Maria Bethânia faz Casa Fernando Pessoa pipocar

Maria Bethânia na Casa Fernando Pessoa

Ontem, pouco depois das duas da tarde, o pianista Rogério Godinho, residente em Alverca, foi um dos primeiros a chegar à Casa Fernando Pessoa (CFP) para ver e ouvir a poesia lusófona cantada e declamada pela brasileira Maria Bethânia. Enquanto a fila de fãs se estendia pela escada afora da CFP, chegando a dobrar-se na esquina da Rua Coelho da Rocha, Rogério mantinha-se aliviado por estar no topo da escada e, supostamente, por ter um lugar garantido na pequena sala auditório da instituição, com capacidade máxima para 80 pessoas. O recital estava marcado para às 17h30 e a porta da sala esteve fechada para o público até 30 minutos antes, afinal Bethânia estava lá a ensaiar com o seu grupo. Na falta de distribuição de bilhetes, a única resposta que se recebia dos funcionários da CFP é que não se sabia a que horas a sala seria aberta.

O evento foi amplamente divulgado em redes sociais, jornais gratuitos, blogues, agenda cultural de Lisboa, entre outros, como apresentação gratuita e aberta ao público. O gratuito, neste caso, não é de se estranhar, porque a CFP tem programado estes eventos regularmente. Em Dezembro do ano passado, o irmão de Bethânia, Caetano Veloso sobrelotou os três pisos da casa-museu ao falar da influência de “Mensagem” no Tropicalismo, e em Janeiro, foi a vez do humorista brasileiro Jô Soares que apresentou o seu CD Remix Pessoa. Mas nada se compara ao que se passou ontem na casa do poeta Fernando Pessoa, com centenas de pessoas insatisfeitas e frustradas por não conseguirem ver e ouvir Bethânia. Sara Martins e Cláudio Silva chegaram à instituição, às 14h30, dividindo assim os primeiros lugares da fila com Rogério Godinho. Eles ainda conseguiram ver Maria Bethânia bem pertinho deles, quando ela passou por eles na escada, mas o entusiasmo de ver a diva de perto foi logo ofuscado pela frustração de perceber que não iam conseguir lugares sentados na sala principal. Uma das autoridades da CFP explicou-lhes que a “comitiva que vinha com a Maria Bethânia, assim como a Imprensa” teriam lugares reservados e só conseguiriam “segurar 21 lugares para o público”, conta Sara Martins. “Dado que isto é gratuito e que foi anunciado como foi, vê-se a confusão que se instala”, completa Sara, ainda sentada num dos degraus da escada, à espera que a porta se abrisse.

Antes que abrissem as portas, chamaram pelo nome pessoas que estavam numa lista de reservas, causando uma grande indignação por parte dos que já estavam nos primeiros lugares. Entre as bocas e os protestos, na fila, havia quem tentasse os argumentos mais insólitos para tentar subir a escada, como uma voz feminina que surgiu do meio da multidão dizendo que era professora de português. As respostas dividiam-se entre “ganda lata que tu tens” e “ah, eu também sou professora de português”.

Quem tinha carteira de jornalista conseguiu chegar ao topo da escada com alguma facilidade, mostrando o “press” que brilhava reluzente entre as caras ansiosas.

Finalmente, a porta abriu-se e a sala principal da CFP encheu-se como se fosse um balão de ar, num sopro só. Todas as cadeiras, cantos e recônditos da sala foram ocupados em menos de cinco minutos. Entre ameaças, de que se os lugares reservados não fossem liberados aos convidados não haveria show, e compressão da porta, ao modo japonês, lá começou a apresentação do recital. Inês Pedrosa, directora da CFP, pediu desculpas pelas dificuldades e limitação de espaço, explicando que a Casa Fernando Pessoa não era uma casa de espectáculos, mas sim uma casa-museu, onde Fernando Pessoa viveu os seus últimos 15 anos. Pedrosa também contou que a ideia daquele recital partiu da própria Maria Bethânia, em Março deste ano, quando a cantora foi homenageada pela CFP, no Rio de Janeiro, recebendo a medalha “Ordem do Desassossego”, por ser uma das maiores divulgadoras da obra de Fernando Pessoa.

Se Rogério Godinho, Sara Martins e Cláudio Silva foram um dos primeiros a chegar e a esperarem pela entrada, sentados nos degraus das escadas da CFP, quando entraram na sala auditório continuaram sentados em degraus, mas contentes por ouvir a doce voz de Bethânia a recitar poemas de Pessoa, trechos de Clarice Lispector, Amália Rodrigues e muitos outros. Todos terminaram o recital a cantar juntos num misto de emoção e catarse “viver e não ter a vergonha de ser feliz/ cantar e cantar e cantar/ a beleza de ser um eterno aprendiz/ eu sei que a vida devia ser bem melhor e será/mas isto não impede que eu repita/ é bonita, é bonita e é bonita”, enquanto todos os pisos continuavam cheios, a porta da casa-museu fechada, e muitas outras pessoas ficaram na rua a ouvir em alto e bom som, do café em frente a Casa Fernando Pessoa, a voz de Bethânia.  A vida às vezes é assim: um caos bonito!

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