UM CASE STUDY: Luis Rainha, o que é, quem é, o que quer e ao que vem


Bom, depois de tanta, tanta insistência, segue-se devido esclarecimento.

Creio pois que devo uma pequena – deve ser pequena porque de pequena coisa se trata -, explicação aos leitores deste blogue (e de outros, já agora), relacionada com o facto simples de que com um tal de L. Rainha, que já por aqui andou arrastando o seu vapor inflado, repito, relacionada com o facto simples de que com um tal L. Rainha eu não pretender trocar um único cumprimento, argumento ou ideia ou nada, nada que aponte ao esclarecimento do que quer que seja. Aqui, acolá.

Claro que posso começar por dizer que não reconheço ao sr. grau algum de existência pensante, intelectual ou pessoal, e essa poderia ser uma razão fundadora para o meu mutismo crónico em face de.

Mas não chega. Não, não é a única motivação, e talvez nem seja a principal. A razão, as razões, são duas: aquele que se assina por L. Rainha, pateticamente enfatuado e inchado de vapor publicitário, consegue numa só pessoa reunir os que para mim são os dois problemas (defeitos? não, pior) mais ridículos que um escrevente, bloguer ou coisa pensante que raciocina pode em si, num só invólucro repito, juntar. São eles: 1) saber um “poucochinho de tudo um pouco” e 2) inchar-se no vapor de “escrever bem”, coisa inócua e vazia que aponta inexoravelmente para a ocultação de algo tremendamente indesculpável (pró meu gosto), o de não ter nada a dizer sobre tudo e nada, a não ser o tal “poucochinho de tudo um pouco”, desde Cy Twombly ao ensino na Finlândia, desde Ratzinger à teoria do valor, desde o petróleo norueguês ao novo tipo de tumor no calcanhar, desde a saia da minha prima à política e à pessoa de J Sócrates, desde o sinfonismo de Luís de Freitas Branco ao iPad, etc., que merda esta sempre em extensão.

1.
Ora bem, comecemos.

Não lhe fica nada mal querer intrometer-se (ele nada diz sobre nada, intromete-se caramba!) sobre todas estas “coisas”, é até próprio de quem sabe e pensa “poucochinho sobre tudo e de tudo um pouco e muito pouco de cada vez”, uma espécie de clínico genericamente generalista. E em cima desse nada a capa é sempre a mesma: esgares gramaticais acrobáticos, escrita escorreita, esteticizada, cheia de nobres termos e figuras para tapar o zero dum conteúdo inevitavelmente mísero. Chamemos-lhe o complexo de inferioridade para inglês temer.

Vamos a exemplos.

Já todos experimentaram a situação de andar a fugir em múltiplos lugares de um chato, que também por vezes chamamos a “chaga”. Imaginemo-nos numa inauguração de qualquer coisa, num jantar colectivo com amigos e conhecidos ou outros por razões apenas interessantes e/ou profissionais. Há por lá sempre a figura do pendura e do chato ”chaga” que chaga. E o que faz o chato? Sempre a mesma coisa, à maneira de rainha: não está em nenhum lugar, em nenhum grupo formal ou informal, passa por todos, pessoas e grupos, e diz um dito invariavelmente do tipo: “a razão deste encontro é sobejamente justificada, trata-se de agir pertinente e atempadamente, e o vinho é sóbrio e revelador de… etc.”; numa vernissage dirá (vem nos compêndios), “esta fase do artista é extremamente consequente sustentando a globalidade do seu trabalho; um acto de coragem”. Este tipo de prosa-lixo é o arquétipo de um nada que suporta quem quer (ninguém suporta, no fundo), mas é a mais frequente característica do chato, sendo o chato aquele de que toda a gente quer livrar-se – invariavelmente, humanamente; eu digo aos meus amigos, eu disse e repeti vezes sem conta na última vernissage em que muitos nos encontrámos por várias razões, “vamos fazer de conta que vamos provar outro salgado, mudar de copo, desviemo-nos porque senão…”. Mas o chato aproxima-se e consegue pronunciar a sua apoteótica fala, porque ele trabalhou meses a fio para isto: “interessante, uma noite que nos enriquece a todos, não acham?” E nós olhamo-nos sem saber o que dizer senão confirmar: “É uma realidade, é”. É esta a característica do chato: nada do que diz está errado, nada do que diz está certo. Mas é uma porra que este tipo de moço exista e se multiplique! Porque está sempre onde o vazio mais inócuo está e não devia estar, e não devia estar em nome do que se define por cérebro ou mente activa (digamos assim).

2.
Mas o segundo problema (“defeito” é um eufemismo) é ainda pior, apesar de uma consequência da alínea anterior: trata-se de arvorar e relevar(-se) uma “boa escrita”, um “bom português” como se dizia na primária da primária, mas desta feita com protuberâncias cosmopolitas, pessoa viajada que é o chato-chaga (tem de ser, senão que nos dizia quando nos vê?, tem de falar no tempo, na Segurança Social no Nepal e na política de Burma, no turismo de Cuba e nas edições da Naïve, no Kindle e na última batalha legislativa de Obama).

Ora aqui é que está o problema maior: só um paupérrimo ser movente, um paupérrimo ente movente, aspira “escrever bem”. Porquê? Porque qualquer pessoa que ambicione possuir uma inteligência mínima tem por certo outro ou outros objectivos: não é “escrever bem”, nunca!, mas pensar, trabalhar, criar tão bem e pertinentemente que tal tenha por consequência uma mudança do entendimento do que é a própria “escrita”.

É de facto assim com todos as cabeças que mereçam esse nome: pensar, pensar bem, trabalhar para pensar melhor ainda e sempre mais e no limiar do impossível, e daí inventar ou redefinir ou reescrever esse objecto que (ainda) se chama “escrita”, mudar e inventar algo que já não é forçosamente “escrita”, mas é ou pode ser outra coisa, consequência do esforço, intuição, talento, trabalho, visão, rasgo, coragem… É assim, por exemplo, com a palavra de uma Gabriela Llansol – aquilo não é escrita, não é romance, não é teoria, não temos de saber o que é. Aquilo é um mundo, o mundo.

“Escrever bem”, ostentar “escrever bem” é a encarnação da mais sofrida indigência, o mundo, sim, mas da pobreza aflita.

E porque o homem que assina L. Rainha, 1) “sabe um pouco de tudo um pouco em leve quantidade” e 2) nos impressiona com sua “boa escrita” na direcção “de tudo um pouco”, daqui não terá nunca algo que se pareça com uma “resposta”, nem que acrobacie a quebra dos vidros do automóvel da minha cunhada.

E nem que me dedique mais uma dezena de posts. Finito.

( PS, 0:41: Insinuou-se estar fechada a caixa de comentários deste post. Fechada onde? )

( PS2, 12:43: O L Rainha já respondeu; isto: “Repare-se que o homem não é nenhum burgesso absoluto: dá aulas a estudantes de Pintura, percebe do assunto e até tem obra publicada sobre o mesmo”. Lamento pá, mas não, não chega – não há conciliação possível. )

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