O “conceito” Andanças

Grande parte de nós já ouviu falar do festival “Andanças”, festival de música e de dança tradicional (esquecendo a tenda de baixo, com DJ sets com Bob Sinclair ou Black Eyed Peas, porque, segundo a organização, o público quer, logo não importa se se descaracteriza o festival), e das suas inúmeras virtudes: o espírito de camaradagem, a ecologia (ou a ditadura da ecologia?), o sentido de respnsabilidade, a comunhão entre as pessoas, a partilha, a libertação pela dança, etc. Tudo isso é verdade, mas deve-se muito mais ao público presente do que à lógica organizativa.

Senão vejamos, por trás de isto tudo temos um sentido de poupança de custos invejável: os músicos e dinamizadores de workshops não são pagos  todos os serviços são efectuados por voluntariado, há uma lógica de consumo logístico reduzido ao mínimo, o tratamento à imprensa é inexistente (por exemplo, para qualquer órgão de comunicação social ter acesso à internet tem de pagar ou pedalar numa bicicleta!!??), etc, etc, etc. Perante tudo isto, o que é que se espera, que os preços sejam bastante reduzidos, que haja um sistema de segurança e de controlo diminuto, para que o espírito boa-onda e de abertura seja efectivamente uma realidade (o maravilhoso Festival de Músicas do Mundo de Sines, com preços baratos e um sistema de segurança reduzido ao mínimo indispensável, é a demonstração de que tudo isto é possível).

Puro engano. Tal como o António Neto deixa claro neste post e eu assino por baixo, os preços são um verdadeiro escândalo (sem bilhetes gerais com um preço mais em conta, o preço diário no ano passado era de 20€ – este ano é ainda mais caro). Assim sendo, depois de dois anos em que fui ao Andanças e notei uma enorme discrepância entre os dois lados do festival (a aparência e o lado dissimulado, a riqueza musical, programativa e vivencial  e um certo sentido perverso, capaz de nos causar um nó na garganta), decidi que, mesmo tendo possibilidades de ir gratuitamente (com acreditação de imprensa) e salvo um motivo forte em contrário, não voltarei ao festival.

É que é assim que funciona o capitalismo e o consumismo, quando se mascara de anti-capitalismo e de anti-consumismo, e eu gosto pouco de engodos…

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

64 Responses to O “conceito” Andanças

Os comentários estão fechados.