Uma questão de memória

Pelo  João Rodrigues fiquei a saber que a conferência do Bloco sobre o candente tema “Há socialismo sem democracia?” é realizada para alertar os militantes do bloco sobre as derivas do Carlos Vidal. Parece-me muito esforço para tão pouco. Entendamo-nos, determinados conceitos têm precedentes históricos. Em 1975, no Verão da revolução, o PS cunhou o slogan “Socialismo em liberdade” . Pretendia opor-se ao PCP, acusando-o de querer uma nova ditadura. Na prática constituiu a espinha dorsal de uma política que liquidou o caracter socializante das transformações do pós 25 de Abril. Pelos vistos, o privilegiar deste tipo de debates no Socialismo 2010 é uma tentativa de recuperar a argumentação soarista, principalmente, contra o Vidal (garante o João) e acessoriamente contra o PCP, presumo eu. Parece-me ser uma analise do PCP redutora e errada pretender que este partido se opõe em Portugal à democracia. Pelo contrário, a utilização desta terminologia cola o bloco às forças que em 1975 recusaram as transformações sociais e colocaram o “socialismo na gaveta”. A recuperação da ideia subjacente à palavra de ordem do Soares, significa, na prática, dar razão ao 25 de Novembro contra o 25 de Abril. Estranho, portanto, esta retroactiva releitura histórica do PREC, por parte do BE.
O João reduz a minha contestação, dizendo que eu não me preocupe porque vai haver uma conferência sobre impostos e outra sobre especulação. Lamento, mas não creio que numa conferência intitulada Socialismo 2010, sem desmerecer outras conferências, o socialismo na economia, propriamente dito, se reduza a isso.
Não sou militante do BE, mas como apreciador de conferências, acrescento uma crítica mais geral: a totalidade do programa parece carecer de uma tentativa de discutir as questões da actualidade de uma forma articulada. A sucessão das conferência parece ditada pela junção dos particulares interesses académicos dos funcionários do bloco, com a necessidade de discutir alhos com bugalhos com uma forma devidamente pós-moderna, sem esclarecer o que se pretende fazer. O que é uma forma de socialismo ligeiramente empobrecida. Podiam fazer muito melhor. Estou morto de curiosidade para saber qual é a forma de socialismo na economia que defendem e qual a sua articulação com as formas de poder político. Acho que posso esperar sentado.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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13 Respostas a Uma questão de memória

  1. Abílio Rosa diz:

    O «socialismo» que o BE apregoa é tão pueril e inconsequente que até dá vontade de rir em falar nisso.

    Como tema de final de «silly season» é um post e pêras…

  2. augusto diz:

    O socialismo que o Bloco apregoa etc etc etc escreve o Abilio Rosa, apreciador do capitalismo de Estado em vigor em Cuba, na China, e nos paises ditos socialistas que proliferaram na Europa de Leste, até á queda do muro de Berlim.

    Aliás o que está em causa é se pode existir socialismo SEM LIBERDADE, como defendem o Carlos Vidal o Abilio Rosa e restantes simpatizantes do PCP que por aqui escrevem,admiradores do chamado socialismo real , que mais não é do que o capitalismo de estado, ou se socialismo tem de ser uma construido com a participação real do povo e como tal em DEMOCRACIA.

    E isto nada tem a ver com o PS que desde o Soares meteu o socialismo na gaveta.

  3. Ricardo diz:

    na mouche…

  4. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Augusto,
    Gosto tanto do BE como do PCP. Não sou militante de nenhum. Que eu saiba, até à queda do Muro, quem apoiava a China e a Albânia não era o PCP.
    Do ponto de vista marxista a questão não é se pode haver um socialismo sem liberdade, é se pode haver liberdade sem socialismo. Se as pessoas desempregadas, sem acesso aos bens da sociedade, sem possidade de influênciar a sociedade tem a mesma “liberdade” daquele que as exploram?
    Na teoria marxista o Estado não é uma instância independente numa sociedade dividida em classes. A ideia de uma liberdade e de uma democracia sem socialismo significa tomar a ilusão pela realidade. Estamos de acordo que um regime capitalista democrático é infinitamente melhor do que uma ditadura capitalista, mas esta não é a questão. O cerne do problema é que o socialismo e “democracia” (entendida como poder do povo) só se realizam juntas. Qual é a democracia que existe num país em que uns são donos da sociedade e outros são desempregados? Qual é a minha possibilidade de influênciar a sociedade em igualdade de circunstâncias com os grandes grupos económicos?
    Sobre o socialismo, até mesmo o PCP criticou em congressos posteriores à queda do muro, um conjunto de limitações à democracia e à liberdade que os regimes do socialismo real tinham e que contribuiram para a sua queda

  5. Carolina diz:

    “Estou morto de curiosidade para saber qual é a forma de socialismo na economia que defendem e qual a sua articulação com as formas de poder político. Acho que posso esperar sentado.”

    – – – –
    Já agora, faço a sua pergunta ao PCP e a si?
    Eu também acho que posso esperar sentada.

