O Xico faz falta

Não sou dado a entusiasmos iniciais de primeira ordem, nem a comentários a quente, mas passadas que estão as primeiras 24 horas (quase 48 que desde que comecei a escrever esta posta, o meu primogénito decidiu fazer uma birra monumental) sobre a candidatura do Francisco Lopes à Presidência da Republica, creio que já é possivel fazer uma primeira avaliação da cassete que já começou a rodar: o Xico é ortodoxo (eu por acaso até pensava que era ateu, mas os mass media não se cansam de classificá-lo como crente nesta corrente do cristianismo, por isso quem sou eu para desmentir), o Xico é um puro (não sei se esta designação se refere aos habanos ou se à sua castidade), o Xico é um duro (cowboy comunista?), além de, claro como alguns imbecis referem, o Xico é um carreirista (grande carreira esta a de funcionário do PCP e seus privilégios) ou o desagradável “marionete” do meu companheiro de tasca.

Estes são os principais “mimos” com que o Francisco Lopes se viu brindado nas suas primeiras 24 horas de candidato, a que podíamos acrescentar o “cinzentismo” ou o “discurso robótico”. (Incrivel como expressões quase coincidentes têm sido usadas para classificar quase todos os candidatos ao que quer que seja do PC)

O que era bom era que o candidato do PCP (e é bom não esquecer este facto, como muito bem lembra o Tiago) fosse um “dê-erre” como o Octávio Teixeira ou então um militante de base com forte protagonismo social como o Carvalho da Silva, se nem fosse do PCP, melhor ainda – parece ser o que se apregoa por aí.

O Publico, no seu editorial de ontem proclama, certamente sem se aperceber do enorme elogio que fazem ao PCP, que “os comunistas insistem em participar como um colectivo no mais personalizado acto eleitoral da nossa vida política.” e continua o mesmo editorial “apresentam-se como uma parede de betão que escolhe cada um dos seus para o representar”

Ora, e realmente, por uma das primeiras vezes que me recordo, sou obrigado a concordar (parcialmente) com o editorial deste jornal (cada vez mais) neo-con: o betão realmente é um material popular e extremamente contemporâneo, sendo, por ventura, um dos materiais de construção que revela maior heterogeneidade na sua composição e maior homogeneidade no desempenho da sua função de resistência. Excelente metáfora do que é e deverá ser o PCP. A insistência, esta tão retrógada insistência, convicção de que os interesses e a vontade de um colectivo deve sobrepôr-se à do individuo, esta (irritante) insistência em não acreditar em Homens providenciais, em não descartar responsabilidades e tomadas de posição históricas quer seja pela mudança de líder quer seja pela mudança de nome. Retrógrado como sempre, este PCP que prefere a vontade de 1000 homens à vontade de um génio inspirado…

Bem sei, que os editores do Publico se queriam referir ao imobilismo e à falta de transparência- com uma alusão mal esgalhada ao livro de Alvaro Cunhal- mas parece-me muito mais imóvel, mais anti-democrático, menos participado, mais totalizadores os processos de escolha do candidato do PS e do Bloco (não nos esqueçamos de um histrionico Louçã a comprometer a sua direcção sem a consultar antes), sem sequer falar do candidato da direita que anunciará em breve ao seu rebanho a sua disponibilidade para enfrentar os desafios do País (esperemos que os netinhos de Cavaco não o chateiem muito durante a campanha, senão não a poderá fazer…).

Independentemente do posicionamento pessoal sobre o Xico, este assume-se perante os eleitores como um sinal da possibilidade da mudança na forma de fazer politica. Uma politica feita pelos “de baixo” (pela sua natureza de classe), uma politica feita pela valorização do trabalho em detrimento da agenda mediática, uma politica de colectivos, das muitas vozes, de discussão e rectificação, de acertos e de erros assumidos colectivamente em detrimento da responsabilização do lider e a desresponsabilização do rebanho.

