Uma opção curiosa

Ao ler o programa do Socialismo 2010 organizado pelo Bloco tropecei numa conferência com um título curioso: “Há socialismo sem democracia?”. Parece-me evidente que a ideia do socialismo é dar um acesso mais igual ao poder e aos benefícios sociais do que o capitalismo. Agora num mundo dominado pelo capitalismo é curioso que o Bloco discuta esta formulação, em vez de outra que me pareceria bastante mais interessante: Há democracia sem justiça social, ou, se quiserem, sem socialismo? De facto, as questões que cada um coloca, definem o que queremos responder. Pelos vistos, esta conferência está mais interessado em demarcar-se das tentativas falhadas para construir o socialismo do que denunciar os elementos profundamente anti-democráticos da sociedade em que vivemos. Pessoalmente gostaria de perceber quais são os mecanismos democráticos que o Bloco propõe na economia em vez da reafirmação que a Coreia do Norte não é socialismo nem democracia. Coisa que não me parece merecer sequer uma discussão.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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22 Respostas a Uma opção curiosa

  1. zé c diz:

    Boa malha Nuno…..atento como sempre.

  2. koshba diz:

    Por isso é q os media(privados,pq?) desataram a promover os Bloquistas e certas personalidades bem enquistadas no xixtema.É bem ser contra a Coreia do Norte q como toda a gente sabe, a começar pelo bebedor do pacheco pereira,miguel serras pereira e outros q tais,um bebiano,for instance…

    Vai daí,desculpa-me Louçã, deixei de votar no BE.Tão novos e,tão velhos…

    Bene trovato,NRA!

  3. Sérgio Pinto diz:

    Caro Nuno Ramos de Almeida,

    Num mundo (e particularmente num país como Portugal) em que se observam dois tipos de “esquerdas” (estou a simplificar, eu sei, mas no caso não me parece o mais importante), uma que continua a olhar para Cuba, Vietname, China, Coreia do Norte e Laos como exemplos, e outra que se pretende demarcar de regimes que se apropriam abusivamente dos epítetos de “socialista” ou “comunista”, a interrogação “Há socialismo sem democracia?” não me parece menor. Claro que a questão “Há democracia sem justiça social?” também o não será, mas também me parece que já ouvi dirigentes do BE a endereçar esse assunto por diversas vezes.

  4. miguel serras pereira diz:

    Post importante, caro Nuno. Não que me pareça demasiado significativo que a pergunta seja a que é a no documento ou a que sugeres, mas porque pões, depois, a questão fundamental: como democratizar a economia, sendo que esta é cada vez mais o aparelho ou conjunto de aparelhos decisivos que nos governa? Ou: o que implicaria uma repolitização explícita das esferas da produção, do trabalho e do mercado?
    Digamos que a reflexão que propões requer várias coisas como:
    – distinguir inequivocamente entre “estatal” e “poder do Estado”, por um lado, e “público” e “poder político democrático” , por outro. Porque, com efeito, não basta dizer que é necessário subordinar a economia ao poder político: subordinada ou subordinante, a economia, a sua direcção e organização, são já, e sempre, instâncias de governo e poder político; ao que acresce que a propriedade estatal não garante necessariamente melhor do que as formas burguesas clássicas (de resto, profundamente alteradas hoje) o funcionamento público da economia ou a devolução da sua esfera a um espaço público democrático (igualitário).
    – definir as condições de democratização do mercado segundo a transposição do princípio de um voto igual por cidadão (igualização dos rendimentos), acompanhada obviamente da exclusão da força de trabalho do mercado (supressão do mercado de trabalho).
    – definir critérios de gestão colectiva, através da livre participação igualitária de cada um nas decisões económicas e na direcção das empresas ou unidades produtivas.
    – debater as vias instituintes destas e outras transformações afins – ou seja, da conquista e extensão do exercício de um poder político comum e de iguais pelos cidadãos organizados, tanto na esfera hoje governada pela “cena política” oficial e formal, como na esfera, cada vez mais politicamente determinante, da actividade económica.
    Tudo o que aqui fica dito é, sem dúvida, demasiado genérico, mas talvez possa fornecer alguns critérios importantes sobre os conteúdos e os modos de acção dos movimentos, lutas e campanhas, que serão sempre travados em condições singulares e concretas e em termos que não se podem “receitar” a priori nem de uma vez por todas.
    Enfim, a fraqueza, por um lado, e as ambiguidades mais comprometedoras do Bloco passam efectivamente pelo modo como tem esquivado o tipo de questão que levantas. A grande questão política contemporânea.

