Ainda bem

Por uma vasta quantidade de razões, que não tenciono partilhar agora, nunca me estendi aqui nem em mais lado nenhum sobre o caso Freeport. Interrompo o nojo agora (e vou fechá-lo já a seguir) por um motivo único: conheço pessoalmente, e bem, um dos procuradores do Freeport: fizemos o curso de Direito juntos, de 79 a 84, e somos, e seremos, amigos desde isso; estamos às vezes anos sem nos vermos, e obviamente nunca partilhámos informações sobre os arcanos deste ou de qualquer outro caso que tivesse entre mãos, mas sei dizer dele duas ou mesmo três coisas: que sabe de direito infinitamente mais do que eu (não é difícil), que é um notável servidor da causa pública (discreto, esforçado, consciencioso), e que conseguiu tudo o que profissionalmente conseguiu pelo mérito pessoal e não pelo método da cunha. Achei por isso repugnante que quem vive desta, quem ascende pela mera frequência dos “círculos do poder” e quem engorda sem remorsos de ajustes directos com a administração pública, pudesse ter a supina lata de vir pedir o “despedimento” (sic) de um magistrado probo como este. Também por isso, gostei de ler no DN de hoje este período certeiro:

Agora, os socráticos do costume (mal) acompanhados por eternos enamorados pelo politicamente correcto decretaram que o despacho dos procuradores do inquérito está ferido de “deslealdade”. Esquecem-se de que esses procuradores são magistrados e não meros paus-mandados, amestrados para serem mudos espectadores da ruína do seu trabalho e compelidos a uma cumplicidade em nome de coisas menores – não o foram com Lopes da Mota e não o quiseram ser agora. Ainda bem.

Eu diria mesmo mais: ainda bem que ainda existe gente assim.

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SEXTA | António Figueira
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