No meio de muitos egos inchados como um zeppelin, o Xico, um homem que diz e pensa mais NÓS que EU faz falta e tenho pena que não haja mais como ele nesta próxima campanha…

PS: não coloco uma foto do Xico, senão o Guedes chateia-se comigo…

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37 Responses to O Xico faz falta

  1. Pedro Pousada diz:

    Caro Rafael as tuas palavras estão cheias de verdade, inundadas, repletas, apenas acentuo que o jornal público há muitos aninhos que é neo-con, desde os tempos do saudoso belicista josé manuel fernandes propagandista das guerras (des)humanitárias. A cassete anti-pc está sempre em serviço, não vale a pena esperar melhor dessa gentinha que cultiva o intriguismo e o oportunismo como sinais de liderança.

  2. Carlos Guedes diz:

    A birra do teu primogénito é premonitória! Nem ele ficou satisfeito com a escolha do Xico!
    E fotos do mesmo só serão admitidas na próxima semana. Desde que sejam diferentes umas das outras!
    😀

  3. LMR diz:

    Isso do carreirismo é possível, para um dado tipo de gente, em qualquer lado. E no PCP os objectivos não serão as promoções ou o dinheiro, mas sim mais e mais poderzinhos, satisfazer mais e mais ambições pessoais.
    Quanto ao discurso do candidato, se a falta de naturalidade deve ser inata, ao menos aconselhem-no, ajudem-no a transmitir a mensagem com um pouco de eficácia. Não recordar um só livro lido recentemente resolvia-se com um poucochinho de preparação; só por exemplo.
    Isso dos “de baixo” também é engraçado; afinal quantos meses foi o “Xico” operário? E é mesmo verdade que poucos o vêem na Festa (ao contrário do que sempre foi apanágio do Jerónimo) de ferramentas em punho a exercer a sua profissão (que faz falta, para evitar tanto apagão)?
    Certo certo é que ainda há uma semana dizia um amigo meu, militante há décadas: se eles mandam para lá o Lopes, pela primeira vez não voto num candidato do Partido. Eu, por mim, estava aberto a votar em muita gente vinda de lá, mas não neste cromo.

  4. João Pais diz:

    Melhor seria dificil. Parabens pela lucidez.

  5. LMR diz:

    A bem da verdade, o “Xico” é tão “dê-erre” quanto o Alegre. E teve uma vida tão ligada ao mundo real quanto este. De estudante no ensino superior para a política.
    Ou talvez não – acho que lhe faltou o serviço militar, o desporto e a obra literária assim-assim; de resto, é um político profissional como Alegre. Só isso.

  6. Abilio Rosa diz:

    Ainda hoje vi e ouvi a excelente prestação televisiva do camarada Francisco Lopes, e este ao pé dos cromos já conhecidos, leva uma vantagem monumental.

    Directo. Frontal. Sincero. Autêntico. Nada a esconder.
    É candidato do Partido Comunista. É um operário.
    Não é candidato dos poderes ocultos. Da Máfia financeira. Da Maçonoraia. Da Opus Dei ou da Fundação Soares.

    Francisco Lopes tem juventude e determinação, ao contrário doa Alegres, Cavacos, Mouras, Nobres e quejandos, que deviam já ter tirado a respectiva senha para um lar da 3ª idade.

    Francisco Lopes é futuro. Os outros são passado. E um passado bem pouco interessante.

  7. LMR diz:

    Mais uma vez: Francisco Lopes é político profissional há 36 anos.
    Celebremos a juventude, rejubilemos com este arauto do futuro!

  8. António Figueira diz:

    Boa malha, Rafael.

  9. nunocastro diz:

    é o que dá perceber mais de betão do que de processos sociais.

    o que, sinceramente, e sem um pingo de ironia, me faz uma confusão danada é a catadupa de argumentos a defender a avançada colectiva vinda de militantes de um partido que durante anos (décadas) viveu à sombra de um nome: Cunhal.

    e não importa se o funcionamento interno era participado (que até era) ou se o espírito do colectivo imperava nas bases (continua até certo ponto a fazê-lo). Importa sim que durante décadas o PCP viveu sobre os auspícios da inteligência, imagem, força e convicção de Cunhal.

    e isso meus caros, dêem as voltas que quiserem à vossa cartilha do colectivo, nunca mais foi substituído. Talvez tenuamente pelo Jerónimo, com uma implantação no eleitorado diferente.