    Com um abraço para ti

    msp

  5. João Pais diz:

    Sérgio Pinto: enquanto a direita (de que o PS faz obviamente parte) delapida o que resta do 25 de Abril vocês preferem continuar a mistificar sobre o que é o PCP… É a nova esquerda, o teu tipo de esquerda, esquerda Alegre ou arco-iris… Palhaço

  6. Fernando diz:

    “Pelos vistos, esta conferência está mais interessado em demarcar-se das tentativas falhadas para construir o socialismo do que denunciar os elementos profundamente anti-democráticos da sociedade em que vivemos.”

    Não sei onde foi buscar essa do “está mais interessado”, já que este é um dos temas que se discute. Até parece que discuti-lo impede de denunciar paralelamente a sociedade em que vivemos.
    Tendo em vista as experiências do “socialismo real” não me parece uma questão infudada. E a si, o que lhe parece?

    Experimente pegar no avante e ler as odes gloriosas que se escrevem à China dos nossos dias; aí encontrará uma resposta ao que o PCP chama de “socialismo” em que moldes de democracia conhecemos: empresários à cabeça da nomenklatura, inexistência de sindicalismo, etc.. Penso que a cumplicidade que o PCP mantém com esta China deveria merecer mais destaque neste blog. (Caso não tenha notado, você pode agora pegar no meu argumento e dizer “é possível denunciar ambas!”)

  7. p.heinz diz:

    Lendo o programa desse colóquio, e apesar de alguns exemplos em sentido contrário (como o que o NRA destaca), a ideia com que se fica é que o BE se assume, ou quer assumir, como uma força de esquerda radical anti-capitalista. Todavia, basta seguir a intervenção política do partido e dos seus militantes para se perceber quão distante anda o discurso da prática. O BE é hoje um partido político que, sem “causas fracturantes” a que se agarrar, reduz a sua intervenção a uma crítica económica moralista, e por isso pouco operativa, ao sistema capitalista. O BE não quer a destruição do Capital e do Estado. Quer um Capital e um Estado mais honestos e justos.

  8. Antónimo diz:

    Manifestamente imbecil a posição de comentadores que persistem em lutar contra uma ameaça à democracia que não existe (e que alegadamente seria proposta pelo PCP, que nunca participou em nenhum Governo estrangeiro e que quando por cá esteve num Executivo deixou até uma boa herança), em vez de porem as necessidades de combate onde NRA as coloca.

  9. koshba diz:

    ‘ao que acresce que a propriedade estatal não garante necessariamente melhor do que as formas burguesas clássicas (de resto, profundamente alteradas hoje) o funcionamento público da economia ou a devolução da sua esfera a um espaço público democrático (igualitário).’

    Claro,msp,basta ver a ‘gestão’ com sucesso do sector financeiro…..

    Gosto do termo ‘reflexão’ sobretudo quando nada reflecte.Luta de Classes nicles,n’é?Cumprimentos ao dias loureiro, ao joão rendeiro e restantes winners,e gestores de topo,que mais não são que uma cáfila de criminosos, nesta sociedade de ‘mercados’…

    ‘uma que continua a olhar para Cuba, Vietname, China, Coreia do Norte e Laos como exemplos, e outra que se pretende demarcar de regimes que se apropriam ‘,mais um cliché,ou uma cassete,ou um DVD blu-ray double layer para estar up-to-date.The same old story.It’s the ruling class,stupid!(sem ofensa).

