Sobre as “utopias reais” e outros rodriguinhos


Antes de o João Rodrigues me acusar de querer uma conferência do Bloco monolítica controlada por um comité central estalinista, com direito a fuzilamento dos participantes vegetarianos com piercing, e nas vésperas de num futuro próximo ele revelar que sou agente do KGB (R), no seu primeiro post ele aludia à importância das “utopias reais”, explicitando o conceito com uma ligação ao livro “Envisioning real utopias” do Erik Olin Wright. Parece-me um feliz ponto de partida para uma discussão com quem lê este post – O João Rodrigues está à partida excluído, porque acha que só se pode criticar a falta de definição daquilo que é socialismo para o Bloco, quando o blogger que critica tiver produzido doutrina completa sobre a matéria. Aquele crânio não consegue entender que um blogue não é um partido e que um partido que se reclama do socialismo deve definir o que defende. Mas voltando à discussão interessante, Erik Olin Wright constata que a esmagadora maioria das pessoas não acha possível uma alternativa ao capitalismo e defende a necessidade de demonstrar a possibilidade de um conjunto de políticas pontuais alternativas à lógica do capitalismo existente, como forma de melhorar a sociedade – uma espécie de reformas revolucionárias. Tendo apenas lido os capítulos a que o link dá acesso, gostava de escrever uns comentários bastante superficiais.
Não estou convencido que as utopias devam ser reais e que a política apenas deva desejar ser aquilo que as condições do real e a correlação de forças permitem em cada momento. A ideia de utopia real é etimologicamente uma contradição: “utopia” quer dizer “lugar nenhum”, o que naturalmente se opõe a todos os lugares existentes na malfadada realidade. Os fundadores do marxismo contestavam o socialismo utópico reivindicando o carácter “científico” das suas proposições. Sinceramente, acho que utopia irreal se demonstrou muito mais interessante do que eles achavam. Tal como defendeu Benjamin, a história não está escrita. A posssibilidade de conseguir uma alternativa ao capitalismo e à sua lógica de destruição planetária que nos conduzirá a uma catástrofe ecológica é uma ténue hipótese. No entanto, acho que o caminho dessa alternativa passa mais pela construção de uma ideia da possibilidade de uma ruptura global do que de um conjunto de pequenas reformas ou “utopias possíveis”. Um dos princípais passos no sentido de uma emancipação global é recusar os limites do pensável que a ideologia do capitalismo nos impõe.
Citando uma passagem de um livro de Zizek – autor que certamente João Rodrigues queimará no micro-ondas do reformismo – , em que ele defendia a necessidade de combater o papel coercivo da ideologia dominante que nos permite aceitar mais facilmente uma catástrofe global, uma invasão de marcianos do que a superação do capitalismo: “Pode-se afirmar categoricamente a existência da ideologia como matriz geradora que regula a relação entre o visível e o invisível, o imaginável e o inimaginável, bem como as mudanças nessa relação” (in Mapa da Ideologia). Do meu ponto de vista, o erigir de reformas parciais como o alfa e omega de toda a política significa aceitar esses limites. Um verdadeiro partido socialista deve propor medidas que melhorem a vida das pessoas, mas não pode desistir da ideia de uma transformação radical da sociedade. A sua função principal é tornar essa transformação pensável e, como tal, possível.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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