Da boa música má, ao vivo

Já com a tasca a fechar, a discussão sobre boa- e má- música-boa (1) prosseguiu frente à porta. Um comentador diz que mais fascinante é a boa-música-má. Tem muita razão. Boa-música-má: gordurenta, suja, sem a pretensão de nos fazer urbanos, distintos etc, e afinal com mais vida nos poros e criatividade no espírito que a má-musica-boa. Há que pensar mais nisto. Entretanto:

Omar Souleyman, animador de casamentos e banquetes, Quim Barreiros da Síria, estará esta 3ª, 13 de Julho, na Casa da Música e 5ª, 15 de Julho, no Lux. Isto é boa-música-má, senhores, e há que vê-la para acreditar.

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15 respostas a Da boa música má, ao vivo

  1. psd da boa-fé diz:

    Sim sr., haja alguém com imaginação por estas bandas!!!

    Falar de ‘boa música má’ tem sem dúvida o seu quê de pertinente e ajustado aos tempos que correm, onde a música que os críticos da coisa mediática propagandeiam tem sempre uma qualquer pretensão formal que contrasta com uma quase total ausência de conteúdo: inovação na forma (capaz de criar a adesão massificada que materializa o efeito de ‘moda’ que a indústria musical procura construir à volta dos seus produtos), conteúdo totalmente esterilizado. Enfim, um mero sintoma da ‘sociedade espectacular’.

    Contra esta lógica da ‘música de fachada’ dos Animal Collective e dos National e dos LCD e de tudo o que convence pela aparente inovação da forma, mas jamais pelo conteúdo (ou seja, de tudo o que será esquecido para todo o sempre em menos de 10 anos), resta-nos a fantástica música má. Sem pretensões formais.

    Omar Souleyman, pois claro! E, já agora, as reedições em cd do nosso grande Marco Paulo, à venda no quiosque do aeroporto e lojas equivalentes disfarçadamente ao serviço do mau gosto bom.

    Há muito boa música má à nossa espera. Mas para isso há que esquecer todas as playlists dos ESPECIALISTAS da coisa sonora, quase invariavelmente interessados em colaborar com a indústria musical na criação de novas modas (conhecidas no meio culto por ‘novas tendências’): o ‘Techno de Detroit’, o ‘Drum’n’bass de Londres’, o ‘House francês’ (ou french touch), o ‘pós-rock de Chicago’, o ‘big beat de Brighton’, o ‘trip-hop de Bristol’, o ‘hip-hop de Manchester’, o ‘blá-blá-blá da Toronto’. De todas estas modas-tendências, ficaram de pé meia dúzia de coisas, capazes efectivamente de resistir à irreprimível corrosão do tempo. Porque têm conteúdo, sumo, assunto; ou seja, têm um motivo que transcende o propósito da indústria – que é vender.

    E a boa música má também é assim: tem conteúdo, mesmo que tenha uma forma inconveniente (para os Vítor Belancianos da coisa sonora).

  2. “Contra esta lógica da ‘música de fachada’ dos Animal Collective e dos National e dos LCD”

    “o ‘Techno de Detroit’, o ‘Drum’n’bass de Londres’, o ‘House francês’ (ou french touch), o ‘pós-rock de Chicago’, o ‘big beat de Brighton’, o ‘trip-hop de Bristol’, o ‘hip-hop de Manchester’, o ‘blá-blá-blá da Toronto’”

    E a música pop, saborosamente ou rendilhadamente pop? Não cabe nesse cocktail? Considerar Animal Collective música de fachada é no mínimo delirante…

    Lá estarei na 5ª a ver a “demência” sonora de Omar Souleyman…

  3. JMJ diz:

    Explicai-me, oh oráculo Vianense (sim, Morgada é você), porque gosto tanto desta musica tão má??

    Boa-Fé:
    A verdade é que se olhares com atenção vês que na musica de hoje temos tudo isso que enumeras como desaparecido presente, um pouco por todo o lado, nas mais diversas produções, com os mais diversos fins.

    O “drum’n’bass” está presente no DubStep, que junta elementos do “shoegazing”; O french touch continua no “New Rave”; A atitude “Punk” dos Sex Pistols continua na atitude subsersiva das Chicks on Speed ou em Peaches e MIA; O “new wave” de Nova york é revisitado nos Gossip, nos New Young Pony Club, Yeah Yeah Yeahs e nos The Strokes; O “Disco Sound” é a base de trabalho de James Murphy e da editora Italians Do It Better (Glass Candy e Chromatics); A herança de Giorgio Moroder, os Kraftwerk e a herança do Italo-Disco está nos genes do som minimal nordico de Lindstrom e Todd Terje…

    Faça a seguinte experiência, oiça Jesus and Mary Chain e depois The XX. Veja as diferenças e as semelhanças e poderá perceber como nada nasce por acaso na música.

