Continuar a perceber o Irão além da lapidação e a lutar contra a lapidação além do Irão

Pegada de elefante – Parque Nacional da Kissama – Angola – África

A campanha internacional em marcha contra o Irão, com evidentes propósitos belicistas, está de tal maneira entusiasmada com o rufar dos tambores que já se permite a quase tudo, em particular se estivermos a falar da lapidação, que como se sabe é uma prática medieval, prepotente e criminosa. Alguém por , apoiante da manifestação que prefere combater o Irão à lapidação, sugere que quem critica o facto de só se falar da prática medieval, prepotente e criminosa no Irão (esquece entre outros a Arábia Saudita – ver cartaz), subscreva uma petição internacional que não omite nenhum dos criminosos. Na ânsia, escrevem assim: “This atrocity is legal in many countries. In spite of Human Rights Charts proclaimed and signed by States, this sentence is still enforced for women in countries like Iran, Afghanistan, Pakistan, Saudi Arabia and Africa.”

O redundante, “…e África”, não foi boa publicidade mas diz tudo sobre a abertura do diafragma desta gente. Estarão a falar da Tunísia ou de Angola? De Marrocos ou da Argélia? Da Namíbia? Do Gana? Porque será que se toma o Sudão, a Somália e a Nigéria por um continente inteiro?

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26 respostas a Continuar a perceber o Irão além da lapidação e a lutar contra a lapidação além do Irão

  1. LMR diz:

    Estás enganado: o tal diaframa peca é por estreito. Não esqueças que tal crime disfarçado de justiça também se pratica em sítios onde a sharia não é a lei civil.
    http://www.stop-stoning.org/cases

  2. Renato Teixeira diz:

    Foi de estreiteza (selectiva claro) que acusei o diafragma. Quanto à profundidade de campo continuamos em desacordo, pelo menos relativamente à velocidade necessária para o deixar com nitidez.

  3. o sátiro diz:

    A lapidação não é prática medieval. Existia antes de Cristo que mandou acabar com ela. Foi imposta pelo Islão à medida que conquistava pelas armas de forma selvagem terras que eram Cristãs. O Irão foi uma delas. Tal como a Arábia Saudita: aqui Maomé e seus capangas assassinaram tudo o que era Cristão, destruíram casas, igrejas, mosteiros, etc. Ainda hoje as igrejas são proibidas e quem tiver Bíblia em casa pode ser preso. No Irão, Afeganistão, Somália, Sudão, etc, a situação é semelhante. Convém saber umas coisas antes de se escrever sobre elas. Quanto ao resto, a tradicional aliança entre a selvajaria islâmica e a selvajaria stalinista. Nada de novo.

  4. José diz:

    Vê que, quando lhe toca, também o incomoda, a falta de rigor?

  5. Abílio Rosa diz:

    Na verdade o regimen retrógado e tribal do Irão constitui mais um perigo para o Progresso e para nossa Civilização do que constitui um perigo para os sionistas de Israel, que são farinha do mesmo saco e ambos os regimens se regem por «tábuas da lei» que os seus ancestrais criaram e que os contemporâneos recrearam.

    A perigosidade do Irão não é possuir a «bomba atómica» (pois ele seria destruido pelos EUA ou pela Rússia em confronto directo em três tempos) mas é ter um clero claramente fascista e uma interpretação do Alcorão fundamentalista e militarista.

    Não esqueço que os assassinos do Xá e os fdp’s dos adeptos do Khomeny sempre perseguiram, torturaram e atacaram os nossos irmãos comunistas iranianos.

    É bom que nós tenhamos o discernimento suficiente para analisar o regimen iraniano, e não o tolerar por compensação à agressividade do regime sionista.

    Sionistas e extremistas islâmicos são farinha do mesmo saco.

    Desarmar estas quadrilhas devia ser o objectivo do Conselho de Segurança da ONU!

  6. tragediaGeek diz:

    Segundo a sua lógica, a campanha em curso vai contribuir para o bombardeamento de Teerão. Se assim é, porque é que o governo iraniano não acaba já com as lapidações e deixa de dar argumentos aos seus inimigos? Será que são burrinhos e ainda não perceberam o que o Renato já percebeu?

