Privatização falha

Os apologistas das privatizações, que persistem em propagar o mito do que uma empresa privatizada funciona melhor que uma empresa pública, porque – outro mito – no mercado livre, com competição entre empresas, os serviços serão melhores e os preços para os consumidores mais baixos – o que é diferente dos custos sociais. Para não ir mais longe, o mercado não é livre, segundo o recente Prémio Nobel em Economia, Paul Krugman, porque os os jogadores não arrancaram todos da linha de partida e há uma assimetria de informação, entre outras coisas. Noutra linguagem, não pode agora haver mercado livre, porque devido à tendência do capitalismo para a concentração e centralização de capitais, isto é, o capitalismo monopolista. Ironicamente, o capitalismo, que ideologicamente promove a competição, tende pelos seus mecanismos próprios a diminuir o nível de competição. Que o digam os trabalhadores do 24 horas e do Radio Clube Portugues.

Em todo o caso, quem ainda pregue a solução das privatizações e os mantras neoliberais têm a possibilidade de olhar para o futuro. Há dois países, que pelas mãos enrugadas de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, implementaram o programa neoliberal de privatizar tudo debaixo do sol (& precarizar o trabalho e destruir as estruturas sindicais). Nestes países já vão muito adiantados. Tendo privatizado directamente ou associados empresas privadas para cobrir funções do sistema público raquítico, no caso dos transportes, comunicações, e educação, avançaram para áreas como prisões, segurança, recolha de informação – sempre achei irónico que os visitantes importante a Bagdad eram escoltados da “zona verde” para a cidade, não pelas Forças Armadas dos EUA, mas por empresas privadas; ou que são estas que preparam a comida e lavam os lençóis dos tropas. O Washington Post tem uma nova série chamada Top Secret America onde olha investiga o complexo massivo de segurança que cresceu com a indústria militar, em particular desde a ocupação do Afeganistão e Iraque, sob Bush & Cheney. A série comenta como apesar dos problemas financeiros, este sector privado continua a lucrar, enquanto sectores como a educação continuam a ser exprimidos. [Uma última palavra de preocupação, como o encerramento da Newsweek ilustra, a concentração e rentabilização financeira dos meios de comunicação social privados está a por em risco a existência de uma forma de jornalismo, tão necessário: a reportagem.]

Top Secret: Privatizing Fails

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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