O novo Santos Silva e o ponto dos hábitos suíços

O PSD convenceu-se, há muitos anos, que está condenado a ser governo. Depois do PS vem sempre o PSD. Tão certo como as doenças das vinhas, os chatos ou os dias de tempestade. Esta convicção de andar na direcção dos ventos da história tirou-lhe algum discernimento. A nova direcção dos laranjas passou a dizer em público o que ia mesmo fazer no governo. Não percebeu o maravilhoso exemplo do PS, que sempre que está na oposição é contra o código laboral e sempre que vai para o governo aprova um código laboral ainda pior do que aquele que jurou, por todos os santinhos, recusar. O tenrinho Passos Coelho resolveu mostrar a sua faceta religiosa – deve dizer-se sempre o que se pensa, mesmo que toda a gente perceba que o que se pensa só serve a muito poucos. O líder do PSD é um neoliberal santinho e está profundamente convencido que enriquecer os amigos ricos, tirando dinheiro e condições de vida à maioria dos portugueses, é um favor que faz a todos. Para ele, se despedirmos toda a gente e privatizarmos a saúde, a educação e entregarmos as empresas públicas aos tipos do costume, a economia vai ficar muito melhor.
Na sua profissão de fé arrisca-se a tornar-se o maior propagandista deste governo: uma espécie de Santos Silva de novo tipo. Tanta abnegação, no paleolítico inferior, contribui para fazer parecer Sócrates um tipo moderado. Pior, quem manda em Portugal pode aperceber-se de que é mais útil um líder que pisque à esquerda e vire à direita, do que um tipo sem noções políticas que se arrisca a radicalizar todo o mundo. As sondagens mostram que Passos Coelho se tornou o maior propagandista deste governo.
O mundinho do novo líder do PSD parece tirado de um texto célebre do escritor Nuno Bragança, em que os ricos devem mostrar aos pobres o seu poder e a sua imensa caridade enquanto os deserdados se prostam a seus pés:
“A coisa passou-se num ponto de Hábitos Suíços. O Doutor escreveu no quadro os dados do problema:
«Quando um pobre nos quer lamber as botas, devemos ou não untá-las previamente?
Em caso afirmativo, justifique a resposta.»
Como eu estava sentado ao lado do melhor aluno, decidi aproveitar esse acaso para lhe perscrutar as qualidades racionais: fingindo escrever, olhava de soslaio o ponto dele. Não tardei a ficar completamente absorvido pelo que aquele fedelho magro ia transportando dos miolos para o papel. Lembro-me perfeitamente, era assim:
1.1 Se o pobre me lambe as botas, espera que eu espere isso.
1.2 Se eu untar as botas com nada, o pobre pode pensar que eu sou ou
distraído ou
desconhecedor dos costumes ou
desprezador da miséria.
1.3 Qualquer destes três pensamentos pode fazer zangar o pobre, ou seja, levá-lo a cometer algum pecado.
1.4 Para impedir o pobre de pecar é pois necessário untar as botas que ele vai lamber.
2.1 Se eu untar as botas com qualquer dos produtos com que habitualmente elas se untam, o resultado pode ser idêntico ao de 1.2, com as nefastas consequências de 1.3.
2.2 Visto que devo untar as botas com um produto que me atrevo a chamar não-botoso, há que saber se este deve ser salubre ou insalubre.
2.3 Se o produto foi insalubre, o pobre pode apanhar uma doença e morrer. Ora, não se deve matar pobres, porque cada um deles representa esmolas possíveis, quer dizer Boas Acções. Como dizia o Poeta, «os pobres são os degraus da escada que conduz os ricos ao Céu.»
2.4 O produto deve, portanto, ser salubre, a fim de preservar a saúde dos pobres, a qual é a garantia físico-química da salvação dos ricos.
3.1 Se o produto foi muito salubre, isso pode ter as seguintes consequências:
3.1.1 robustecer demasiadamente o pobre;
3.1.2 atrair um numero excessivo de pobres à lambedela.
3.2 A consequência 3.1.1 é de evitar, porque um pobre muito robusto decide-se a deixar de ser pobre, o que é um mal pela razão apontada em 2.3
A consequência 3.1.2 também é de evitar, pelo mesmo motivo e ainda porque, quando o número de pobres lambedores aumenta muito, a paciência do rico lambido diminui bastante.
3.3 O produto deve, pois, ser moderadamente salubre, até porque a moderação é a principal qualidade a exigir a um pobre.”
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[Nuno Bragança, in A Noite e o Riso, 4ª ed., Dom Quixote, 1995]

