A beleza da ignorância

Eu não sei quanto a vocês, mas eu acho tocante quando alguém manifesta publica e ingenuamente a sua ignorância. Ainda mais tocante é quando essa pessoa em causa é o Pacheco Pereira.

«Olhando para os encontros dos “artistas” que venceram a Ministra encontramos um dos mundos menos conhecidos e escrutinados da vida pública portuguesa. (…) Este mundo funciona em circuito fechado, e desconhece-se que critérios presidem ao seu funcionamento e como são verificados os resultados dessa aplicação do dinheiro dos contribuintes

Este é o primeiro exemplo dessa ignorância, em que Pacheco Pereira mostra o completo desconhecimento de como funcionam os apoios às artes. De facto, os critérios dos apoios são publicados em Diário da República, sendo os resultados dos concursos divulgados publicamente no site da Direcção-Geral das Artes. Adicionalmente, as companhias subsidiadas têm de entregar comprovativos da realização das iniciativas propostas e o seu trabalho é seguido por comissões de acompanhamento regionais. Já para não falar de que estes trabalhos são divulgados nos media, avaliados por críticos independentes especializados e presenciados pelo público interessado. Compare-se este sistema com o financiamento público à agricultura, às pescas, ao empreendedorismo, ao ensino, à saúde, à banca, às fundações, ao futebol, etc, e até se diria que deve ser dos financiamentes públicos mais abertos e escrutinados que existem.

(Mas, é claro que os grandes comentadores portugueses que passam o seu tempo a documentar-se extensivamente sobre a actualidade nova-iorquina dificilmente terão tempo para se informarem sobre a realidade portuguesa.)

Mais comovente ainda é quando o grande comentador dos bancos do jardim de Santo Amaro admite o seu perfeito desconhecimento de todo o panorama artístico português, falando de:

«uma miríade de grupos cuja existência pública é quase ignorada (…) inclui a Ar de Filmes, Barba Azul, Casa Conveniente, Chão de Oliva, Joana Teatro, KARNART C. P. O. A., A Mala Voadora, Mundo Perfeito, O Bando, Plateia, Primeiros Sintomas, Qatrel, Teatro da Garagem, Teatro da Rainha, Teatro do Vestido, Teatro dos Aloés e o Útero»

Neste caso o melhor é o Pacheco Pereira começar por aprender a usar o Google, pois todos estes grupos têm sites e blogues onde divulgam a sua actividade. Veja lá que alguns até usam o financiamento público para divulgarem a sua actividade em anúncios do Ípsilon (um suplemento cultural do jornal Público que o Pacheco Pereira nunca deve ter folheado). Inclusivamente a companhia O Bando é um das mais prestigiadas companhias de teatro portuguesas das últimas décadas (dirigida pelo encenador, condecorado pelo Estado português, João Brites), o Teatro da Rainha é dirigido por Fernando Mora Ramos, uma figura muito conhecida do teatro português que até escreve com frequência artigos de opinião para o jornal Público (este jornal já conhece, não conhece, Pacheco Pereira?)

E, já agora, quase todas as outras companhias já passaram pelos principais palcos do país (e até internacionais), tendo inclusivamente feito temporadas num tal de Teatro Nacional D. Maria II (o Pacheco Pereira nunca deve ter ouvido falar, mas olhe que fica ali muito pertinho do Terreiro do Paço, se quiser um dia dar lá uma saltada).

Finalmente, e o Pacheco Pereira vai-me desculpar mas isto já passa um bocadinho das marcas: será que o conhecido comentador de televisão, rádio, jornais, blogs e podcasts e autor de passagens como «o modus operandi e o pensamento autoritário, burocrático e regulador da ASAE da comunicação social que é hoje a ERC, esta medida é apenas mais uma num caminho de normativização burocrática da liberdade de opinião» ou «ambos eram government sponsored enterprises (GSE) e os nomes não enganam na sua filiação rooseveltiana» é incapaz de decifrar frases como: «criar uma dramaturgia original» ou «todos coexistem sem se misturarem, marcando diferenças e aceitando vizinhanças e influências»? Valha-nos, Santo Amaro! Estará o Pacheco Pereira a gozar connosco ou já leu tantos newspapers e books americanos que para si o português já é uma língua estrangeira?

