FMM Sines, dia 1

Quarta-feira, 28 de Julho: música morna, gentes mornas.

Pouco passava das 18h, quando o responsável máximo da organização do FMM, o Presidente da Câmara Municipal de Sines, Manuel Coelho, fez o seu discurso de abertura do festival. Entre as boas-vindas aos espectadores já presentes, as suas palavras deram ênfase à universalidade do certame, ao seu ecletismo de conteúdos, ao espírito de conrfraternização e à partilha de emoções e de culturas. Para o fim, ficaram os naturais agradecimentos aos parceiros e a referência para o facto do fenómeno da crise ter obrigado à redução do festival, eliminando os dias em Porto Covo, e ter chegado mesmo a pôr em causa a sua realização, o que felizmente não se concretizou. Um bem-haja por isso, pela Câmara de Sines manter viva a chama de um festival de referência no panorama nacional.

Janita Salomé, Vitorino e o Grupo de Cantadores do Redondo

Em termos musicais, a abertura da 12ª edição do Festival de Músicas do Mundo de Sines deu-se em português, com a música tradicional alentejana em franco destaque. Foi completamente a capella, sem portanto qualquer acompanhamento instrumental, que Janita Salomé, Vitorino e o Grupo de Cantadores do Redondo deram início ao seu espectáculo. Num encontro entre o popular e o erudito, entre a música tradicional e a adaptação sonora de textos literários do grande escritor português António Lobo Antunes, os instrumentos foram pouco a pouco sendo introduzidos (piano, acordeão ou percussões), o que levou à saída de palco do grupo vocal alentejano. Neste período, em que houve lugar a uma homenagem ao Trio Odemira e ao Trio Guadiana, à referência a Portugal como “um país de marinheiros” e a uma ode ao vinho, as vocalizações estiveram apenas a cargo dos irmãos Salomé, com o contraste entre o timbre mais límpido e monotónico de Vitorino e o mais aberto e excêntrico de Janita. Na parte final, já depois de um copo no backstage do festival, regresso dos cantadores do Redondo para mais alguns temas, entre os quais a versão de “Traz Outro Amigo Também” de Zeca Afonso, o clássico “Menina estás à Janela” e uma arrepiante ode final ao Alentejo, novamente à capella. Um belo início de festival, em bom português.

Cacique’97

Afro beat feito em Portugal! Saúda-se. Desejava-se. Os Cacique’97, projecto pioneiro em Portugal, por ser o primeiro a dedicar-se exclusivamente ao género musical massificado por Fela Kuti, encaixa-se perfeitamente no espírito de um festival que quer música de qualidade e, já agora, feita em Portugal. O excelente concerto que a banda deu – muito consistente a forma como a grande quantidade de músicos construiu o seu som e o soube adaptar ao público presente – foi um excelente mote para os concertos do castelo, que se esperavam mais animados…

Nat King Cole en Espagnol (EUA / Cuba / Portugal)

Poucos poderiam prever que um norte americano cosmopolita se iria apaixonar pelo ambiente de uma cidade como a de Sines. A verdade é que o FMM, com a sua magia, chamou a si – e à sua terra – um grande músico do Jazz contemporâneo: David Murray. O inesperado aconteceu. O norte americano vive em Sines desde 2000 e decidiu, na edição de 2010, oferecer à orquestra local uma experiência única. Tocar com grandes músicos cubanos, com o próprio David Murray e, sobretudo, com o grande Daniel Melingo, é uma experiência que só alguns se poderão gabar de ter. Tudo em prol de um objectivo comum: homenagear Nat King Cole e a fase em que cantou em Espanhol.

As vocalizações de Milingo, tão grandes quanto o seu carisma e, a espaços, o louco (e muito trabalhado) improviso do saxofone de Murray foram os pontos altos do concerto. Tudo o resto? Longos períodos sem alma, a fazer lembrar genéricos de séries de fim de tarde da RTP2. Mais uma prova de que não são só as boas intenções que constroem bons projectos.

Las Rubias Del Norte

Em disco, a música de Las Rubias del Norte consegue, de forma coerente, fundir vários tipos de música latina: boleros, cha-cha-chas, valsas peruanas, cumbias colombianas. Em palco, rodeadas por excelentes músicos – tecnicamente exemplares e com uma enorme alma pronta a entregar ao público -, as líderes da banda Emily Hurst e Allyssa Lamb desiludiram. Não sabemos se foi por nervosismo ou se é opção estética. O que é certo é que as norte americanas parecem estar a falar uma linguagem muito diferente da dos seus músicos. Ainda para mais a postura distante, quase triste, com que encararam o público tornou a noite mais morna. As aguerridas introduções musicias não foram mercidamente continuadas, complementadas. A música foi castrada pela candura das líderes. O público ficou desiludido.

Céu

Para fechar o primeiro dia de castelo, esteve em destaque a paulista Céu (colaboradora dos Sonantes e de Siba), com a sua combinação entre a música brasileira (bossa-nova e vestígios de samba) e a electrónica (com scratch incluído) e uns pozinhos de reggae, numa espécie de lounge adocicado brasileiro. Ao vivo, entre referências a Martinho da Vila, Siba e a Tony Allen e uma versão para acasalamento de um tema do grandioso Fela Kuti, o destaque do concerto foi para o seu segundo e mais recente disco, “Vagarosa” de 2009, álbum que a consolidou como uma figura importante da nova música brasileira. Depois da frieza perturbadora do concerto das Las Rubias Del Norte e apesar da essência monocórdica do reportório e de esporádicas falhas vocais neste espectáculo, a existência de alguma emoção, alma, calor humano e interacção com o público, até soa inicialmente… a alívio. Só que, lá para o meio do concerto, o alívio passa a ser muito curto para alimentar um corpo ávido de ritmo ou de uma maior espiritualidade…

Nova Lima: NOVALIMAVELHALIMA

O último dos primeiros concertos do Festival de Músicas do Mundo de Sines 2010 foi protagonizado pelos NOVALIMA, grupo de produtores peruanos (embora parcialmente baseados em Londres) que acelerou uma madrugada bem composta na Avenida da Praia. É certo que era uma multidão sedenta de ritmo e acção aquela que recebeu o som afro-peruano-esclavagista dos NOVALIMA, colectivo que já assinou 3 discos (“Novalima”, “Afro” e “Coba Coba”), todos eles com os pés bem assentes na face mais africana da tradição peruana e a cabeça nas salas de dança (ou de estar) do mundo ocidental. Se a proposta musical era simples nos seus termos, constituindo mais um casamento bem sucedido entre a música de dança electrónica e os elementos tradicionais mais pitorescos do perú não andino, ao vivo os NOVALIMA foram mais que um refresco engraçado, revelando que a sua coluna vertebral não é, afinal, digital. De um colectivo de produtores o que se viu em Sines foi pouco, sobressaindo antes e acima de tudo o contributo de músicos de carne e osso para músicas bem estruturadas e que iam deliciando os presentes. Não foi um concertão, foi competente, agradável e surpreendentemente instrumental, com intervenções de cajón (tambor-caixa de madeira produzido a partir de caixa de fruta) e de baixo que ficam arquivadas no dossier das boas recordações de Sines 2010. Cajón & Bass tem pinta, rejuvenesce, mas parece que de revolucionário tem tanto quanto uns Gotan Project.

(textos de Daniel Marques Pinto, João Torgal e José Bernardo Monteiro escritos originalmente para o blog do Artesanato Sonoro, programa de música étnica da Rádio Universidade de Coimbra

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