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Augusto,
    Gosto tanto do BE como do PCP. Não sou militante de nenhum. Que eu saiba, até à queda do Muro, quem apoiava a China e a Albânia não era o PCP.
    Do ponto de vista marxista a questão não é se pode haver um socialismo sem liberdade, é se pode haver liberdade sem socialismo. Se as pessoas desempregadas, sem acesso aos bens da sociedade, sem possidade de influênciar a sociedade tem a mesma “liberdade” daquele que as exploram?
    Na teoria marxista o Estado não é uma instância independente numa sociedade dividida em classes. A ideia de uma liberdade e de uma democracia sem socialismo significa tomar a ilusão pela realidade. Estamos de acordo que um regime capitalista democrático é infinitamente melhor do que uma ditadura capitalista, mas esta não é a questão. O cerne do problema é que o socialismo e “democracia” (entendida como poder do povo) só se realizam juntas. Qual é a democracia que existe num país em que uns são donos da sociedade e outros são desempregados? Qual é a minha possibilidade de influênciar a sociedade em igualdade de circunstâncias com os grandes grupos económicos?
    Sobre o socialismo, até mesmo o PCP criticou em congressos posteriores à queda do muro, um conjunto de limitações à democracia e à liberdade que os regimes do socialismo real tinham e que contribuiram para a sua queda.
    Parece-me, portanto, que o debate em questão é inutil. Nenhum país pode ser chamado socialista se a população não tiver instrumentos democráticos de poder e liberdade.
    Apesar de tudo, fico feliz que me diga que o debate faz-se por causa do Vidal e dos leitores do 5 dias. Parece-me exagerado, mas o BE saberá o tempo que tem a perder com meia duzia de votos. Falando seriamente, há mais vida depois das eleições, e haveria um conjunto de questões sobre o socialismo bem mais interessantes. Sem menorizar a contribuição da malta do 5 dias, que a propósito, tem gente que participa no Socialismo 2010, como o Paulo Jorge Vieira.

  7. Antónimo diz:

    Nunca se discute o socialismo que se tentou implementar em estados de cultura mais ou menos liberal (leia-se democrática burguesa e constitucional ao estilo do século xix) como a Espanha ou o Chile. Não por acaso (veja-se o mais recente caso das Honduras) acabaram como acabaram.

    Fica-se sempre agarrado aó que se passou em estados secularmente autocráticos como a Rússia ou a China (e que independentemente de quem por lá mandou nunca deixaram de ser tirânicos, em maior ou menor grau).

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Carolina,
    Nota prévia, tente ler o que eu escrevi sem inventar o que eu sou. Até pq se engana, não sou do PCP. Fui, tal como fui dirigente do BE.
    Segundo, se eu tivesse resposta para a questão da forma económica do socialismo e da sua conjugação com as formas políticas, não precisava de insistir em debates sobre essa matéria.
    Terceiro, a minha crítica é exactamente essa, faz-se o debate do fácil em prejuízo do difícil.

  9. Pingback: cinco dias » Dois reparos rápidos ao post em baixo do João Torgal, sobre o “voto em branco”, Francisco Lopes e o PCP

  10. CausasPerdidas diz:

    “Há Socialismo sem Democracia?” Não é uma pergunta desprezável, sem entermos Democracia pelo exercício dos direitos… democráticos. Colocar a questão em debate não conduz a qualquer cedência à velha consigna do PS do “Socialismo em Liberdade”. Aliás, como bem sabe o Nuno Ramos de Almeida, no tempo em que a palavra de ordem soarista foi agitada toda a gente era pelo “socialismo”, até o PSD – lembre-se de quantos deputados votaram contra o constitucional “Rumo ao Socialismo” de 1976. O “Socialismo em Liberdade” foi o prelúdio do “Socialismo na Gaveta”, e a gaveta a antecâmara da rendição da Social-democracia ao liberalismo, com contornos “sociais”, claro está. Ontem como hoje o “social” serviu para enganar aqueles que recusando o pesadelo burocrático do leste europeu pretendiam “Justiça Social” (outro termo reformista que entrou em desuso…).
    De qualquer forma, a pergunta que relaciona o Socialismo com a Democracia só faz sentido tendo em atenção que a experiência real das pessoas (mesmo descontando as campanhas da imprensa burguesa) é de que os regimes “socialistas” não respeitam os direitos democráticos mais elementares que a mobilização social conquistou no Ocidente, como direito de expressão e de reunião.
    No aspecto dos direitos democráticos, se o Socialismo não é melhor que o mais democrático regime burguês, não é Socialismo, é uma caricatura de socialismo.
    Sim, o Socialismo é Democracia, uma democracia assente noutro tipo de Legalidade. Uma legalidade que é contra a Exploração e que implementa e protege a Propriedade Pública e o interesse colectivo – na Saúde, na Educação, etc. O Socialismo não se constrói sem democracia, sem a capacidade de o corrigir.
    Depois das experiências vividas pelas sociedade de transição que vieram a regredir socialmente, há ainda outras lições a tirar para além do “pormenor” dos direitos democráticos: o socialismo é ecológico, feminista, antiracista, anti-homofóbico ou não é socialismo.
    O BE tem a liberdade de colocar as perguntas que entender, de ouvir as mais diversas opiniões e experiências sobre o Socialismo. Todavia, até no intuito de uma construção programática, para mim a pergunta correcta seria: “Como é o Socialismo que nós queremos?”
    O mais fácil de tudo seria fazer um resumo dos clássicos, fazer um programa e acreditar no determinismo histórico. A memória é importante, de Spartacus à Comuna de Paris, do anarco-sindicalismo ao partido político operário, da Revolução Russa à República Espanhola, mas houve e há muita coisa pelo meio para aprender, discutir e rediscutir.
    Lenine dançou de contentamento nos jardins do Palácio de Inverno quando a “sua” Revolução de Outubro sobreviveu mais um dia que a tragicamente esmagada Comuna de Paris… “Aprender, aprender sempre”, escreveu. Uma das últimas preocupações que manifestou foi acerca da burocracia e à falta de democracia que esta conduzia.

    Cumps.

  11. Abilio Rosa diz:

    Realmente prefiro o «socialismo real» ao «socialismo virtual» da rapaziada do BE.

    É vê-los com os seus ipods, notebooks e blacberrys a proselitar no socialismo nas estâncias de veraneio e nalgumas «central station»…

    Socialismo só com foice e martelo!

    «Socialismo», diz o Augusto….

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