  10. Pedro Pousada diz:

    Portanto deita-se fora a experiência histórica do socialismo real, os erros e imperfeições mas também os seus êxitos, a sua obra extrordinária no espectro temporal de 1917-1990 (a tal tentativa falhada que transformou o Egipto Russo num pais moderno).Fingimos que a genealogia do socialismo do futuro não tem nada que ver com essa experiência. O socialismo dos que falam cheios de vergonha das “tentativas falhadas” nascerá concerteza numa estufa sem bacilos nem terrenos pedregosos e inférteis e onde haverá o consentimento e a compreensão dos donos da economia mundial. Admitamos que havia consenso entre as esquerdas para avançar com as ideias delineadas por msp, alguém acredita que não haveria uma reacção violenta dos “medalhas sá carneiro” deste pais? E a seguir? Julgam que o Imperialismo ficaria de braços cruzados, não inundaria de dinheiro e recursos os media e a massa crítica anti-comunista, dando-lhes treino em actividades de sabotagem, de infiltração e de guerra psicológica, acreditam que não haveria um ressurgimento da delinquência e dos homicídios, um acentuado destaque dos petty crimes para convencer a massa dos indiferentes que o rumo das coisas era catastrófico; julgam que não haveriam boicotes económicos, ameaças de cancelamento de crédito internacional para projectos de desenvolviemento?que os patrões não fariam lock-outs?esses e outros elementos de distorção do percurso foram (e são no caso da Venezuela e de Cuba) realidades muito concretas e quotidianas q

  11. Gostei. Abraço, Sérgio.

  12. Pedro Pousada diz:

    (continuação) que afectaram os projectos progressistas e socialistas por esse mundo fora.

  13. Niet diz:

    NR de Almeida: Como estamos longe da imprecação de Lénine em fazer a apologia de ” dar o salto por cima da democracia burguesa”!!! E é isso que parece constranger o Bloco e satélites ideológicos adjacentes ou complementares. E se reflecte nos programas eleitorais, que instrumentalizam, para serem cada vez mais anódinos e branqueadores…Onde a opção Ecológica também aparece muito marginalizada. Como sublinha Castoriadis, ” a integração da componente ecológica num projecto político democrático radical é indispensável “. E só assim- e com a luta de classes em crescendo!- se pode sonhar com a democracia socialista, sem ilusões e burocráticas simplificações. Salut! Niet

  14. Sérgio Pinto diz:

    João Pais,

    Agradeço o insulto. Costuma ser o caminho escolhido quando não restam grandes argumentos. Não há mistificação nenhuma, o seu caro PCP faz questão de o reescrever, ano após ano, nas suas ‘teses’. Eu sei que parece repetitivo, mas é a eles que se deve queixar.

    Já que aparenta estar tão interessado no meu ‘tipo de Esquerda’, informo-o que é o que, não esquecendo o socialismo, não sacrifica a liberdade de um povo inteiro nem suprime o pensamento/críticas a nível individual em nome de cliques iluminadas e corruptas.

  15. João Valente Aguiar diz:

    O comentário do Pedro Pousada diz tudo e o essencial sobre este assunto: deitar o legado histórico de Outubro é a maior estupidez para todos os que dizem lutar pelo socialismo. Legado histórico no que toca ao processo que levou o Partido Bolchevique ao poder e no que toca ao (posterior) processo de construção do socialismo propriamente dito.

  16. miguel serras pereira diz:

    Não percebo bem a objecção do koshba – mas, tentando responder ignorando os impropérios, eu diria que, de um modo ou de outro, a direcção estatal – mascarada de “pública” – pode ser apenas um meio de apropriação classista dos comandos da exploração. O mesmo se diga da intervenção em força do Estado – como ficou bem à vista na crise financeira dos últimos tempos.
    A democratização da economia – que não pode deixar de ser um traço distintivo do socialismo – exige bastante mais e melhor do que a simples nacionalização: o exercício colectivo de direcção e definição das suas funções pelos que as executam. É esse o único modo de garantir a devolução a um espaço público – que diga, como canta a Internacional: “não mais deveres sem direitos/, não mais direitos sem deveres” – da propriedade e da disposição da produção e dos meios de produção da economia.

    msp

  17. miguel serras pereira diz:

    Caro Sérgio,
    quem sacrifica a liberdade em nome do “socialismo” (igualdade), é o próprio socialismo (igualdade) que inevitavelmente sacrifica. Igualdade significa, politicamente, igual poder, igualdade de poder (sendo a riqueza, o acesso aos bens e a disposição destes não mais que outros tantos aspectos do poder). Como pode haver igualdade se houver uma classe que tem o poder de comandar os demais e escolher por eles, impedindo-os de deliberar sobre as suas escolhas, sem que a recíproca seja verdadeira?