    Ao contrário do que o Renato pensa, este é precisamente o momento certo para nos opormos em força à lapidação no Irão.

  7. miguel serras pereira diz:

    Deixando de lado a questão de saber o que seria uma formulação inclusiva que não pecasse nem por excesso nem defeito, parece-me que há um erro de leitura que faz com que o Renato – a partir de boas razões: não condenar apenas certos regimes deixando na sombra outros, “aliados” ou “alinhados” com Washington – se extravie um pouco quando introduz a distinção entre a lapidação e o Irão. Dizer, com efeito, que acções que visam salvar a vida e a liberdade de iranianos e iranianas – como Sakineh – são contra o Irão é enganador e não nos leva muito longe. Tudo o que pode significar dizer que somos pelo Irão, se é que pode significar alguma coisa, é que defendemos a liberdade do povo iraniano contra a opressão interna e externa: no plano interno, contra a pena de morte, contra o apedrejamento como punição do adultério, contra a perseguição não menos feroz que visa os homossexuais (aliás oficialmente inexistentes), mas também contra a supressão das liberdades cívicas e sociais (liberdade de associação política e sindical, liberdade de expressão e consciência, etc.); no plano externo, contra quaisquer planos de subordinação estratégica do país à direcção das forças armadas da economia globalmente dominante (“imperialismo”).
    Assim, o Renato tem razão quando alerta para as tentativas de instrumentalização das campanhas em curso em torno do caso de Sakineh Ashtiani, mas a solução não é desistir das campanhas, a pretexto de que são anti-iranianas: passa antes por generalizá-las – como é timbre, de resto, da Amnistia Internacional – e por aplicar os mesmos critérios e princípios políticos que levam o Renato a ver no regime iraniano uma ditadura que gostaria de ver derrubada aos juízos que fazemos sobre os outros regimes ou sobre a ordem global dominante.

    msp

  8. Renato Teixeira diz:

    Sátiro, não terá esquecido a servajaria dos Cruzados? A defender e a atacar? Quanto a unidades também está algo confundido. Estalinismo aliado ao islamismo? Onde?

  9. Renato Teixeira diz:

    Tragédia grega, é lamentável que o Irão não o perceba. Evidentemente.

  10. Carolina diz:

    As tropas da Unifil foram recentemente atacadas pelo hezbola.

    Leia resolucao 1701 das NU. Tem poder legitimo para supervisionar. Fazem o que podem.

    Nao leio Correio da Manha. Porcaria de jornal.

    Ja leu constituiçao do hezbola, o “Documento.” Ta la escrito:; subserviencia a teerao, aplicacao de sharia. hezbola e’ irao em ponto pequeno. Qualquer troglodita minimamente inteligente percebe isso.

  11. Renato Teixeira diz:

    Ouviu o que disse: o Hezbollah está no governo com quatro ministros. Diga-me uma vírgula da lei islâmica aplicado no país que também governam. Ainda lhe falta um bocadinho para pelo menos chegar a troglodita. Continue a dar o pino.

  12. Carolina diz:

    MSP

    Ha muito que se fala num possivel ataque ao irao, muito antes da sentenca aplicada a iraniana. Nao li nem um patusvka poderoso, dos eua a brazilia, a dizer que se deve bombar irao porque mulher xiita ta sendo morta a paulada. A questao e’ geo-estrategica. Quando e se eles conseguirem a bomba, entao esquece mulher iraniana, Miguel. A razao e’ simples. Ninguem se vai atrever a meter bedelho no irao. Da mesma forma que ninguem se mete com Coreia do Norte. Os custos aumentam radicalmente. Gera-se o chamado efeito “guarda chuva”: protegidos pela bomba, os padrecos iranianos vao matar mulher aos milhares. E ninguem vai abrir bico. Perceberam? Nao se trata de instrumentalizar. E’ um FACTO. Se o regime consegue a bomba, pode esquecer mulher Iraniana, comunista iraniano, liberal iraniano. O regime fica insulado. Imune a influencias exteriores. E’ uma questao de responsabilidade.