    Provocação Final, agora para todos:
    O que é que faz desta musica boa-musica-má / má-musica-boa / má-musica-má / boa-musica-boa?

    • Morgada de V. diz:

      É mais uma prova do seu excelente mau-gosto, JMJ.
      Importante a reter, antes que nos julguemos todos uns radicais livres da boa-música-má, é que há sempre um elemento de deuxième degré nestas admissões públicas de bom mau-gosto, uma distância entre nós e o kitsch (par rapport à identificação com a boa-música-boa de que admitidamente gostamos), seja porque são canções antigas (o vintage tem as costas largas), seja porque a coisa é actual mas exótica: o Quim Barreiros sírio vai à Casa da Música, mas o Quim Barreiros autêntico só seria apreciado pelas elites melómanas alternativas na Casa da Música síria. Isto dito, eu gosto mesmo de Trio Odemira.

  4. psd da boa-fé diz:

    Aproveito o facto de ainda não censurarem os meus comentários para deixar-vos com um grande hino (uma pérola-pechincha-grand’achado) à excelente música péssima:

    Abruptum: Obscuritatem Advoco Amplectére Me (cd-1993).

    Porque de grunhidos, roncadelas, escarradelas e tossidelas, de uma bateria gravada no fundo de um poço de 25 metros, de um guitarrista que acabava de pegar na guitarra pela primeira vez na vida e de microfones que em vez de transformarem vibrações sonoras em eléctricas (que é o que se pede a qualquer microfone), transformaram vibrações eléctricas em sonoras, enfim, porque de tudo isto se pode fazer excelente música péssima – bem melhor que esses iogurtes de falsos aromas, aprovados pela ASAE, que são os National, ou esses chocolates sem cacau que são os Animal Collective, ou esses camarões de viveiro do Vietnam a 7 € o quilo no Pingo Doce que são os LCD Soundsystem, ou essas maçãs farinhentas mas sem bicho que eram os Beatles, ou esses pastéis de Belém com recheio meio esbranquiçado (e já não amarelo) que são os Supergrass… OK, fico por aqui.

  5. Morgada de V. diz:

    Pronto, é desta. Censura de comentários (imediata e irrevogável) para o senhor que disse mal dos Beatles.

  6. JMJ diz:

    Concordo plenamente, cara Morgada (seria de esperar outra coisa?)

    Mas quando se levanta a questão da boa-musica-má, penso que é importante percebermos que a musica pop (a mais delirantemente pop) é também ela resultado de trabalho e de talento.

    Eu, e se calha sou só eu, acho que o “Baby, one more time” da Britney Spears (sim, essa “maluca”) é uma das melhores musicas pop dos ultimos 20 anos (melhor, por exemplo, do que quase tudo o que a Madonna fez). O seu produtor, Max Martin (sueco, discipulo de ABBA e do ItaloDisco) afirmou que só os acordes iniciais demoraram mais de 3 meses a acertar. O trabalho de produção é tão ou mais ousado que qualquer coisa que Nigel Godrich. No entanto, OK Computer é o album do século (para alguns) e a Britney Spears é motivo de ridiculo.

    Steve Coogan, enquanto encarnava o Tony Wilson no “24hr party people” afirmou que “O Jazz é o ultimo refúgio dos sem talento”. Acrescento que fazer uma musica de 3 minutos que toque à multidão é muito mais dificil do que fazer boa musica para 5 amigos.

    Isto vai para além do Kitsch e da nostalgia. Boa-musica-má é uma das forças mais primordiais e imparáveis no mundo.

    (para efeitos de discussão, esqueçamo-nos por momentos dos elementos envolventes da industria musical, ok?)

