À espera de sinais de inteligência

Um tal Lourenço, num blog chamado “complexidade e contradição“, resolveu imitar 90% dos iletrados portugueses, e dizer que:

 

A «cultura», como tudo, não pode ficar refém dos caprichos daqueles que a produzem, tem de existir, em algum momento, um diálogo qualquer com o resto do mundo. A ideia não é acabar de vez com tudo o que não dê lucro, é acabar de vez com tudo o que não agradece a atenção.

 

Eu não sei bem do que fala este tal Lourenço. Será dos apoios estatais à cultura? É que todos os apoios às artes performativas passam pelo crivo de um júri, de que um dos critérios de avaliação é justamente a “comunicação com o público”. Ora espreite aqui, se não acredita.

E diz também:

Uma coisa é uma companhia de teatro que vai representar Beckett a Aljustrel, outra é o «criador» que nunca saiu do Bairro Alto…

Muito bem, é sempre bom citar um dramaturgo estrangeiro morto há menos de vinte anos para mostrar que se é “culto” e não um taxista ou um “taberneiro”.

Mas, porquê Aljustrel?

Será que o Lourenço acha que se pode encenar Beckett em Lisboa sem apoios públicos?

Suponhamos um À espera de Godot numa sala de 100 lugares do Bairro Alto, durante um mês (cerca de 20 apresentações), sempre com a casa cheia, com cada espectador a pagar um bilhete de 10 euros. Ou seja, uma receita máxima de 20 000 euros (isto na remota possibilidade de não haver descontos para estudantes, idosos, escolas e grupos de 10 pessoas).

 

Será que o Lourenço acha que 20 000 euros dão para pagar os direitos de autor, a tradução, o aluguer da sala, a luz da sala, a limpeza e água das casas-de-banho, os quatro actores, o encenador, o figurinista, a costureira, o cenógrafo, o carpinteiro, o técnico de luz, o técnico de som, o compositor, os músicos, o electricista, os produtores e os operadores de máquinas – já para não falar dos materiais para o cenário e guarda-roupa e restante equipamento. E isto durante os dois meses que demora a montar uma peça mais o mês em que ela é apresentada.

Ora faça lá as contas, se a sua “cultura” chegar para tanto.

 

Os apoios do Estado às artes performativas têm apenas dois objectivos: fazer com que cada bilhete custe menos de 100 euros, tal como custam na Broadway e em West End (e mesmo aí as peças demoram, em média, 5 a 10 anos para recuperar o investimento), e permitir que não haja só teatro de revista e imitações de musicais americanos. Aliás, note-se que o grande “empresário de sucesso” da cultura em Portugal, Filipe La Féria, tem cronicamente os salários e pagamentos a fornecedores em atraso.

E, pode citar, mas não sei se alguma vez aproveitou a pechincha que é ir ao teatro em Portugal e viu efectivamente uma representação de uma peça de Beckett. Se não viu, recomendava-lhe. É capaz de gostar, pois nas peças de Beckett são recorrentes as personagens que debitam banalidades que não compreendem e que nem lhes interessam particularmente.

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9 Responses to À espera de sinais de inteligência

  1. Zé_Lucas diz:

    Uma pequena contribuição que desenterrei do meu baú de memórias.

    http://zlfm.blogspot.com/2010/07/sir-humphrey-and-jim-hacker-discuss-art.html

  2. mamene diz:

    A ignorância está cada vez mais atrevida e arisca.Era assim também nas alturas da República de Weimar….

  3. Tinha ideia que o La Feria também recebia algum apoio público, por parte da CMP…. isso para além dos salários em atraso.

  4. Por acaso lendo o blog indicado, creio que percebi que a do Bairro Alto não é sobre teatro, é sobre galerias de arte. E por acaso até acho, sende esse o caso, que o autor do blog tem razão.

  5. LAM diz:

    Se por um lado concordo com o fundamental do post, também não deixa de ser verdade que muitos artistas, integrados em estruturas (aqui talvez mais o teatro e a dança), são autênticos funcionários públicos, vivendo toda uma vida profissional dependentes do estado. Muitos deles até sem vocação ou mínimo talento. (claro que isso haverá em todas as profissões), mas a atribuição ilimitada no tempo de apoios, invariavelmente às mesmas estruturas, favorece o anquilosamento desses casos. E isto, sendo cada vez mais notório, é prejudicial para a defesa do próprio papel dos agentes artísticos e culturais.

  6. Samuel diz:

    Muito bem! Em cheio!
    Sim… já se sabe que há aqui e ali uns espertalhões bem relacionados… mas isso não justifica o constante e pedestre ataque à actividade artística que, exceptuando a pura e mesquinha inveja, não entendo o que possa justificar.

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  8. Antonio Cunha diz:

    Mas porque motivo a peça só fica em cena 1 mês ???????

    Porque não fica 6 meses ?

  9. Gustavo Madeiro diz:

    ” Se a sua cultura chegar” … Que discurso ridiculo para quem defende que ter salários em atraso é uma coisa positiva , ora fique sabendo que eu não me meto em projectos que não posso pagar as minhas dividas , ora se não rende para que fazer ? Porque mesmo pagando aos tecnicos , bailarinos , etc … o primeiro pagamento de todos vai para quem produz .. o resto tem de esperar … ridiculo… e já agora … EM BRODWAY não existe salários em atraso .. informe-se antes de dizer parvoices ..

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