Uma boa notícia? Um novo Caravaggio? Talvez sim (o que seria óptimo para uma obra relativamente escassa)

Surgiu hoje uma notícia curiosa em vários jornais internacionais, ecoando nota do órgão do Vaticano:

O diário L’Osservatore Romano, do Vaticano, informou que uma nova pintura do artista italiano Michelangelo Merisi de Caravaggio foi descoberta em Roma. A pintura O Martírio de São Lourenço (Martirio di San Lorenzo), que pertence à ordem sacerdotal católica dos jesuítas, ainda não tenha sido identificada como uma obra de Caravaggio.

Os especialistas afirmam que algumas análises adicionais serão necessárias para que se possa realmente atribuir a obra ao mestre italiano. Segundo o diário, os especialistas “ficaram fascinados com a obra”.

Permitam-me acrescentar algumas observações sobre o evento e a obra, e adicionar várias pistas de investigação:

1. Apesar de, segundo os dados disponíveis, ter sido ontem, 18 de Julho, a data do dessaparecimento do pintor em 1610, creio que o L’Osservatore Romano, um jornal nestas coisas sério, não se deixaria levar por essa efeméride oportuna ou oportunista, e passar a aventurar-se em atribuições totalmente impossíveis.

2. Pessoalmente, gostaria de ver a obra, e de junto a ela poder observar alguns detalhes: nomeadamente, sabendo que o lombardo não desenhava (não fazia estudos prévios), gostaria de verificar algo que noutras obras é patente – nas passagens entre as zonas de luminosidade e obscuridade (sem gradações intermédias), por vezes, podemos verificar abertura de incisões e pequenos sulcos delimitativos. O que sinaliza um muito peculiar (ou uma negação do) claro-escuro. O de Caravaggio não se destinava a modelar com “realismo”, mas a vincar volumetrias abruptas e abruptamente (e, de certo modo, quanto à luz, este quadro pode a tal corresponder).

3. Saber qual o papel do assunto, o martírio de S. Lourenço, na pintura da época, anterior (há, que me lembre, um belo Ticiano tratando do tema) ou posterior. Entretanto, como Caravaggio não escolhia os seus assuntos de qualquer forma (não se regia apenas pelo acaso das encomendas), há que saber e pensar qual seria o lugar deste martírio e desta figura de S. Lourenço no corpus geral da obra do autor.

4. Um procedimento básico é o de ler, verificar, confirmar se algum escritor ou biógrafo da época, ligado ao lombardo, se refere a tal obra: lendo Giulio Mancini, Baglione, Scanelli, Benedetto Giustiniani, Van Mander, Sandrart ou Bellori, nada encontramos acerca desta obra. O que complica e muito a atribuição. (Claro que, mais recentemente, e dada a descoberta ser destes dias, os catálogos raisonées disponíveis – Walter Friedlander, Mina Gregori, Sybille Ebert-Schifferer ou Sebastian Schutze – igualmente não poderiam mencionar a pintura.)

5. Compositivamente, trata-se de um quadro estranho. É um rectângulo horizontal, onde a perna direita e o braço esquerdo do santo formam uma imperfeita diagonal unindo os cantos superior esquerdo e inferior direito da composição. A figura está demasiadamente comprimida no espaço. Imperícia (impossível em Caravaggio) ou fragmento de um painel mais vasto?

6. Repare-se agora no seguinte detalhe: o braço esquerdo deste S. Lourenço é igual ao braço esquerdo do jovem que, ao centro do Martírio de S. Mateus, segura a mão direita de Mateus derrubado no chão. Pode-se dizer que a citação, em todos os momentos da história da arte, era e é vulgar, mas aqui trata-se de mais do que uma citação: trata-se de uma semelhança, em contextos, narrativas e situações tão diferenciadas, que alguma relação deve existir entre a descoberta de hoje e o Caravaggio. E, por agora, nada mais é possível acrescentar.

Apenas ver (de longe).

A tela  O Martírio de São Lourenço  mostra uma jovem deitada sobre uma mesa envolvida em chamas, com a boca aberta, expressão de dor e a mão estendida ... Foto: AFP
?


CARAVAGGIO. “Martírio de S. Mateus”. 1599-1600.

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5 Responses to Uma boa notícia? Um novo Caravaggio? Talvez sim (o que seria óptimo para uma obra relativamente escassa)

  1. almajecta says:

    esta idade dos especialistas deixa muito a desejar.
    Nem de perto nem de longe, e nas grandes almas da ciência e das letras não dá para fazer fé. Para ti é um regalo para corroborar a tese moderneira do gestualismo expressioneiro e da narratologia altamente conteúdesca em sombra/sombra.

  2. xatoo says:

    que curiosa definição étnica esta de “o Lombardo” (designação oriunda da tribo germânica dos Longobardos, fundadora p/e de Veneza) pq é curioso como afinal uma das mais impressionantes figuras a tratar a mitologia cristã tenha origem numa etnia da Germânia (vidé Tácito na sua obra Germanorum no século I) e não em qualquer outra oriunda do Médio Oriente.
    como relembra o carissimo Almajecta, são obras de arte sacra sombra-sombra, a representar nada de papável, embora apesar de tudo o rapaz Caravaggio tivesse um jeito para enfeitar museus: Nada mais que isso – igrejas são museus

  3. Gosto da maior parte das coisas dele, acho que ele transcende o barroco de onde provém.

    Numa nota marginal, a BBC Four atirou cá p’ra fora com uma mistura entre arty e police work chamada Who Killed Caravaggio? (2010)”.

    Information:
    An investigation into the life and death of the great Baroque artist Caravaggio, who died in 1610 aged only 39 after a life full, of violent incident.

    Art critic Andrew Graham-Dixon travels from Rome to Naples, then to Sicily and Malta, where Caravaggio died four years after being exiled from Rome for killing a man in a street fight.

    Isto aqui não é um w#$%z board, de modo que não vos vou deixar os links (e-bay ou amazon are your friends…), mas creio que não haverá azar em indicar-vos onde estão os screenshots, para quem estiver interessado.

    Aqui, é preciso descomprimir o ficheiro:

    http://www.megaupload.com/?d=RPJ9VDZT

    :-)

  4. Pedro says:

    xatoo, curiosa é a tua observação sobre o lombardo, nunca tinha pensado nisso. E que dizer dos descendentes dos visigodos e dos suevos e dos mouros que aqui na Peninsula Ibérica se fartaram de tratar da mitologia cristã? Alguns, ainda agora. Curioso que não sejam só os descendentes das tribos da Judeia a tratar do assunto:)

  5. almajecta says:

    aquilo é o todo? um fragmento caravaggesco, tá visto que é ciência da contemporânea e em S.J. Fruto da dualidade de sua natureza, sensível aos antagonismos e aos conflitos, atormentada e violenta, fá-lo sentir o mundo a um tempo como instinto e espírito, paixão e conhecimento, como não descobriu ele em sua arte, em seu génio, a unidade deste mundo?
    Porque não compreendeu ele que o génio não é de maneira alguma o silêncio da sensualidade e a ostentação da vontade, de que a arte seria a objectivação pelo espírito, mas a união das duas esferas.

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