    Irao com bomba = irao + forte e isto = maior capacidade de supressao de forcas contestatarias internas.

    Ate’ macaco bem comportado percebe isso.

    Passar bem.

  13. Carolina diz:

    Eu poderia dizer que e’ o Miguel que ta instrumentalizando a coisa.
    Nao podemos deixar que as atrocidades iranianas justifiquem uma intervençao militar. Certo? Se os Franceses virassem fascistas e começassem a matar cigano, o Miguel nao fazia nada!! Nao e’ mda sua conta! Certo? Que universalismo democratico notavel!! Que hipocrisia de merda!!

    O regime Iraniano e’ HEDIONDO. Deve ser combatido. E nao e’ com iniciativas pateticas que se combate regimes desses. E’ com FORÇA e inteligencia. Com porrada, cara. Muita muita porrada.

  14. Renato Teixeira diz:

    “Muita muita porrada.”

    Assim fica tudo mais claro na sua posição.

  15. carmo da rosa diz:

    @ Sátiro: ”Ainda hoje as igrejas são proibidas e quem tiver Bíblia em casa pode ser preso.”

    Estou de acordo com tudo o que disse mas queria acrescentar algo, apenas uma pequena crítica a Arábia Saudita para fazer a vontade ao Renato Teixeira.

    Pois bem, na Arábia Saudita nem sequer é possível entrar na cidade Santa (Meca), porque na auto-estrada, uns quilómetros antes de chegar, uma tabuleta (em árabe e inglês, “For Non-Muslims”) obriga os não-muçulmanos a tomarem um desvio.

    Não acredita? Veja esta pequena parte de um longo documentário belga: A CAMINHO DA MECA:

    http://www.youtube.com/watch?v=wxjwHuvLXGs&feature=related

    @ Abílio Rosa: ”…os assassinos do Xá e os fdp’s dos adeptos do Khomeny sempre perseguiram, torturaram e atacaram os nossos irmãos comunistas iranianos.”

    É verdade. Mas se os nossos irmãos comunistas do Irão chegassem ao poder, também perseguiriam, torturariam e atacariam os adeptos do Xá e do Khomeiny nas calmas, como fazem noutros países com todos aqueles que não são adeptos do partido.

    @ Renato Teixeira: ”Estalinismo aliado ao islamismo? Onde?”

    Um pouco por toda a Europa a extrema-esquerda alia-se regularmente ao islamismo – e a esquerda ‘tout cour’ tolera-os demasiadamente. Na Bélgica o PvdA (Partido dos Trabalhadores), um partido de extrema-esquerda chegou mesmo a fazer uma aliança para as eleições com a AEL (Liga Europeia Árabe), que é uma filial do Hezbollah…

    @ Renato Teixeira: ”o Hezbollah está no governo com quatro ministros.”

    Precisamente, e esse é que é o problema, porque comem dos dois lados! Porque além da actividade parlamentar (legal), têm uma milícia armada até aos dentes que não aceita instruções do parlamento, mas apenas de Hassan Nasrallah (e do Irão)…

    Transporte a situação para Portugal e imagine o Paulo Portas com representação parlamentar e um ou outro ministro no governo. Mas que além disso tivesse uma milícia particular mais bem armada que as FAP, para quando lhe dá na telha atacar Espanha por causa de Olivença…

    Esta é a situação do Hezbollah no Líbano

  16. João Tiago Sousa diz:

    Pois é pá, o Renato tem razão. Não façamos nada contra as lapidações no Irão porque senão pensam que somos contra o Irão (mesmo que digamos que apenas estamos a repudiar a lapidação). Pois é, se calhar também não nos devíamos ter manifestado contra o Bush, porque às tantas as pessoas ainda pensaram que eramos contra o povo americano. Ou será que alguns dos que se manifestaram nessa altura eram? Talvez… eu até já aqui li que a vida de uma criança israelita valia menos que a vida de uma criança palestiniana.