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

10 Responses to A beleza da ignorância

  1. fernando antolin diz:

    Caro Palinhos, onde posso comprar uns entrolhos como os seus…tenha dó…

  2. João Valente Aguiar diz:

    Num texto mais recente, esse indivíduo diz o seguinte:

    «o único assassinato político que merece ser classificado como tal no Estado Novo foi o de Humberto Delgado, embora haja ainda muitas obscuridades quanto ao que se passou. Houve gente morta pela PIDE, nos campos de concentração, nas cadeias, sob tortura, em confrontos de rua, mas não existem provas de que se tratava de assassinatos deliberados».

    E assim se vai apagando o fascismo português e as suas atrocidades. Assim se vão ocultando os assassinatos cometidos pelo regime fascista do (auto-)denominado Estado Novo. O resto do artigo é uma tentativa de amaciar o fascismo salazarista e marcelista e, ao mesmo tempo, agravar a Primeira República, com o propósito de, mais uma vez, tornar o primeiro em algo mais comestível e aceitável. Uma vergonha!

    Cumprimentos

  3. Antónimo diz:

    Se o post se repete

    Pacheco Pereira não é um ignorante.

    É um corruptor, o maior corruptor da sociedade portuguesa, pela cobertura que todas as suas falácias premeditadas (e direccionadas cirurgicamente) garantem nos órgãos de comunicação social.

    Não trabalha (nem nunca trabalhou verdadeiramente) e vive de minar qualquer ideia de solidariedade. É um percursor de ideias como essas que vêm agora plasmadas na proposta de revisão constitucional. Vive de preparar o povo para o assalto que há-de sofrer e que lhe quebrará a coluna.

    Vive em defesa de um povo de escravos de cerviz vergada e espinha partida, liderado pelos sicários do seu partido.

  4. Eu se fosse a ustedes ia mais devagar…
    É ralmente uma pena que o Pacheco esteja ‘alugado’ a quem está hoje, mas são coisas que acontecem aos melhores e piores de entre nós.
    Conheci o indivíduo em 1972, quando ele veio cá abaixo com outos gajús do Puarto, a Assócia do Técnico ia fechar (polícia/PIDE).
    Na altura o Pacheco era ainsda o ‘historiador da classe operária’.
    Vcs. sabem o que era a UON (União Operária Nacional) ? Eu sei. Ele também sabia, e portanto é por isso que eu sei.

    As ironias geográficas e informáticas são descabidas, eu entendo o papel da ironia [e da violência] na história, and so does he.
    Descabidas, all the same.
    Claro que ninguém está acima, abaixo ou ao lado da crítica dos outros, e que por vezes para uma pessoa se ‘afirmar’ tem que dizer coisas como as que acabei de ler.
    Nevertheless, I would tread lightly, I I were you…

    🙁

  5. Pingback: Tweets that mention cinco dias » A beleza da ignorância -- Topsy.com

  6. Caríssimos

    Curiosamente só leio vozes masculinas e textos politizados. Cheios de floreados, sem ofensa para ninguém.

    Mas, de facto, Jorge Palinhos respondeu no tom que era merecido. E sim, a ironia era necessária e está muito bem aplicada.

    A arte (e os artístas) não deveria ter cor. Cor partidária. Ideologia política.

    Quem escreve estas coisas não sabe o que se passa no convento, porque, como diz o ditado, “só quem está dentro do convento é que sabe o que lá vai dentro”.

    Estou “isenta” para dizer algumas coisas pois não faço parte de nenhuma associação cultural, companhia teatral e afins. E não se pense que concordo com tudo o que se faz artisticamente neste país, porque não concordo, nem gosto.