  10. João Valente Aguiar diz:

    LMR,

    Teria coragem de dar uma conferência num departamento de Sociologia em qualquer parte do mundo sobre a sua tese de que a origem de classe de um operário não conta nada para a formação da subjectividade de um agente social? Ia apanhar coça da grossa e com razão. Ou então tb poderia ir a um departamento de Psicologia dizer que essa coisa da socialização primária e secundária, tanto em contextos familiares, conviviais e de trabalho não contam para nada para a formação de um indivíduo.

    Você é capaz de dizer que um tipo de origem operária rompe absolutamente com o contexto em nasceu, foi criado, fez amigos e trabalhou, nem que seja por uns breves anos? Você sabe por acaso o que são alguns anos de trabalho numa fábrica? Aquilo forma a subjectividade das pessoas de uma forma que você nunca compreenderá. E não estou a falar apenas de operários comunistas. O universo operário é algo que lhe é inalcançável. E quando esse universo operário tem dinâmicas de solidariedade (sindical, comissões de trabalhadores, etc.) um só mês de luta e de participação militante que seja marcam, ou mudam mesmo, um indivíduo. Que fará quando se nasce e se vive imerso nesse contexto.

  11. joão vilaça diz:

    Rafael,
    (cruzando este post com a sua resposta ao Luis Rainha no vias de facto)
    a defesa que faz desta candidatura centra-se basicamente em dois argumentos, um pouco contraditórios entre si: a valorização do percurso e personalidade de Francisco Lopes e, por outro lado, a desvalorização da importância do “candidato” em si mesmo (ou seja, é igual ao litro se é o FL ou outro militante qualquer, o que importa é o colectivo. No entanto, o que me parece importante é fazer notar que a minha opinião, negativa, em relação a este candidato (e de muitas outras pessoas que conheço) não se baseiam em preconceitos de classe (é “operário” – o que nem sequer é verdade, como todos sabemos) ou de desconsideração intelectual (é-me indiferente se ele é ou não licenciado). O que me interessa é que não haverá ninguém para além dos funcionários do PCP que considerará FL politicamente relevante (ou que sequer saiba quem FL), e que quando alguém com esse perfil é nomeado para ser o candidato a uma eleição presidencial (num partido que começou por desvalorizar as eleições e o aspecto institucional da sua intervenção mas que desde há muitos sobrevive através dele) isso constitui um sintoma do processo de auto-enclausuramento do partido em si próprio e revela uma falta de lucidez e audácia estratégica fulminante por parte da comissão política, ou do comité central. Ou não- porque como sabemos a escolha do candidato corresponde a uma orientação muito bem definida, que sinceramente não percebi ainda qual seja. De qualquer forma, já não tenho paciência para aturar as acusações de cassete, neo-con para baixo, a alguém que queira, ainda que em voz muito baixa, fazer uma crítica a uma qualquer decisão do PC:
    Do Rafael, que diz ter uma posição crítica interna e externamente (em relação ao partido, creio eu) assumida e aberta espero uma resposta a uma questão apenas: se acha que FL, integrado num colectivo partidário, é, com as suas características pessoais e num contexto tão específico como este (em que se abriu um espaço vazio importante à esquerda), capaz de cumprir os objectivos do partido e da esquerda? E, já agora, porquê? – sem recorrer ao discurso burocrático e à citação de comunicados e conferências de imprensa do PC. Eu acho, enquanto mero simpatizante e votante do PC, que não e suspeito que as urnas vão provar que esta foi uma decisão errada e com consequências para o partido.

  12. Rafael Fortes diz:

    Caro Joao, aquando da eleiçao de Jeronimo de Sousa para secretario geral do PCP, manifestei as minhas reservas em reunioes e em particular com vários camaradas, pouco interessava se eram da Comissao Politica ou da Comissao Concelhia.

