toda a Palestina. Sou um céptico mas não tenho nenhum elemento para acreditar que Israel venha a reconhecer a Palestina seja em que circunstâncias. Não há processo de paz, essa é uma estratégia para Israel vir a conseguir o que sempre procurou, a anexação total da Palestina.

Acha impossível então uma solução de dois Estado?

RF: Digo-lhe que para haver essa negociação Israel tem que definir primeiro as suas fronteiras, coisa que nunca fez. Israel é um Estado que foi criado legalmente, pois teve a bênção das Nações Unidas, mas isso não faz da sua fundação um acto justo. Illan Pape e Jonh Pilger são activistas, e eu não, mas têm toda a razão quando acusam Israel de levar a cabo uma limpeza étnica.

Tem problemas com Israel por causa da sua perspectiva sobre o conflito?

RF: Em Israel, nenhum. A maior parte dos judeus que me atacam são os que vivem longe de Israel. Aliás, quanto mais longe vivem mais me atacam fruto do peso da sua consciência por não terem abraçado o Aliyah, o regresso à terra santa.

Há mais judeus a irem para Israel ou a saírem de lá?

RF: Não tenho os números oficiais mas a sensação com que se fica em Israel é que são mais os que estão a sair do que a entrar.

É frequentemente atacado por ter posições pro-árabes? Aceita essa crítica?

RF: Não. Fazer jornalismo em situações de conflito não pode ser encarado com fazer o relato de um jogo de futebol, onde se procuram dividir as atenções equitativamente entre as duas equipas. No Médio-Oriente o papel dos jornalistas é estarem equidistantes relativamente às direcções de cada um dos lados em conflito, para que possam estar ao lado daqueles que verdadeiramente sofrem. Se recuar ao tempo da escravatura daria igual tempo de antena aos senhores ou centraria a sua história na vida dos escravos? Às portas de Sabra ou de Chatila eu não quero saber das desculpas dos responsáveis das forças armadas israelitas que ajudaram a Falange no massacre, como não quero saber das razões da Jihad Islâmica depois do massacre num restaurante em 2001, que matou dezenas de inocentes.

De um lado e do outro interessa-me contar a história daqueles que sofrem e não a história dos vencedores. Às portas de um campo de concentração da Alemanha Nazi daria o seu microfone ao um oficial das SS? E não me venha dizer que isto é a posição de um activista porque eu respondo que isto é uma questão moral que não tem nada que ver com o favorecimento desta ou daquela parte do jogo político. Eu não sou religioso, mas penso que é isso que pregam todas as religiões, o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Não passam a vida a fazer a defesa moral daqueles que sofrem?

Há uma história antiga de uma publicação que recusou a história de um jornalista que tinha testemunhado um assassinato de uma criança palestiniana por um soldado israelita. O editor desta jornalista não aceitou a história enquanto não houvesse a versão oficial do governo de Israel. Como é que isto é possível? Um correspondente vem para o terreno e não pode escrever o que os seus olhos testemunham? Isto sim me parece activismo. Se eu vir um assassinato de uma pessoa inocente, seja feito por um suicida do Hamas ou por Israel, eu escrevo sem ter nenhum interesse em saber o contraditório. Eu vi. Tenho o direito e o dever de o escrever.

Veja o caso da última invasão a Gaza. 1300 palestinianos, maioritariamente civis, morreram. Cerca de 300 eram crianças. Do outro lado morreram 13 soldados israelitas dos quais três deles foram vítimas de fogo amigo e dois eram de origem árabe. Se os números fossem ao contrário alguém viria falar de imparcialidade?

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged . Bookmark the permalink.

24 respostas a Entrevista com Robert Fisk (versão alargada)

  1. Justiniano diz:

    Renato,
    ““Nós” já perdemos a fé em Deus há muito tempo, e os muçulmanos não aceitam continuar a ser dominados politica, económica e socialmente, por aqueles que nem a sua fé e a sua cultura conseguiram salvaguardar.” que tal!? Gostaste!!??

  2. Joaquim Nunes diz:

    SEM COMENTÁRIOS…? …sem comentários.

  3. Renato Teixeira diz:

    Sim, fica no ouvido. Explica pouca coisa mas explica bem. Particularmente a abnegação dos seus soldados. Veremos… veremos…

  4. Renato Teixeira diz:

    Joaquim Nunes… ?

  5. Justiniano diz:

    Explica, talvez, muita coisa!! E olha que é o autor a dizê-lo, como tradução própria, que percepciona e revela!! Denota, simultaneamente, algum desencanto! Há ali a consciencia do merecimento e do demérito “próprio” pela perda! Não achas!?

  6. Renato Teixeira diz:

    Ele próprio o assume, é um céptico. Mas sim… denota alguma nostalgia da perda embora se assuma como agnóstico. Leve lamentar mais a perda de cultura do que a perda da fé. Mas isto já é uma suposição.