  17. Renato Teixeira diz:

    João Tiago Sousa, o problema é precisamente esse: não dizem que estão só a repudiar a lapidação. São contra a lapidação mas só se manifestão contra a do Irão. Pergunto-me se as vitimas da lapidação na Arábia Saudita terão o mesmo valor…

  18. João Tiago Sousa diz:

    O argumento do Renato de que não é apenas no Irão que há lapidações é obviamente muito válido. Mas pergunto-me se é suficiente para decidir não me associar a esta manifestação. E eu acho que não. A questão das lapidações no Irão está hoje presente na agenda mediática, é do conhecimento da opinião pública (dir-me-á o Renato que isso decorre de processos propaganda – não faço ideia, seja – não é isso que é para mim relevante neste momento). Uma acção colectiva de repúdio funciona neste momento e, assim creio, é muito mais eficaz se estiver centrada numa concreta e conhecida do que se tiver um espectro mais geral (ainda que mais justo, por assim dizer). É como cruzar os braços perante uma campanha que denuncia a pena de morte nos EUA (por haver outros países que igualmente a aplicam), ou recusar agir por Timor naquele momento-chave em que os olhos do mundo estavam atentos (com o argumento de que havia outros povos também invadidos e oprimidos).

  19. João Tiago Sousa diz:

    E é claro que as vítimas da lapidação têm o mesmo valor onde quer que seja. Para mim a vida humana tem sempre o mesmo valor (até me custa estar a escrever isto, por ser tão óbvio e inabalável).

  20. Pingback: cinco dias » Não troco uma luta justa por uma manifestação contra o Irão

  21. carmo da rosa diz:

    O pingback significa que se acabaram os argumentos…

  22. Renato Teixeira diz:

    Sim. Continuar a falar é como ficar calado.

  23. carmo da rosa diz:

    ….se os israelitas foram esmagados [em 2006] e tiveram que correr pelas suas vidas, porque razão o Hezbollah não foi atrás deles para acabar com a raça de uma vez para sempre? Ficaram com pena? Tinham outros afazeres planeados na agenda?

    O Fisk é um idiota que só vê aquilo que quer ver! O que realmente aconteceu em 2006 foi que o Líbano, graças às provocações do Hezbollah, levou um rombo de 50 anos nas suas infra-estruturas. Por isso é que os libaneses já começam a estar cansados do Hezbollah. E é por isso que o Hezbollah agora já bate a bola mais baixinho…

    Renato, continuo à espera de uma resposta, de um argumento – um….

    P.S. Se não quer dizer que eu tenho razão em público, com medo do tribunal popular, pode sempre fazê-lo com o máximo sigilo para o meu endereço electrónico…

  24. Renato Teixeira diz:

    É isso. Espere uns dias que assim que adira ao prozac envio-lhe o meu auto de fé. Fale homem. Dê os seus que normalmente só o vejo fazer citações. Os meus, costumo deixa-los escritos com regularidade. Continue a ler e a vir cá deixar os seus argumentos sobre os meus.

    Quanto ao Fisk é capaz de ter razão. O tipo só ver o que quer ver. O Carmo da Rosa como bom especialista na matéria há-de ser o tipo ideal para o diagnosticar. Santa paciência.

  25. carmo da rosa diz:

    Como de costume continua a esquivar-se e a não responder!

    …….porque razão o Hezbollah não foi atrás deles [israelitas]?

    Porque razão você, tal e qual como o idiota do Fisk, não reproduz a situação do Hezbollah no Líbano tal e qual como é?

    Ministros no governo e representação parlamentar (legal), mas ao mesmo tempo uma milícia privada armada até aos dentes que só recebe ordens de Hassan Nasrallah e de Ahmadinejad – dois fascistas que se entendem perfeitamente e que têm muita coragem, mas é quando uma mulher está enterrada até os ombros (não se podendo defender) e eles podem atirar-lhe pedras…

    O Robert Fisk é outro idiota como o Jean-Paul Sartre (que acreditava na revolução cultural na China). Já fui enganado uma vez! Duas vezes parece-me demais…

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