    Estas reservas que tinha inicialmente foram claramente destruidas pela dinâmica que vejo ter o Partido nos ultimos anos. Esta dinamica com o rejuvenescimento da direcçao e dos candidatos às várias eleiçoes e a rotaçao de quadros por várias responsabilidades tem acertado de forma crescente no sentir dos seus militantes. E é necessário nao esquecer uma coisa. O PCP é um partido dos seus militantes. Nao há uma direcçao separada ou que se opoem à vontade dos militantes. E essa ligaçao entre a direcçao e toda a massa militante é constante e directa e sistemica.

    Em 2º lugar, eu nao sou funcionario do PCP e vejo bem a candidatura do Francisco Lopes, e nao percebo que tipo de critica ao PC constitui a caracterizaçao do desconhecido Xico Lopes: é puro (porquê? é uma critica à sua defesa intransigente do marxismo-leninismo? da economia planifiicada? nao gosta dos chineses? gosta dos chineses?), um ortodoxo (em quê? alinha sempre pela direcçao? anda sempre a trocar de ideias pelas ideias dos outros, sem as defender? é isso? impoe as suas ideias? nao sei. expliquem-me por favor o que é essa porra do ortodoxo…) e bem, o carreirismo deste gajo que deve receber uns 800 euros, pá, fantástico

    Se é este o candidato da esquerda? de toda a esquerda? nao. nao acho. mas acho que se os principios que norteiam a escolha do Xico tivessem norteado a escolha e os apoios dos outros candidatos teríamos umas presidenciais (e uma esquerda) bem mais interessantes e comprometidas…

  13. João Pais diz:

    LMR: mesmo que tudo isso fosse verdade (e está longe de o ser) o candidato do PCP é bom tão simplesmente por isso, é o do PCP. Se é um candidato forte para o circo da politica espectaculo? Veremos! Quando foi para Secretario-Geral o Jeronimo de Sousa também era “um bruto”, “um duro”, “um desligado da vida” e tantas outras coisas… e agora aqui estas tu quase a defendê-lo.

    Adorei as tuas barbaridades, mas confesso que a que mais me emocionou foi a da construção da Festa do Avante! Que sabes tu de quem lá vai mais ou menos? Estás a porta a fazer contabilidade das horas de trabalho do pessoal? LOL!!!

    Se ainda te sobrar alguma calúnia infundada ou algum um bocado de preconceito de que não tenhas feito uso manda a vir porque é sempre bom para um gajo se rir um bocado.

    Já agora, o teu Alegre até pode ser o melhor homem do mundo, mas nunca será mais do que um executante de mais do mesmo e, nessa medida, vale tanto como os seus comparsas que levam o país para “a frente”…

  14. rita diz:

    A frase do vilaça, “processo de auto-enclausuramento do partido em si próprio” é uma verdadeira pérola semântica. Eehehe

  15. Vicente de Lisboa diz:

    Ao contrário de todos os comentadores e jornalistas do país, não conheço o Cidadão Francisco Lopes pessoalmente desde há 70 anos, pelo que não posso opinar de forma alguma, contra ou a favor do mesmo.

    Mas uma coisa nesta posta cheirou mal. Então o PCP não é dado a homens providenciais? O Partido *Marxista-Leninista* que durante décadas adorou o Zé dos Bigodes, e dependeu do Cunhal? O Partido onde toda a Juventude usa t-shirts do Ché?

    Sejam autênticos I say – mas não pratiquem a auto-ilusão, que não vos fica nada bem.

  16. Justiniano diz:

    Sim, caro Rafael Fortes, compreendo! Toda a grande virtude do PCP! Mas, então, e o Xico!!??
    Tenho por seguro que o PCP acode à actual constituição, e naquele tocante como co autor, e convenho que ao atribuir ao órgão Presidente da República a elevada função de reserva da virtude republicana (acima de outras funções), na unipessoalidade do órgão, sabia que não seria um homem de mil homens mas apenas e simplesmente um homem, indivíduo, de virtude, certamente, e prudencia e justeza de espírito!! Ora nada destas qualidades Vcmcê avença ao homem. Não terão relevancia quando se presume que leva com ele a prudencia das escrituras por fiança do partido!!?