  7. Justiniano diz:

    Olha que lá colocou as duas, lado a lado!! Que diz a tua exegése!!??

  8. Renato Teixeira diz:

    Não faço interpretação de textos bíblicos. O que quer dizer com “colocou as duas lado a lado”?

  9. Justiniano diz:

    Renato,
    Pena!! Mas a exegése, como exercício pós eurístico, não se reduz, como sabes, ao texto bíblico! – “sua fé e a sua cultura “-
    Onde é que tem andado o boa fé!!??

  10. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Só hoje li com atenção a tua entrevista. Excelente trabalho. Parabéns.

  11. Renato Teixeira diz:

    A dica foi tua. Os parabéns terão que necessariamente ser partilhados. Abraço

  12. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Qual quê. Dicas há muitas , entrevistas, com a qualidade desta, muito poucas.
    Abraço

  13. Tiago Silva diz:

    Muito bom, parabéns pelo trabalho! Definitivamente, uma entrevista clarificadora.

  14. Renato Teixeira diz:

    Obrigado pelos elogios. Que a entrevista ajude a que reduza o número de disparates ditos sobre o Médio-Oriente.

  15. Pingback: Tweets that mention cinco dias » Entrevista com Robert Fisk (versão alargada) -- Topsy.com

  16. ezequiel diz:

    trabalho notavel. o carlucci, tem mesmo ar de carlucci e o Soares tem um “ar” muito dubio. parece. o paquistao apoia os talibans porque o o afeganistao é terra de talibans! os organizadores da flotilha…aaah..não sei bem!! são misteriosos!! coisa indecifrável. tudo gente boa.

    uma impressão, apenas. sei lá. quanto ao apoio do paquistao aos talibans pashtun…bem…é sabido que os eua vão “dar” caxemira à India. é isso que se diz por aí.

    lol

    Renato, se isto é jornalismo de investigação eu chamo-me leopoldo …
    se isto pode contribuir para que se reduza o numero de disparates que de dizem sobre o médio oriente!!?????

    mas o fisk tem mesmo ar de Fisk!! a sério. tudo explicado. e o paquistao tem definitivamente ar de Paquistão. análise profunda e sagaz.

    só me dá vontade rir.

  17. Carlos Vidal diz:

    Ora, ora, até que enfim:
    Eis regressado sabe-se lá de onde o nosso preferido sionista, já um pouco enfraquecido por polémicas várias (todas mais ou menos perdidas), agora desancando em Fisk.
    Ei-lo o grande ezequiel, o futuro do jornalismo de investigação, o homem a quem deveria ser entregue a cobertura e a dilucidação do que se passa no Médio Oriente desde há 6 ou 7 décadas.
    Bem-vindo.
    Sempre amigo,
    CV

  18. ezequiel diz:

    Vidal

    ” First there is the problem of simple accuracy. It is difficult to turn a page of The Great War for Civilisation without encountering some basic error. Jesus was born in Bethlehem, not, as Fisk has it, in Jerusalem. The Caliph Ali, the Prophet Mohammed’s cousin and son-in-law, was murdered in the year 661, not in the 8th century. Emir Abdallah became king of Transjordan in 1946, not 1921. The Iraqi monarchy was overthrown in 1958, not 1962; Hajj Amin al-Husseini, the mufti of Jerusalem, was appointed by the British authorities, not elected; Ayatollah Khomeini transferred his exile from Turkey to the holy Shiite city of Najaf not during Saddam Hussein’s rule but fourteen years before Saddam seized power. Security Council resolution 242 was passed in November 1967, not 1968; Anwar Sadat of Egypt signed a peace treaty with Israel in 1979, not 1977, and was assassinated in October 1981, not 1979. Yitzhak Rabin was Minister of Defence, not prime minister, during the first Palestinian intifada, and al-Qaeda was established not in 1998 but a decade earlier. And so on and so forth.”

    http://www.aijac.org.au/review/2006/31-3/biblio31-3.htm

  19. Justiniano diz:

    Caro Vidal
    ““Nós” já perdemos a fé em Deus há muito tempo, e os muçulmanos não aceitam continuar a ser dominados politica, económica e socialmente, por aqueles que nem a sua fé e a sua cultura conseguiram salvaguardar.” – Que tal!?
    Parece-me a ideia mais substantiva da entrevista!!

  20. Renato Teixeira diz:

    Ora Ezequiel, Fisk ajudou. Até a si já o entendo. Dor na consciência por não ter abraçado o regresso à terra santa? Um grande Aliyah para si também.

  21. Pingback: cinco dias » A paz dos cemitérios

  22. Pingback: cinco dias » Hoje e no próximo domingo, às 12h, no Visão Global da Antena 1

  23. Pingback: cinco dias » A “adolescência” do Embaixador José Cutileiro

  24. Pingback: cinco dias » Sabra e Chatila: Um Massacre Revelador

Os comentários estão fechados.