Da boa música boa e da má música boa

Há dias, fez o João Torgal um elogio aos National que pôs um canto desta tasca, perto da casa de banho, em alvoroço. O Bruno Peixe, em jeito muito educado e jesuítico, contrapôs, sim é bom, mas sobrevalorizado, e não há de passar à história como mais que o ar do seu tempo (como outrora Stone Roses, Radiohead, Strokes). No meio disto, comete-se a imprudência de conjugar na mesma frase História e coisas como Strokes ou LCD Soundsystem, o que me fez saltar a tampa, bem como à Morgada. Dedos em riste, perdigotos a voar, e o bom do Torgal a ouvir, vai lá para fora ter umas desilusões na vida, ganhar cinismo, faz favor, para farejar a boa música boa no mar de má música boa! Do outro lado da tasca, uns beberrões rosnam à distância, parem lá com essa merda, que a gente quer é política! E futebol, acrescentaria. Olé.
Inesperadamente, a Morgada eleva esta dialéctica de taberna boa-música-boa VS má-música-boa a avanço civilizacional à escala das categorias de Kant. E eis que tenho de corresponder à invectiva.
O que distinque música boa de música má? A classe dominante do bom-gosto legítimo. Música boa, sem prefixo, é música a gostar para sermos urbanos, distintos, cosmopolitas, sedutores. Cultivando-a, elevamo-nos acima dos néscios. Seremos uns miseráveis no trabalho, no trânsito, no apartamento, na conta bancária, no amor, mas na música ao menos seremos elite. Compraz-se nisto a nossa juventude, já que não pode no resto. Problema é que a classe dominante do bom-gosto legítimo está sempre a enganar-se e a comprar gato por lebre. Porque estaria acima disso, se é segmento de mercado a tratar pelo departamento de marketing como todos os outros? Não espanta que tanta música boa seja na verdade tão má.
Eis a minha síntese de taberna. Boa-música-boa é música capaz de sobreviver ao bom-gosto legítimo do seu tempo, música que se ouvirá daqui a décadas como relevante tanto tempo depois, não mera curiosidade arqueológica. Má-música-boa é música que nos faz sentir elite quando só requenta ciclicamente uma lista muito sucinta das mesmas banalidades, anunciadas apaixonadamente como importantes descobertas.
Uma aposta entre milhentas para as duas categorias…
Boa música boa, ou como o sopro do sagrado pode brotar do mofo do profano:

A mais má música boa dos últimos tempos, o cócó mais aromatizado, mais absurdamente louvado, da pop-rock actual:

Não faço juízos quanto a National, não os ouvi com atenção. Estou céptico.
Contra a má música boa, venceremos!
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11 respostas a Da boa música boa e da má música boa

  1. Renato Teixeira diz:

    É sempre importante poder perceber que há má-musica-boa e boa-música-boa. Um bom contributo para a resistência. A islâmica e as outras pois para além de a Morgada achar isso Kantiano, o Vidal provavelmente achará Caravagiano, o Nuno leninista, o Tiago marxista-leninista, o Guedes e o Tiago emancipatório, etc, etc, etc…

    Que a estadia na tasca não seja de pouca dura e que entre outras coisas ajudes a limpar os nossos ouvidos do “cócó aromatizado” que tanto se ouve nos dias que correm. Bem-vindo.

  2. Morgada de V. diz:

    A falta de rigor deste post pode levar os leitores a pensar que eu e o camarada José Borges atacámos solidariamente o camarada Torgal com os nossos dedos em riste e perdigotos, quando na verdade eu tenho o pelouro dos dedos em riste e o camarada a pasta dos perdigotos. Dito isto, e sem me pronunciar sobre o edifício teórico que sustenta as conclusões do post, y compris a classe dominante do bom-gosto legítimo (está muito calor para pensar), queria pedir encarecidamente ao camarada que não voltasse a envolver os Radiohead em enumerações que incluam Stone Roses e Strokes sem o acordo expresso do Thom Yorke e a minha rubrica aposta em exemplares triplicados.
    Contra a péssima música boa, a má música boa e a música boa assim-assim, marchar, etc.
    Bem-vindo à guerra.
    m.

  3. agent diz:

    Portanto: TODAS as listas (de várias publicações e sites da especialidade) dos melhores discos da década passada estão erradas ou estão camufladas em listas de má música boa.
    Foi uma década de equívocos ou a história do rock foi sepultada com o OK Computer. Deve ter sido qualquer coisa assim.

  4. O “Third” foi efectivamente óptimo e uma reinvenção íncrível (apesar de bem difícil) do trabalho dos Portishead, tal como aconteceu recentemente no ano passado com “Embryonic” dos Flaming Lips.

    Quanto aos LCD Soundsystem ou aos Strokes (dois primeiros discos), talvez seja má música boa, que se tornará efectivamente boa música boa quando a ouvires com atenção e te voltares a habituar a ouvir música pop 🙂

  5. JMJ diz:

    Até achei piada ao titulo, mas depois de ler que alguém considera o Sr. James Murphy como capaz de má-musica-boa, achei que a sustentação teórica seria sempre ultrapassada pela prática.

    “Não há prática revolucionária, sem teoria revolucionária”, dizia um amigo meu, citando alguém que já morreu, mas sinceramente, nisto da música teoriza-se demais para a prática que a maioria tem. Um outro amigo meu, citando uma outra pessoa que provavelmente também já morreu, dizia que “falar sobre musica é como dançar sobre arquitectura”.