    Caríssimo Valente de Aguiar, mas nesse sentido quem não será operário!!??

  17. Rafael Fortes diz:

    Vicente, dizer q o pcp é dado a homens providenciais tem o mesmo sentido que dizer q socrates é de esquerda…já agora tem de me mandar essa foto com todos os jovens alinhados envergando a t-shirt do che, gostaria imenso de vê-la…

  18. Miguel diz:

    Há quem tenha visto o Vicente Lisboa, com uma t-shirt do Adolph Hitler. Caramba, Vicente. Tenha juízo!

  19. João Valente Aguiar diz:

    Justiniano,

    eu não disse que a socialização ou a origem de classe são apenas transversais ao operariado.
    O que define o operário é a sua localização nas relações de produção, a sua condição de desapossado dos meios de produção, o ter apenas a sua força de trabalho como meio de sobrevivência, etc. Contudo, no plano extra-económico cada classe social tem universos de sociabilidade relativamente específicos. Não é preciso ser-se marxista para se saber isso (Bourdieu, etc.). Foi esse universo sociabilitário – de raiz operária – que moldou o Francisco Lopes, o Jerónimo, etc. Um intelectual adoptar a posição do operariado é uma coisa (claro que mto louvável e que deve regojizar qualquer comunista), como o Álvaro Cunhal, o Lénine ou o Marx. Mas a vida prática que marca literalmente o corpo e a linguagem no meio operário confere dinâmicas próprias a alguém que cresceu nesse universo social e cultural.

    P.S. foi você que, neste espaço a propósito de um texto meu sobre o Levantado do Chão do Saramago, me perguntou onde arranjei dados da Reforma Agrária?

  20. Justiniano diz:

    Caríssimo Valente Aguiar, sim, fui eu, num outro post, creio que do A. Levy!!

    O que lhe quis dizer, aqui, no meu anterior comentário é que exactamente essa dimensão é muito mais transversal e comum doque a que a que fazia entender a propósito do Francisco Lopes (onde a entendi demasiado redutora), daí o meu – “quem não é” e não o “quem é”
    Um bem haja,

  21. Justiniano diz:

    Caríssimo Pedro Pousada, apenas um pormenor, a bem da verdade!!
    O Público ou o JMF nada têm de anti-PC, pouco se lhes lê de anti-PC, aliás, pouco se lhes lê que se relacione com o PCP, sequer!!
    Desconsideram sim, o PCP, não vêm o PCP, abstraem do PCP! Muito pelo contrário daquilo que nos diz!! O grande opositor daqueles, sim, é a subversão do discurso liberal!!

  22. LMR diz:

    Luís Valente Aguiar, respondo-lhe com 2 palavras apenas: Tomás Taveira.

  23. LMR diz:

    João Pais,
    Duas precisões: nunca chamei “bruto” nem coisa que o valha ao Jerónimo. Parece-me, mesmo não o conhecendo pessoalmente e dele discordando em muita coisa, pessoa genuína, empenhada e generosa. O “Xico” não me transmite de todo essa ideia. Depois, o Alegre não é “meu” nem coisa que se pareça: antes votava no Cavaco do que naquele saco de vento pomposo.
    Enviar para uma eleição pessoalizada um representante do colectivo apenas porque é do colectivo parece-me estratégia suicidária. Na noite da eleição, isto vai confirmar-se – por muitas culpas que atirem para os media, as sondagens e sei lá mais o quê.