    • Morgada de V. diz:

      Acho que nem daqui a 20 anos poderei estar de acordo com essa apreciação da Britney Spears, JMJ. Não digo que não haja talento (enfim, o grau necessário de talento – boa voz, uma certa dose de carisma, telegenia, etc) & trabalho na música pop, mas talento-talento não é isso: a isso chama-se tourear o público. Encontram-se muitos destes talentos industriosos mesmo em géneros nobres, no jazz, na música clássica e no fado, há por aí imensa fancaria, gente pronta a carregar nos botões certos do público. Olhe a Mariza: todas as noites actua em palcos diferentes, e no entanto todas as noites chora no mesmíssimo compasso do “Ó gente da minha terra” (eu já a vi enxugar lágrimas, a três anos de distância, em dois países diferentes – enfim, para parafrasear a anedota foleira dos alentejanos, nunca mais lhe passa a tristeza). Voz? Check. Presença e carisma? Doses cavalares. Mas isto continua a ser tourear o público – e isso ela faz muitíssimo bem, eu é que prefiro quem enfrente o touro pelos cornos.

  7. psd da boa-fé diz:

    Discutir música concebida pela indústria musical sem poder falar da indústria musical é algo assim como discutir a alimentação moderna sem poder falar da agricultura química-intensiva: poderíamos explicar o que (não) andamos a comer sem perceber as condições em que esse lixo foi fabricado? O JMJ sim; mas quem não seja tolo, inepto nem alienado experimentará seguramente algumas dificuldades…

    (ps: Miss Morgada, retiro imediatamente o que disse, nesta ou numa vida passada, sobre os fabulosos Beatles e acrescento mesmo: não são maçãs farinhentas sem bicho, mas biscoitinhos encantadores, um tanto doces mas na justa medida, segundo o paladar refinado da aristocracia britânica, assim como as Coríntias da Triunfo quando a Triunfo era mesmo Triunfo)

    • Morgada de V. diz:

      Sim, mas são os meus biscoitinhos, psd, o que tem precedência sobre qualquer classificação hortícola ou taxonómica. Agradeço tb que não destrate os meus comentadores preferidos, ou vou ter de o fuzilar.

  8. Raios, PSD da Boa Fé, você está a roubar-me as munições. Isso de Abruptum é segredo de Estado, material nuclear para usar na hora H. De resto, acordo em geral.
    JMJ, percorrendo todas as combinações de 2 a 2 que enumerou, não sei bem onde enquadrar essa coisa da MIA. Para si, suponho, boa música má. Para mim, tentam-me uns ajustes na taxonomia: assim-assim música má? Ainda e sempre preferível à má música boa.
    Morgada, perspicaz as usual. Oxalá as elites melómanas sírias abram os olhos para o nosso Omar-Quim, a bem de nossas exportações ameaçadas pelo câmbio fixo. Eu por cá, tomado pelo dever patriótico de cumprir a quota lusa de páthos, sentencio que o Quim Barreiros sírio é melhor que o nosso.

  9. psd da boa-fé diz:

    Comparar Quim Barreiros ao Omar Souleyman não será um pouco como comparar os Xutos e Pontapés aos Led Zeppelin?

  10. É capaz de ter razão, boa fé. Melhor abreviar o emparelhamento Omar-Quim por aqui. Sabe, é aquele bigode…
    A tasca fechou, o criado já não aceita servir umas cervejas cá fora, vai sair o último autocarro. Tenho de deixar o estatuto estético de Britney Spears para próxima ocasião.

  11. JMJ diz:

    Pois é meus amigos (Morgada e Boa fé), a musica tem destas coisas.

    Quando falo de Britney Spears e da industria musical é para referir que, às vezes, somos mesmo influenciados pela ideia de que o pop-pastilha-elástica-cor-de-rosa (o pop mais pop não há) é só musica má. A ideia de que estamos a ser influenciados pelas maquinas da grande industria (que estamos, mas isso é outra discussão) não deveria ser a base para a nossa apreciação da musica que ouvimos. Veja-se o caso da Rihanna que trouxe para a ribalta uma musica pop fundada no “Dance Hall” Jamaicano, com mais de 40 anos de tradição. É uma descendente directa de Peter Tosh, mas não a reconhecemos como tal. Como vem embalada em plástico para preservar o produto, achamos que é coisa de produção em série.

    O que quero dizer é isto:
    É mais facil reconhecer qualidade ao Omar Souleyman, porque não tem o selo de garantia de uma qualquer multinacional que à Britney Spears, porque esta tem o selo da industria que a fabrica.

    No fundo, é o mesmo que comprar fruta. Se for portuguesa é sempre melhor do que se for espanhola, antes mesmo de a comermos.

    (nota final: Britney, Justin Timberlake ou Nelly Furtado ou qualquer outro nome é indiferente – o que importa é a musica e cada um destes nomes já fez musica muito boa)

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