Vida, arte, sociedade e sagrado (uma introdução ainda dispersa)


BARNETT NEWMAN. das Stations of the Cross.

Interpelou-me várias vezes o Bruno Dias, caro companheiro de visões radicalizadas do mundo, sobre o meu post “Catalunha, NÃO, Tauromaquia, SIM” (foi do Bruno a única interpelação de jeito e com argumentos a esse texto: o resto foi bandalheira e eu à bandalheira e palhaçada respondo com bandalheira maior: não aprecio frustrados requentados, requentados frustrados).

O Bruno, muito correctamente alicerçou-se em axiomas de Badiou que consideram a revolução/emancipação como algo lógico – vejam-se os elogios, ou a ligação, de Badiou aos matemáticos resistentes na II Guerra Mundial Lauptman e Cavaillès (no “Compêndio de Metapolítica”, por exemplo). A tese e o elogio de Badiou era simples: a participação dos dois filósofos-matemáticos na Resistência não vinha da reflexão, mas da lógica, e a matemática fê-los desse modo proceder.

Da violência sacrificial, passámos para a violência e talvez parecesse, ao Bruno pelo menos, que eu defendia a violência por si mesma. Gratuitamente. A questão impõe-se: a violência, em si mesma, é “boa”? É, quando necessária. E a minha relação entre política e violência acorda nesta síntese: só é possível um projecto, qualquer que ele seja, de emancipação (bom, “qq que ele seja” está errado, porque ou é emancipação ou não é, claro) quando for superado o dogma da democracia – que existe para que tudo se mantenha. Aqui, suponho que estamos de acordo.

Quanto à violência sacrificial e ao sagrado (vou ser sintético e não me vou desviar muito do comentário que deixei ao Bruno na caixa do referido post), caro Bruno, parece-me que confundes o mundo da “Sagração da Primavera” com a própria obra. Explica lá a coisa de seguida. Depois referias a minha participação no Congresso Marx, em 2008, na Nova, onde defendi uma arte da FORMA contra uma arte do SAGRADO. Vejamos agora o contexto dessa minha comunicação.


BARNETT NEWMAN. das Stations of the Cross.

Quando no Congresso Marx, critiquei a ressacralização da arte, vi como ela erradamente se processava, e o quanto de oportunismo aí se alojava. Eu explico. Tinha estado na grande exposição do Pompidou “Traces du Sacrée”, e vi que a dimensão do sagrado para os comissários abrangia TUDO – o que me pareceu um enorme equívoco: lá aparecia a mística de Malevich (aqui aceito o sagrado, o dele, do autor – Bruno, tu não? Mas aquilo tem um sentido de busca do sagrado, quer falar de arquétipos não racionais e não axiomáticos); a de Mondrian (a ligação à teosofia, que ilumina a sua fase inicial) e Kandinsky (nunca largou o conceito de espiritual); aparecia a ligação surrealismo-loucura, por via de Artaud (e aqui logo a coisa me pareceu demais: a loucura era uma forma de sagrado!?); o “teatro pobre” de Grotowsky, mais Kantor, ainda toda a história da performance, de Acconci, Fluxus a Abramovic (é forçada a sua colocação no sagrado, Fluxus por vezes, Acconci quase nunca porque até lhe apareceu a investigação sobre o vídeo de permeio), o Living Theatre, o Accionismo Vienense, o vídeo de Gary Hill ou Shirin Neshat (esta talvez, o primeiro não), ainda Pina Bausch e Aby Warburg na América do Norte, mais a loucura de Nijinsky…. Em suma, forçava-se um alargamento a tudo do sagrado.

Mas aí, mesmo nós os críticos da expo podíamos nela ver vantagens e desvantagens: se tudo era sagrado, então o sagrado não existia (claro).

Por isso, a única atitude teórica que me pareceu interessante foi a que depois propus no Congresso Marx de 2008: a defesa de uma arte que se reivindicava única e exclusivamente da pesquisa FORMAL, o que sempre foi definido pejorativamente como “formalismo” (desde Riegl, passando por Roger Fry ou Bell), que eu tentei equivaler ao entendimento e consciência do medium, ao que os soviéticos revolucionários chamavam “FAKTURA” (sempre alicerçado em Clement Greenberg, que particularizou a questão, para a pintura, na “planitude”).

Mas também aqui, caro Bruno, surgiam alguns problemas: Pollock, por exemplo, o paradigma greenberguiano, tivera ligações estéticas e terapêuticas com a psicanálise de Jung, e lá voltava o “sagrado” de novo (antes da “descoberta” do dripping todo o Pollock reflecte ambições sagradas)

Resumindo hoje aqui ou agora, o meu trabalho e a minha ideia só podia estar ou está “in progress”.

Mas há que distinguir entretanto agora duas coisas: 1) a sacralização da obra de arte, mesmo que nada nela se reporte temática ou processualmente ao sagrado; e 2) uma obra em que o sagrado é central. O monocromo poderia ilustrar a 1ª hipótese, Malevich a segunda hipótese. Mas o próprio monocromo desviou-se para o sagrado: Barnett Newman produziu a série “Stations of the Cross” e Rothko uma capela (onde, no exterior, se encontra o obelisco quebrado de Newman).

Como sair disto?

Vejo, Bruno, que tens respostas. Eu talvez não. (Continua)


ROTHKO Chapell. Houston, Texas.

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