  24. nunocastro diz:

    com todo respeito que me merece o Bourdieu, está explicado por que razão o meu pai ficou como ficou: foram aqueles dois anos de operariado que lhe moldaram o corpo e alma – dos 16 aos 18.

    que depois como gestor de empresas isso pouco se tenha notado e que tenha ficado um racista conservador da pior espécie, deverei descontá-lo à falibilidade das teorias habituais do “habitus”.

    como é que alguém pode achar, nos dias que correm, que ter sido operário em tenros anos da juventude o marca indelével e ontologicamente para o resto da vida?

    e como é alguém ainda sustenta que um operário é um “desaposado dos meios de produção”. Não deve ter ido a muitas fábricas ultimamente… Mais desaposados dos meios de produção e de qualquer saber específico são sem dúvida nenhuma os milhões de empregos desqualificados que vão desde lojistas, caixas de supermercado até a picas do combóio… a lista seria exaustiva. Ao lado de muitos operários, claro que sim; mas não, de maneira nenhuma, o operário enquanto sujeito da despossessão capitalista. Balelas.

    é por isso é que os Xicos e estas tretas não me convencem minimamente. Não perceberam que o Marx precisava de ser ajustado aos dias d’hoje. Doença que grande parte do pessoal do pcp sofre.

    Para quando um candidato caixa do Continente?

  25. joão vilaça diz:

    Caro Rafael,
    agradeço-lhe a franqueza da resposta mas lamento que, neste assunto, tenhamos posições tão discordantes.
    Se é verdade que a nomeação de Jerónimo de Sousa gerou uma empatia com pessoas que não tinham antes nenhuma vinculação ideológica com o PCP, e que tenha criado também uma nova dinâmica interna de participação e militância, através também da promoção de novos quadros e do rejuvenescimento da direcção e dos representantes institucionais na AR e no PE, também me parece que a vitória dentro do PC desta linha politica teve consequencias negativas. Desde logo eleitorais, com a ascensão de uma outra força política de esquerda, ocupando um lugar que supostamente estaria vazio e que o PC nunca conseguiu atingir (e creio que à custa de decisões como esta, mas é só a minha opinião), mas também ao nível do discurso, da acção política e de reflexão crítica e teórica. Basta ler o Avante para constatar o primarismo, às vezes quase caricatural, das análises, opiniões e posições políticas que lá se publicam – a título de exemplo recomendo-lhe a leitura de um artigo inacreditável de um jornalista chamado Hugo Janeiro sobre a história de agressões do “imperialismo” à Coreia do Norte, que coloca em evidência não só a indulgência (para dizer o mínimo) intelectual do seu autor mas também uma ambiguidade editorial (e consequentemente das posições políticas do próprio partido) que se torna, por vezes, incomodativa (neste caso o artigo aparece como uma defesa dissimulada do regime grotesco da Corei do Norte). Mas esta seria uma outra discussão.
    Sobre a candidatura do Francisco Lopes, noto que o Rafael não respondeu à minha pergunta e de resto tenho só uma ou duas coisas a acrescentar. A primeira é que não usei nenhum adjectivo sobre os quais se pronuncou na sua resposta e, neste contexto, essa nem me parece ser a discussão mais importante; mas posso desde já dizer que a interpretação literal que FL parece fazer da linha oficial do partido (e dái a caracterização de ortodoxo) e o seu discurso hermético me sao politicamente muito pouco simpáticos (e na sua dimensão pessoal, que pouco vale, FL diz-me tão pouco como na sua dimensão política: antipático, pouco comunicativo, monocórdico e com perfil de controleiro). A segunda tem a ver com as razões por detrás desta opção. FL não é, como alguns dizem, um rmero representante do colectivo, a prova de que “qualquer um” pode ser candidato no PC, muito pelo contrário: apesar do seu low profile, ele é uma das pessoas com maior poder no partido (com Jerónimo de Sousa e Jorge Cordeiro, provavelmente) e, portanto, um dos seus dirigentes mais importantes, pelo que o argumento da igualdade se torna dificil de aceitar. A sua candidatura parece ser, pela características de FL, uma tomada de posição para dentro e não para fora do partido decidida apenas em função de equilírios internos, dando a impressão que a direcção do PC foi insensível aos objectivos eleitorais e de combate político do partido nesta eleição. Se a opção tivesse privilegiado o combate político e a estratégia de afirmação mais ampla do PC, haveria muitos e bons quadros disponíveis para uma candidatura que nao comprometesse a linha ideológica desta direcção: Jerónimo, Octávio Teixeira, Ruben de Carvalho, António Filipe (este seria menos acertado, na minha opinião), entre outros, pessoas com percursos distintivos, com reconhecimento, com capacidade para comunicar ideias para alem das fronteiras do seu partido e ainda assim clarificar posições neste contexto eleitoral. Não o sendo e assumindo que apenas se queria falar para o partido, escolheu-se alguém como muito poder na hierarquia e na burocracia partidária, sendo, aí sim, indiferente se esse candidato consegue cumprir objectivos eleitorais ou não, perdendo-se uma oportunidade de afirmação convergente na medida do possível da esquerda em torno de uma candidatura comunista. Com Francisco Lopes pretende-se deliberadamente, parece-me, apenas uma candidatura de trincheira que abre um período de reorganização dos poderes dentro do partido. O que é nada para um simpatizante como eu, e muito pouco para um militante.
    Cumprimentos.

