O grande abraço

Nas águas furtadas do lado esquerdo vivia uma família que a tuberculose havia de levar inteira, duas filhas mais o pai, o qual uma vez decidiu criar um porco no quintal que a casa tinha e era de todos, se calhar porque tinha saudades dos porcos que havia lá na terra donde ele vinha, ou então só por causa da carne, que era a altura da guerra e não davam mais do que uma quarta de toucinho por mês e por pessoa, a verdade é que o quintal ficou um chiqueiro tremendo, com um cheiro que não se podia, mais a bicharada que por causa do bicho havia, e aí os vizinhos quiseram convencer o homem a acabar com aquilo, primeiro foram só uns falar com ele mas depois, como parece que ele nem resposta lhes deu, juntaram-se também outros e combinaram em escrever um abaixo-assinado ao senhorio que a seguir correu e foi em baixo assinado por todos, e muitos eram, quantos moravam junto dessa família que veio a morrer tuberculosa. Todos, não: houve um que em baixo não assinou e esse sei eu quem foi; disse que não tinha nada a ver com o porco do homem e que ninguém tinha, que os vizinhos não são polícias uns dos outros nem têm que andar a fazer queixas ao chulo do senhorio, e que para além disso ele gastava as horas todas a trabalhar e só vinha a casa para comer e dormir, e portanto o cheiro que a casa tivesse tanto se lhe dava que fosse bom como mau. Ele podia ter dito que sem brigas de vizinhos a vida custava menos a viver, e inventado uma filosofia qualquer para disfarçar a sua indiferença, mas nem sequer estava para isso: porque a verdade era mais simples do que qualquer filosofia e a verdade era apenas que ele não estava para se chatear com porras daquelas, e ainda menos para perder tempo a explicar porquê fosse a quem fosse. Quando, as filhas já desaparecidas, chegou para o pai a altura de morrer, este mandou chamar o vizinho que em baixo não assinou às suas águas furtadas do lado esquerdo e aí pediu-lhe um abraço; o vizinho deu-lho e dividiu-se, entre o desagrado que lhe causou a importância descoberta na sua insignificativa abstenção e o agrado de receber de um operário pobre como ele, tuberculoso e moribundo como também ele viria a estar, o último e reconhecido abraço. Disse a quem o quis ouvir: – “No que eu me fui meter!” e mais não disse; e quando quem então o quis ouvir me contou esta história, alguns trinta anos depois e sem lhe dar importância a mais, também eu fiquei dividido sobre o seu verdadeiro alcance: sobre se era só mais uma daquelas histórias do Portugal antigo que em pequeno eu me habituei a ouvir contar, ou se, para além disso, não era uma variação local sobre um tema universal: o que é que torna grande um grande abraço?

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SEXTA | António Figueira
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