Sr. Pereira, Pacheco Pereira de nome completo (assim consta no “Passeio da Fama” do Castelo do Queijo), então o sr. não sabe, com a sua idade, que não basta espetar um garfinho num bolo de chocolate ou às vezes tomar um cafezinho na Casa de Chá do jardim de Serralves para poder opinar sobre arte, pensamento e cultura contemporâneas??


Casa de Chá, jardim de Serralves. Lugar aprazível, sim senhor, mas cuja frequência sistemática não fornece saberes sobre arte contemporânea. Santa paciência, sr. Pereira, é preciso trabalhar, saber ver, ouvir e pensar. Muito.

Como o sr. Pereira não sabe, eu decido então comemorar este excelente, oportuno e espero bem que definitivo artigo de António Pinto Ribeiro saído no “Público” (edição impressa) do passado dia 13.

Não, nunca é excessivo ler, reler e republicar excertos deste texto de António Pinto Ribeiro, e é o que eu aqui faço, apesar de com Pinto Ribeiro manter antigas discordâncias teóricas (e já falámos os dois sobre isso), sobretudo quanto à adesão do ensaísta em relação a certos pensadores “pós-coloniais” (Spivak, Bhabha, Appadurai…, preferindo eu Said, Jean Fisher ou Glissant: mas lá está o problema – trata-se aqui de uma discussão entre quem conhece os termos e as balizas da coisa, e não cabe aqui nenhum PACHECO, nem o ignorante PEREIRA). Vamos pois ao excelente texto, ainda mais saboroso 3 dias depois; cá vai:

O dr. Pacheco Pereira decidiu fazer na revista Sábado [http://abrupto.blogspot.com/2010/07/coisas-da-sabado-o-culturales-e-o-poder.html –segue esta referência porque não costumo ler a “Sábado”]  um conjunto de comentários sobre a criação artística contemporânea em Portugal. O teor dos comentários indicava essa obsessão que o político tem por controlar tudo o que aparece no espaço público e revelava nos mesmos comentários que o seu mundo de referências culturais para a arte é um mundo decadente.

(…) No programa que tem na SIC, supostamente sobre comunicação social, é constrangedor ouvir o elevado número de lugares-comuns que profere sobre jornalismo, sem apresentar qualquer fundamentação teórica, quer dos cânones das ciências da comunicação, quer das teorias mais recentes sobre comunicação em espaço público.

Muito recentemente, o dr. Pacheco Pereira achou que também tinha algo a dizer sobre como arregimentar as artes em Portugal, em particular sobre todas as actividades artísticas que não conhece. E porquê? Porque se considera a si próprio um legislador de poéticas possíveis e autor de expressões que acha que são de um enorme contributo para a vida intelectual portuguesa, como esse exemplo de uma finura invulgar que é a palavra “culturalês”, que ele criou para aplicar à linguagem utilizada por artistas. E vai daí, e do lugar da sua decadência cultural, tratar de opinar sobre o discurso das artes performativas em Portugal. Ao comentar como comentou um conjunto de grupos e de espectáculos o dr. Pacheco Pereira demonstrou o desconhecimento que manifesta em tudo o que diz respeito à cultura e à arte contemporâneas.

Pese embora não ver os espectáculos sobre cujos anúncios e o conteúdo se pronuncia, e pese embora, como o afirmou, ver filmes em casa, em DVD, do mesmo modo que alguém pode dizer que viu a Gioconda num calendário, o dr. Pacheco desta vez decidiu investir contra os artistas portugueses, porque não entende como estes possam ser subsidiados pelo Estado e pelos contribuintes, quando ele acha ridícula a linguagem por estes utilizada.

(…) A ignorância do dr. Pacheco Pereira é grande no que diz respeito às artes contemporâneas e à evolução que as suas múltiplas formas têm tomado desde as vanguardas da década de 1970. E por isso estranha que se conceba e realize um espectáculo para cinco pessoas. Há espectáculos para cinco, para um, para dez ou para centenas de espectadores e não é pela quantidade de público que se determina a sua qualidade, nem tão-pouco há uma relação directa entre custo e qualidade.

(…)

Não vivera o dr. Pacheco Pereira no seu mundo decadente e politicamente autocentrado e deveria admitir a sua enorme ignorância em muitas matérias, e em arte em especial, e então talvez começar por estudar, ler e voltar a estudar e depois ver espectáculos, e cinema, e ouvir música numa sala de concertos, e gostar ou desgostar, entusiasmar-se ou angustiar-se, emocionar-se, se ainda for capaz, e admitir a estranheza ou exaltar-se com a beleza que pode emergir no mundo de hoje, e então pronunciar-se. De outro modo tudo não passará de uma visão decadente sobre o mundo, revelando uma obscenidade preconceituosa contra a produção artística contemporânea. (António Pinto Ribeiro)

PS: Bravo, António Pinto Ribeiro, e já que o público (números) perturba tanto o sr. Pereira, aqui vos deixo, ao sr. Pereira e aos leitores, uma obra de Hamish Fulton, ou melhor, o local de uma obra do artista, pois a obra, um passeio no deserto, ninguém a viu. E porque é que o artista optou por tal? Ora, sr. Pereira, para não ser incomodado pela ignorância, evidentemente. Já agora, já reparou que um artista nunca pensa no “público”?? Só um energúmeno (não estou a chamá-lo a ninguém em concreto) não sabe que o “público” de Miguel Ângelo não era (não é), de modo algum, o cidadão seu contemporâneo (que o fiscalizaria, etc. e tal).

De resto, queria aqui deixar os nomes dos companheiros do sr. Pereira nesta cruzada contra a arte de hoje; os crónicos apenas: António Barreto (de quem quase todos os alfarrabistas desesperam para despejar stocks de livros a menos de 20$00, vinte escudos, e mesmo assim não saem – há livros deste sociólogo em todos os saldos); Maria Filomena Mónica (conhece tanto a arte contemporânea quanto eu sou fluente em mandarim); Miguel S Tavares (este sr. apenas se dedica à venda de livros, não tem mesmo nada a ver com o caso, está desculpado); Vasco Pulido Valente e Vasco Graça Moura – e peço desculpa, mas estes dois últimos nomes têm uma envergadura e solidez nada relacionável com Barretos, Mónicas e Tavares: a estes dois, Pulido e Moura, por variadíssimas razões, muito admiro.

Ponto final.


HAMISH FULTON. Foto de um “passeio solitário” pelo Popocatepetl (1990).

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