    Um abraço

    msp

  18. Renato Teixeira diz:

    Brilhante. Não terá sido engano? Um acto freudiano?

    E a opção curiosa do senhor que se fala? Estou curioso com o teu pensar sobre o assunto. ;)

  19. Nuno perceber o ‘Blockum’ é uma tarefa impossível, já devias saber…

    Foi, é, e será sempre um estranhíssimo ‘saco-de-gatos’ e vive disso.

    ;-)

    Em relação à substância:

    O socialismo (ou o comunismo, escolhe…) embora tenha andado 70 anos (ou 140 ?) em direcção a coisa nenhuma e a ocupar-nos o tempo, teve um mérito marginal: obrigou o dito ‘capitalismo’ a reformar-se, ainda que ligeiramente.

    Isso é uma baita de uma “conquista civilizacional”, não dirias ?

    O mundo em que vivemos é tudo menos perfeito, pessoas muito pobres e a passar fome, injustiças a dar com pau.

    A nossa obrigação é tentar dar a volta a isso, consoante pudermos e soubermos.

    Just my damn two cents.

  20. Justiniano diz:

    Caríssimo Niet, a opção ecológica, ela também, é instrumentalizada face a uma dualidade discursiva. O mais característico no BE (não é a pertinencia ou impertinencia da questão a que o caro NRA alude, Democracia sem princípio da socialidade ou socialidade sem democracia, aí as possibilidades são de grau, porque verdadeiramente, já se sabe, não querem, aqueles, superar o Estado liberal de direito social democrata, mas o caro NRA também não!!) por um lado intra-sistemática na, como o caro Niet bem refere, utilização de paliativos defensivos à estrutura e detenção do capital (quer particular quer publico) e por outro, como bem refere o caro heinz, à reserva extra-sistemática do empirismo moral recorrente (S. Francisco Xavier, ensina pelo exemplo), uma espécie de ira divina redentora, em arremedo de ameaça, sempre possível…
    Ou seja, desejam aqueles ser os campeões da social democracia, apoderaram-se ou deixaram-se apoderar do discurso liberal e social democratico, mas, simultaneamente, não querem, por razões da alma, renunciar à apologética quase revolucionária!!!
    Um bem haja,

  21. Niet diz:

    Caríssimo Justiniano: Tenho andado a colocar a ” escrita ” em dia. Isto é, a ler coisas muito bem trabalhadas pelos jornais liberais de grande qualidade- o Finantial Times e o NYT/Herald Tribune. Por isso escapou-me a sua compósita e estruturante nota. Que nos remete para as circunstâncias da estruturação da prática política de um neo-partido ” frentista “, compósito e ” parlamentar”, como é o caso do BE. Claro que nós, caro Justiniano, só partilhamos os bons efeitos da democracia directa, não é? Castoriadis aponta sem piedade no grande texto de 1979 sobre ” O Pensamento Político “: ” Decidir sobre quem deve decidir quase que se arrisca a deixar de decidir “…Niet

  22. João Pais diz:

    Sergio Pinto: não é um insulto, é uma definição.

    Quanto a “não sacrifica a liberdade de um povo inteiro nem suprime o pensamento/críticas a nível individual em nome de cliques iluminadas e corruptas” é comentário de quem faz opinião a partir da BBC World e Euro News.

    A liberdade do teu Alegre (apoiante fervoroso deste governo) é que é boa, a da repressão aos movimentos sociais, da submissão a UE, etc. etc.

    Repito e sublinho: Palhaço. Nao é insulto, é definição.

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