    Alguém muito inteligente disse uma vez (ok, fui eu, na passada 6ª feira, no Lux) que às vezes, o problema com os trabalhos de James Murphy é que o homem sabe tanto de música que nos perdemos no meio do seu conhecimento enciclopédico. O homem está para a musica de dança, como o Vitor Dias para o PREC. Outros leram sobre o assunto, enquanto que ele esteve lá.

    “Anyway”, como dizia o meu tio John, emigrante nos EUA, o debate má-musica-boa e boa-musica-boa é interessante, mas fascinante mesmo é a dialéctica do boa-musica-má e má-musica-boa.

    Ou seja, será melhor um “http://www.youtube.com/watch?v=7CMzH18IjHA” ou “http://www.youtube.com/watch?v=acULghgYUg0”?

    Where’s the genius in all of this?
    Comecemos por aqui: “http://www.youtube.com/watch?v=ON1eRJtoOrg”

  6. psd da boa-fé diz:

    Agent
    (secreto [de carne de porco temperada com massa de pimentão do Lidl, cheia de corantes, edulcorantes, espessantes e conservantes]),

    Diz-me lá, óh meu, o que são “várias publicações e sites da ESPECIALIDADE”? Que respeito te merecem os ESPECIALISTAS (da coisa musical, estética, política, económica…)?

    Diz-nos que aquiescências e pareceres técnicos, mediaticamente certificados por ESPECIALISTAS, consomes e dir-te-ei que lixo guardas na prateleira dos cds ou na memória de grilo do teu computador…

    Áh, juventude hodierna, paciente, acrítica, moribunda, já quase inerte (acaso ainda respiras?) que desperdiçaste a frescura dos teus melhores anos no lixo aromatizado da década que ora finda!

    Áh, Natureza imprudente que dotaste de intuição sensível esta juventude apática e estéril (pode chamar-se a isto ‘juventude’?) dos iogurtes e da música igualmente aromatizados, dos tomates de estufa e do cinema-produzido-para-vender-pipocas, dos chocolates com menos de 2% de cacau (!?) e das playlists “de várias publicações e sites da especialidade”…

    Como permites, Mãe Natureza, tamanha adulteração da sensação? Como permites que ESPECIALISTAS (neste caso, da coisa musical) deformem os sentidos de toda uma geração?

    Jovens em sintonia com o Zeitgeist, comam os vossos chocolatinhos com menos de 2% de cacau (Raider, Twix, Snickers…), lavem depois os dentinhos com a pasta açucarada (já notaram a contradição: ‘pasta açucarada’? Claro que não!) da Colgate.

    Mas comam de boca fechada e deixem-nos em paz!

    (ps: Agent [secreto de porco à alentejana em restaurante para turista], não te esqueças da perguntinha que te enderecei)

  7. antonio diz:

    Axo que o bandido de uns é o herói de outros, difícil de ajuizar peremptóriamente sem uma pessoa se tornar uma espécie de ditador do gosto, o que pode dar raia depois.

    Eu sei do que gosto, por vezes mostro a outros o que gosto (proselitismo ‘light’) mas também sei que há gostos enraizados de que eu não gosto e que ficarão como estão.

    P.S.

    Fui de Manchester a Bristol com uma colega italiana conhecer/ouvir ao vivo os Portishead e o Tricky, gostei francamente.

    Os LCD dizem-me pouco, mas gostos e côres…

    🙂

  8. José Borges Reis diz:

    Qu’ixagero, ó agent. Vejo que tem gosto para a hipérbole. Nem todas as listas de todos os almanaques são uma aldrabice. Eu diria, assim a olho, uma meia a duas terças partes. É mais fácil descobrir essa parte falsificada. Com LCD não hesito em fazer temerários juízos históricos. A outra parte, da transcendência, está cheia de ambiguidades, hesitações, reavaliações, anos de sedimentação.
    Na forma(ta)ção social do gosto, esta dialéctica de taberna não tem pretensões de alta teoria. Bem gostava, mas o trabalho matinal deixa pouco espaço para a crítica nocturna. Digo o que gosto e o que odeio, e tento universalizá-lo, como os outros, mais autorizados, homologados e profissionalizados. O psd da boa-fé (bem haja!), com a sua listinha ali atrás na posta dos National, parece-me que tem faro. Já o Torgal, precisa de mais artilharia para me convencer.
    Mais fascinante – bem visto, JMJ – é a boa-música-má. Mas essa coisinha dos Travis parece-me que não chega lá. Prefiro esta homenagem a Robbie Williams (http://www.youtube.com/watch?v=iPiD5QSQ9Rs).

  9. Pingback: cinco dias » Da boa música má, ao vivo

  10. Era só para informar telegraficamente que os pontos de vista da Morgada acerca dos National estão a provocar um violento motim entre as amplas massas militantes que, entretanto, aderiram ao CFMV. A direcção do CFMV, sem sabotar o sempre higiénico debate ideológico, procura, a todo o custo, impedir a ocorrência de cisões e a constituição de fracções anti-CFMV, mas, no pé em que as coisas estão, não pode garantir nada.

    Stay tuned.

    • Morgada de V. diz:

      Proponho que acabemos com esses agitadores: contra os heréticos, a fogueira (mas ao de leve, como se faz aos marshmallows) .

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