  26. Diamantino Carvalho diz:

    Embora parece uma factor lateral, não é. Para quem conhece uma pouco da importância da “imagem”, como elemento identificador, e de simpatia para com as pessoas, sabe bem a que me refiro.
    De facto não gosto muito que se fale num acto de grande importância como a apresentação de um candidato à Presidência, no “Chico”. Que o secretário geral do PCP, fale do Chico, com a linguagem ligeira que se usa em lugares menos formais, e na amizade e camaradagem de militantes, tudo bem, mas não perante o potencial eleitorado. O “Chico”, não pode ser vulgarizado, só porque é um candidato do povo. Os candidatos do PCP, devem ser tratados como todos os outros dignificando, dando-lhes respeito e importância que merecem.
    Temos de aprender de uma vez por todos, que não é por vestirmos descuidadamente, ou tratarmos o Francisco, por Chico, que fazemos com que o povo o entenda melhor. Habitue-mo-nos, de uma vez por todas, que esse mesmo povo que defendemos, está habituado, e não mudará, só porque queremos, a ajuizar as pessoas que exercem determinados cargos, para além das ideias que defendem, pela sua forma de estar ao nível do cargo que exercem.
    Que eu saiba, o secretário geral não vai ter reuniões como Primeiro Ministro, ou Presidente da República de calções. Portanto deixem-nos de Chicos e Manéis e sejamos exigentes.

  27. João Valente Aguiar diz:

    Justiniano,

    os dados são retirados do livro “Uma Revolução na Revolução” organizado por António Murteira e editado, penso que em 2004, pela Campo das Letras e pela Câmara Municipal de Montemor-o-Novo. Os dados ali coligidos representam estatísticas do Ministério da Agricultura e das Pescas e Conferências da Reforma Agrária.

    Cumprimentos

  28. João Valente Aguiar diz:

    LMR,

    elogio-lhe a capacidade de responder de um modo tão acertivo e genial. Com duas palavras conseguiu resolver as regras e excepções das problemáticas da origem de classe, socialização primária e secundária e da formação da subjectividade operária. Bravo!! Tantos tratados e vastíssimos estudos empíricos deitados ao lixo de uma penada… Duplamente bravo!! LMR a catedrático de Ciências Sociais, já!!

  29. LMR diz:

    JVA,
    Duas palavras que, estou em crer, você nem percebeu. Mas eu explico, que também li Bourdieu: a sua confiança no poder transmigrador de uns meses passados a bulir numa fábrica (se é que o “Xico” lá gastou tanto tempo) é, quando aplicada a casos individuais, simplesmente pueril e acientífica.
    Não é por invocar um tal “universo sociabilitário” (que quer esta palvra dizer?) ou achar que um operário é definido pela “sua condição de desapossado dos meios de produção, o ter apenas a sua força de trabalho como meio de sobrevivência” (dois anacronismos mal empregues) que não começa a dar à candidatura do “Xico” o tal perfil de classe. O homem é político profissional há 36 anos. Também não sei como saberá que “universo operário é algo que lhe é inalcançável”; por acaso, até sobrevivi graças ao trabalho braçal durante um ano… e olhe para mim agora, um capitalista reaça e impenitente.
    Ponha lá os olhos no arquitecto Taveira, ele sim um ex-operário e veja como o tal “universo sociabilitário” o moldou indelevelmente. Aprenda: as “influências” não são tudo nem bastam para definir um indivíduo.