    Quem escreve este tipo de coisas nunca deve ter tido que contar tostões para pagar as contas do dia a dia, ou de se preocupar se tem que chegue para comer. Nunca ouviu comentários de sorriso irónico ao canto da boca: “Então e além disso que fazes, trabalhas?” ISSO é ser actriz, neste caso concreto.

    Desculpem se não nasci com queda para jogar futebol ou para ser engenheira, ou advogada, ou arquitecta, sim?!

    E não se pense que este tipo de ignorância não é comum. Aqui há uns anos, um actor conhecido da nossa praça, quando entrevistado por uma jornalista do DN, foi confrontado com a seguinte questão: “E o que faz para além disto?” (familiar a questão…). Ele, na sua ingenuidade pensou que ela lhe perguntava que hobbies tinha quando não estava a trabalhar, e respondia que gostava de ir à praia, ao cinema, sair com amigos… A jornalista insistiu. Até ele ter percebido que a dita jornalista, que foi destacada para entrevistar um actor, lhe estava realmente a perguntar: “Vá, agora a sério, o que é que o senhor faz na vida?”

    Ser actor ou bailarino ou cantor ou pintor não significa que se seja um artísta, um criador. São planos diferentes. Mas isso daria outra discussão.

    Pois parece que ser actor não é profissão. E não deve ser de facto pela forma como as coisas são tratadas. Pergunto-me se quem escreveu estes comentários acima sabe sequer como funciona esta profissão a nível legal. Ou melhor… ilegal.

    Já alguma vez receberam a 60 ou a 90 dias? E que me dizem de não ter carteira profissional? E de, apesar de pagarmos impostos como toda a gente (?) não termos direito a subsidio de desemprego, férias, natalidade, etc?

    O “buraco” não são os cortes nos subsídios. O “buraco”, como dizem os brasileiros, é bem mais abaixo. O código nas finanças é o 2010, que engloba várias artes de espectáculo. Agora até já há sítios onde querem que estejamos colectados como prestadores de serviços!

    Um outro actor, também conhecido da nossa praça foi roubado. Foi à polícia apresentar queixa. Qual não foi o seu espanto quando lhe disseram que a profissão de actor não constava. Até as prostitutas têm um código na polícia. Ele respondeu: “Então pode por que sou prostituto, já que a minha profissão não existe.” O polícia achou que ele estava a gracejar. Ah! Estes artístas são uns brincalhões!

    Ficam estas palavras como reflexão. Apenas isso.

    Consola-me saber que daqui a cem anos toda a gente vai continuar a saber quem é Camões ou Pessoa, Almada Negreiros, Saramago… Mas daqui a cem anos ninguém vai saber quem são os Pachecos Pereira desta vida.

  7. Antónimo diz:

    Susana Vitorino, Tirando escrever em jornais (e não como jornalista obrigado a fazer sentido, ser rigoroso, consultar fontes e a descrever a realidade) Pacheco Pereira nunca trabalhou na vida.

    Escreve umas coisas que lhe vão na alma, coisa que muitos aqui fazem no blogue sem acharem (tenho a certeza) que isto é que é um trabalho exautivíssimo. Devem demorar-lhe um par de horas semanais e está a andar. O resto é ler umas coisas e ver como nos intoxica. Não ligue a calaceiros.

  8. Antónimo , o teu problema é que deves ser muito novinho…

    Não tens a menor ideia do que estás a dixer, atoardas e bombardas.

    Sou insuspeito, nunca prezei muito a criatura (nem os gajús do Puarto) mas isso que dizes (“nunca trabalhou na vida”…) só revela infantilismo e decepção.
    Paz à tua alma…

    🙁

  9. Antónimo diz:

    Caro Major,

    Sou já suficentemente velho (para mal dos meus pecados) para me lembrar que qd a alma episodicamente trabalhou como deputado (agora está outra vez de regresso à necessidade de cumprir horários e produzir coisas para o bem comum – que o não faça já é outra questão) quis que os jornalistas fossem para a AR de fatinho três peças, em tecido olho de perdiz ou riscado, e relógio de bolso. Acho que mulheres não entravam de acordo com a proposta da pachecal figura criatura ou lá o que é.

