Que fazer? Dizer não? E para quê? Que vai fazer Godard? (E, depois, nós?)

O mais belo e comovente filme de sempre, termina deste modo, com estas palavras:

si un homme
si
un homme
traversait
le paradis
en songe

qu’il reçût une fleur
comme preuve
de son passage
et qu’à son réveil
il trouvât cette fleur
dans ses mains

que dire
alors
j’etais
cet homme

Sim, é assim o final. Depois, nada, nem silêncio.
O final de Histoire(s) du Cinéma, Godard, Jean-Luc Godard, 1998. Nunca vi nada tão imersivo e comovente.
Soube entretanto esta semana que Godard vai receber um importante prémio em Hollywood, um Oscar Honorário pela sua carreira; sim, Godard, o único génio vivo do cinema receberá um prémio de Hollywood; notícia:
«Além de Coppola, que já recebeu cinco Óscares na sua carreira, serão ainda distinguidos com Óscares honorários o realizador francês Jean-Luc Godard, 79 anos, uma das grandes figuras do movimento “Nouvelle Vague”, e que estreou recentemente o filme “Socialisme”».
E logo com Coppola, ironia máxima, um cineasta sofrível, se colocado junto a Godard.

Entretanto, ponho-me agora a pensar: será que Godard vai aceitar este prémio vindo de quem e de onde vem? Será que aceita mesmo? Será que não vai estar presente, mas vai de todo o modo indicar alguém para receber o galardão e aceitá-lo?
Depois digo-me: e porque não?, porque não?
Sim meu Deus, porque não?, neste desolado, vil, triste, desmoralizante e degradante lugar e tempo histórico em que vivemos, neste apagamento planetário onde já nada ou pouco nos resta, ainda valerá a pena dizer “não”?

qu’il reçût une fleur
comme preuve
de son passage

Repitamos. Repitamos.

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