Perceber o Irão além da lapidação, só um bocadinho. Combater a lapidação além do Irão, também só um bocadinho.

A lapidação é uma prática medieval, prepotente e criminosa e há quem pense que um dia vai acabar por se repetir à exaustão que a lapidação é uma prática medieval, prepotente e criminosa. Sobram poucas alternativas para quem vai por aí. Sonhar com o regresso do Xá da Pérsia ou com a mão “libertadora” da força aérea norte-americana.

Pode contudo caminhar-se de outra maneira. A emancipação das mulheres e dos homens iranianos depende de muitos factores, mas acima de tudo depende da sua determinação. Podemos escrever mil vezes que a lapidação é uma prática medieval, prepotente e criminosa, mas essa repetição, desprovida de pensamento, transforma-se numa espécie de catatonia que por si só não vai salvar ninguém do martírio. Pode ser um bálsamo para os samaritanos ou até um ansiolítico para aqueles com um sono mais difícil, mas também é algo mais grave do que isso. Malogrado a boa ou a má fé dos seus propagandistas, essa via vai apenas contribuir para que mais cedo que tarde chova fósforo branco no céu de Teerão, impondo à medieval vontade do povo iraniano o primitivismo que se anda a exportar para todo o lado. Se assim não fosse, porque é que todos sabemos o nome de Sakineh Ashtiani e ninguém conhece nenhum dos nomes das vítimas de lapidação na Arábia Saudita? Ou no Sudão? Ou na Nigéria? Porque se esquecem todas essas vítimas nas manifestações que se convocam? É que se é para descer à rua contra a lapidação está muito bem, se é para cair na ratoeira de trocar uma luta tão justa em nome de uma manifestação sectária e anti-Irão, não contem comigo.

Se as lições do Iraque e do Afeganistão ainda não bastam, não obriguem o povo iraniano a explicar-vos tudo outra vez.

De seguida deixo um pequeno contributo para ajudar a combater a ignorância de quem nada percebe do Irão ou dos que sobre ele apenas sabem repetir banalidades.

O Estado do Profeta

Reportagem sobre os 30 anos da República Islâmica do Irão (RDP-Antena1)

[Impõe-se um lembrete que o insurgente Rui Oliveira se esqueceu de responder na sua segunda ressurgência: Ao dizer que “não se pode menosprezar a ameaça que o Irão representa” na mesma frase em que se declara que a República Islâmica é “um tigre de papel” é ou não “motivo para entrar em pânico”?]

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54 respostas a Perceber o Irão além da lapidação, só um bocadinho. Combater a lapidação além do Irão, também só um bocadinho.

  1. carmo matos diz:

    gostaria de saber quem promove a manif. , estou solidária com o progecto e gostava de ir , mas depois de ter a certeza de que estou a ser usada por uma qualquer força política para servir os seus próprios interesses , como já me sucedeu na manif em frente à embaixada de Israel, contra o ataque ao navio que se dirigia a Gaza ,

  2. carmo matos diz:

    óbviamente quiz dizer que —não— quero ser usada em manifs de causas que subscrevo, pelos partidos que as usam em seu próprio interesse

  3. Renato Teixeira diz:

    Não se preocupe com a manipulação dos partidos. Preocupe-se com a manipulação dos fins e das ideias. Em todo o caso faz bem questionar sempre para que serve a sua palavra e a sua acção. Eu iria a uma manifestação contra a lapidação. Não vou a uma manifestação contra o Irão que só pretende acicatar a guerra.

  4. carmo da rosa diz:

    Mas caro Renato, ainda não percebeu – ou não quer perceber – que actualmente Irão e lapidação rimam, e não é por acaso, e por isso não se podem dissociar!

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