“Não deixámos morrer a nossa escola!”

“Ao abandono de um país” – trabalho fotográfico de Hélio Gomes

A 2 de Junho chegava ao 5dias uma carta da Comissão de Pais da Eb1 da  Boa Fé. Uma escola exemplar no fim da linha? perguntávamos então a propósito da aberração que era fechar uma das melhores instituições escolares do primeiro ciclo no interior alentejano.

A lista divulgada hoje pelo Ministério da Educação confirma que 701 escolas não vão abrir as portas já no início do próximo ano lectivo e que os pais desses alunos têm menos de um mês para reorganizar a sua vida em função de mais um disparate de Isabel Alçada. Menos de um mês, sublinhe-se!

Hoje, data da divulgação das listas, os pais da Escola Eb1 da Boa Fé, fizeram chegar outra carta ao 5dias onde dão conta do sucesso da luta que travaram, e que foi premiada com a manutenção do seu estabelecimento de portas abertas: “Não deixámos morrer a nossa escola!”, jubilam merecidamente.

A leitura deste segundo comunicado bem como os passos seguidos por esta comissão de pais não são um simples tónico para aqueles que não aceitam o que lhes é imposto na doce passividade lusitana. Uma lição a reter pelos pais de cada uma das 701 que o governo quer encerrar definitivamente a cadeado e a demonstração cabal de que só há uma maneira para evitar que se fechem as portas das escolas que ensinam os seus filhos: lutar, lutar, lutar!

Este documento é a melhor prova que a luta política é o único caminho para derrotar, escola por escola, a autoridade, a prepotência e a cegueira de Isabel Alçada e do Governo Sócrates.

Novo comunicado da Comissão de Pais da Escola Eb1 da Boa Fé:

Não deixámos morrer a nossa escola!

Todos nós, pais e encarregados de educação dos alunos da Eb1 da Boa Fé (Évora), começámos activamente em finais de Maio a luta por um direito simples e básico (mas paradoxalmente cada vez mais raro) que nos assiste: educação de qualidade na nossa zona de residência. Assim que tomámos conhecimento da irracional decisão administrativa do Ministério da Educação, da Câmara Municipal de Évora e do Agrupamento de Escolas para encerrar, sem qualquer argumento convincente, lógico ou razoável, a nossa escola, iniciámos uma luta sem tréguas que encontra agora um primeiro desfecho: a escola pública da Boa Fé não será encerrada no próximo ano lectivo!

A robustez dos nossos argumentos, a frontalidade com que nos manifestámos e a legitimidade da nossa ameaça de não deixarmos os nossos filhos serem transferidos para uma escola com piores condições acabaram por prevalecer. O poder democraticamente eleito para representar os nossos interesses teve de ceder… para representar os nossos interesses.

Bem equipada, contando com um generoso e cuidado espaço de recreio e apresentando sucesso escolar muito acima da média nacional, ao qual não são indiferentes a excelente atmosfera de trabalho nem o alto nível de interesse e empenhamento mostrado pelos alunos, a nossa escola continuará a ser um dos pilares em que assentará a luta contra o isolamento das nossas crianças.

No mesmo mês em que a imprensa anunciava que o governo de Nova Iorque aprovara um plano para substituir gradualmente os grandes centros escolares (acusados de reproduzir iletrismo e indigência intelectual) por escolas mais pequenas, o governo português anunciava o encerramento de centenas de pequenas escolas e a sua substituição por mega-centros escolares!? Aqui, como no resto, os governantes deste país, orgulhosamente sós, davam-nos os habituais sinais de querer contrariar as tendências seguidas por sociedades mais desenvolvidas – tudo isto regulado pela lei cega que subjaz ao neo-liberalismo selvagem: depauperar o que é público (hospitais, centros de saúde, postos médicos, escolas, universidades), activar o que é privado (centros comerciais, auto-estradas, apartamentos de luxo, clínicas privadas, iates, campos de golfe, hotéis, resorts).

É neste paraíso do novo-riquismo analfabeto que não abdicaremos de lutar para que a Escola da Boa Fé continue a oferecer (como tantas outras escolas rurais) um produto de elevada qualidade, capaz de promover o sucesso escolar e o combate à desertificação do interior.

Para quando um novo 25 de Abril?

A Comissão de Pais e Encarregados de Educação dos Alunos da Eb1 da Boa Fé.

[Consulte a lista das 701 Escolas aqui.]

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4 respostas a “Não deixámos morrer a nossa escola!”

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  2. Nem sei que dizer… começa a não haver palavras para descrever o cinismo deste Ministério (a Milú pelo menos era frontalmente malévola e arrogante). E só de pensar que, quando anunciaram isto, o fizeram como se fosse uma prenda…

  3. Carlos Vidal diz:

    Completamente de acordo com o João Torgal.

  4. Renato Teixeira diz:

    Não consigo escolher. São as duas… lindas.

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