  30. LMR diz:

    E olhe que tive a caridade de nem o molestar por isso do “acertivo”.

  31. João Pais diz:

    LMR,
    obrigado pela sua resposta. Deixou claro que o mundo político de hoje está rendido ao espectáculo. Por mais queira dizer que “estas são diferentes”, todas as eleições são pessoalizadas, porque os candidatos são iminentmente pessoas (embora alguns pareçam mais um qualquer outro genero de animal). A diferença é que nas outras e nestas há um colectivo que responde por quem é apresentado na lista.
    De caminho mais uma saudação ao “não venham dizer que é pelas sondagens e comunicação social”, é tão bom coagir os outros a não usar argumentos mesmo que eles provenham da análise da realidade!
    Da próxima vez que passar a estrada com sinal vermelho para o peão e for atropelado, acuse o condutor de locura, e não venha dizer que a culpa é de ter passado fora de tempo porque já estamos cansados da cassette.

  32. LMR diz:

    Acha portanto que me rendi ao “espectáculo” porque esperava mais do candidato do que aquela pífia entrevista. OK. Manias minhas de querer um candidato que demonstrasse maior cultura humanística, calor humano ou espontaneidade do que a cavacal múmia que já lá temos.
    Escolham lá o candidato que tem algo a demonstrar internamente e ignorem a minha disponibilidade para vos apoiar mais uma vez com o meu voto. OK.
    Quanto ao resto, folgo em ver que já andam a pesquisar desculpas.

  33. João Valente Aguiar diz:

    LMR,

    Isto é estar a falar para a parede. Ninguém diz que não há excepções à regra, mas pronto. Você lá sabe. Volte lá para o eixo JN-MSP do antro de facto.

    Só para acabar e pegando na moléstia do “acertivo”, erro meu e que você aproveitou para se armar em professorzinho. Diz você «“universo sociabilitário” (que quer ESTA palvra dizer?)» [sublinhado meu]. Ora, não serão antes DUAS palavras? Se quiser eu posso contactar uma amiga professora primária para lhe ensinar a contar 🙂 Vai ver que numas semanitas tudo fica resolvido. Dizem que é fácil e até se aprende a ter modos e tudo. Por exemplo, a olhar para as cuecas borradas de caca antes de gozar com o puto da frente que fez umas pingas de xixi nas cuecas.

  34. Pingback: O candidato do PCP « Praça do Bocage

  35. LMR diz:

    JVA,
    Continua sem perceber coisa alguma: não há aqui qualquer regra a aplicar, não quanto a indivíduos.
    E aprenda: quando se referem duas entidades, é norma referir-se à primeira, por ordem de nomeação, com “aquela” e à segunda como “esta”. Mas já vi que teria, para comunicar com mentes mais simples, de escrever “esta última”. OK.
    Já agora, que é isso do “sociabilitário”, afinal?

  36. João Valente Aguiar diz:

    LMR,

    com (bastante) atraso aqui vai:

    «uma rede de auxílio e confiança mútuos, em grande parte independente da lei. Nas oficinas, os homens sabiam que mesmo os doentes e os idosos tinham o direito de ganhar seu pão. Os vizinhos ajudavam-se mutuamente. Sistemas complexos de confiança mútua operavam tranquilamente. Do mesmo modo que as formas mais organizadas e políticas de acção da classe trabalhadora, este sistema simbolizava um certo sentido de independência de classe, mas acima de tudo a criação de um espaço social além do controlo dos ricos e dos poderosos. Suas ambições eram modestas; mas este sistema [de redes de sociabilidade cultural, nota minha] sabia como estabelecer limites ao poder daqueles, através de uma combinação de luta formal e de falta de cooperação informal» Hobsbawm, (2005) – Mundos do Trabalho. Paz e Terra: Rio de Janeiro. p.274-275.

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