    João Mesquita que foi um dos últimos homens que o jornalismo teve enviou-o de regresso à procedência.

    Neste tempo todo escreveu na juventude ao serviço dos extremismos de influência americana (eu mal começava a usar calções), uns livros de propaganda política.

    Depois foram os do Cunhal que sempre demoram mais tempo a escrever e que saem um por década – apesar do tempo disponível.

    Gente que dá aulas e investiga e vai a conferências e publica outros livros e orienta doutoramentos conseguiu pôr cá fora em pouco tempo as biografias dos 34 reis de Portugal para po Círculo de Leitores, o que mostra que uma boa biografia, sólida (nem todas o são) demora uns três/quatro anos a escrever.

    Entretanto, o gajo assina como historiador (embora não o seja, legitima a coisa) diz que é professor no ISCTE – nunca houvi ninguém citar ou falar das aulas dele – e vai arrastando o doutoramento (Carvalho da Silva acabou o seu há muito tempo, mas não me parece que o tenham convidado para dar aulas).

    Com menos brilho, temos aí o Alberto torcionário, que assina como sociólogo, embora da sociologia só tenha frequentado as aulas. Com o seu amigo Pereira Coutinho (com mais graça e qualidade na escrita), epígonos muito reles do Esteves Cardoso – que ao menos é louco e conservdaor mas boa pessoa.

    Alberto deu umas curtas aulas numa escola tecnológica – o que não dá para assinar como professor – e desde que se alapou à sombra do João Marcelino (um dos piores seres humanos que existem à face da terra) também deixou de trabalhar. Escreve dois artigozinhos por semana e esses nem sequer tentarm mostra um raciocínio falacioso ou tiques de erudição

  10. Conheço muito mal as pessoas que citaste, mas confirmo o que dizes àcerca do Miguel (ele estava em Manchester quando eu andava por Salford, e agora somos relativamente vizinhos).

    Ás vezes falta-lhe assunto, mas noutras tem … lampejos.

    🙂

    Ora olha aqui:

    Não me extingas

    Miguel Esteves Cardoso – 22-07-2010

    Quando uma fotografia bate com um texto, quando condiz, vai além de mostrar – de misturar o dizer com o ilustrar – e passa a reforçar o sentido e o sentimento do que diz.

    Na primeira página do PÚBLICO de anteontem, sob o título “Descoberto primata raro que se temia estar extinto”, via-se uma fotografia confrangedora, de um pequeno primata olhanense, com a expressão mais preocupada em não ser extinto que alguma vez já se viu. Como disse Pedro Homem de Melo na letra de ‘O rapaz da camisola verde’ que Amália cantou, sem saber, ao certo, do que se tratava: “Na minha frente estava um condenado.” Neste caso, o condenado apanhado com flash no meio da ramagem verde, no Sri Lanka – “Negra madeixa ao vento,/Boina maruja ao lado.” – era o lóris-delgado-vermelho.
    Até o nome em latim sugere que foi “visto apenas quatro vezes desde que foi descrito em 1937”: Loris tardigradus nycticeboides.

    Esteve bem o editor fotográfico do PÚBLICO. Que eu visse, só o jornal brasileiro O Globo escolheu aquela fotografia, de longe a mais plangente e cómica. Acompanhava com um texto e um título (http://bit.ly/awgJWl) bons mas longe da perfeição simbiótica do PÚBLICO.

    A fotografia do Loris Night diz: “Não sei por que me perseguem. Não quero ser conhecido. Sei o destino que me espera. Mas não mereço ser extinto assim sem mais nem menos. Que fiz eu para não passar despercebido?”

    Qualquer resposta que não “desculpa lá, nunca mais te chateamos” é inaceitável.

Os comentários estão fechados.