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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8 respostas a O novo Santos Silva e o ponto dos hábitos suíços

  1. Nuno, eu substituiria o Santos Silva pelo filho-do-sorja-da-guarda-de Aveiro-agora-metido-a-gestor-de-coisas, esse é que é o grande protector e ‘inspirador’ do bicho…

    De resto é como dixes.

    Numa nota lateral, há um doc. do João Piconay (João Pinto Nogueira) sobre o Nuno Bragança (que é vagamente da família de uma das minhas muitas cunhadas, o João conheço há séculos…) sobre o Nuno Bragança — o Square Tolstoi também é notável — axo que passou no Dox Lxª, prometeram-me o DVD, mas ainda aki não chegou…axo que vou ter que ir a uma FNAC perto de mim.

    http://multimedia.fnac.pt/multimedia/PT/images_produits/PT/ZoomPE/6/7/0/5600320221076.jpg?201006161528

  2. Ah, ia-me esquecendo, o Nuno B, era mais ou menos odiado/desprezado pelos outros “Caganças” todos…

    Como deves calcular, as minhas ‘fontes’ são… directas.

    🙁

  3. Morgada de V. diz:

    È vero e ben trovato.

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  5. koshba diz:

    Este gajo, que esteve casado com uma das doce(logo, é divorciado-para avisar as putas beatas virgens) e casou-se com uma mulata.Talvez, ando a escrever um guião a puxar para o obama e ,criar algo mitológico como o slavador da pátria à guiza do tipo da goldman $sachs que ia para morrer no avião e ,se safou grasas adeus nosso senhor.O Omem Providencial.
    Nuno, já não tenho paciência para com estes filhos da puta.Estes particularmente,os do arco-do-governo, é tudo do piorio e qdo os vejo ,enxergo o xico-esperto,o ladrão,o assassino(as guerras na Sérvia,Iraque,Afeganistão são feitas por estas ‘elites’).

  6. Justiniano diz:

    Caro NRA,
    ” contribui para fazer parecer Sócrates um tipo moderado. Pior, quem manda em Portugal pode aperceber-se de que é mais útil um líder que pisque à esquerda e vire à direita, do que um tipo sem noções políticas que se arrisca a radicalizar todo o mundo.” Sim!
    Mas há uma certa virtude na clareza, especialmente quando “se arrisca a radicalizar todo o mundo”! E repare, caro NRA, que faz parte da história do PSD piscar à direita e virar à esquerda!!
    Um outro dado interessante é que a burguesia feudal sempre apreciou a protecção social do Estado, para si e para todos, não vá dar-se o caso de 1.3!!

  7. Justiniano , estou completamente consigo (e entendo o sentido do comment), todavia “burguesia feudal” só se fôr uma invenção cá muito da terrinha…

    Parece um oxímoro.

    Creio bem que a burguesia se afirmou (nos burgos) a partir de traders e artisans justamente contra o jugo dos nobres que queriam viver de guerrear e cobrar taxas por conta.

    Mas pode ser que eu esteja enganado.

    😉

  8. Justiniano diz:

    Caríssimo antónio, aka james cook alvega, o conceito é um justaponto de características culturais, económicas e políticas que mais tarde poderei desenvolver…mais tarde!!
    Um abraço,

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