Tempos houve em que para se ter cartão de fumador e regalias associadas era preciso fumar um maço por dia ou andar lá perto. Pouco a pouco, à traição, as pessoas deixaram de fumar ou tornaram-se fumadores ocasionais (um conceito que continua a parecer-me uma contradição nos termos, assim como ser toxicodependente às sextas ou honesto em part-time), e eu converti-me numa “heavy smoker”, exibição de feira, “a-incrível-mulher-que-acende-uns-nos-outros-e-fuma-como-uma-condenada!”; mas eu não fumo mais agora do que fumava há 20 anos, as pessoas é que fumam menos, cada vez menos, e eu dei por mim a ser a única a investigar as saídas de emergência em sítios fechados, tem varanda, não tem varanda, pode-se abrir uma janela?, ou a escapar-me sozinha de restaurantes para fumar cá fora em pleno Inverno, o que, à força de praticar, fez de mim uma pessoa praticamente imune à hipotermia, embora incapaz de escalar mais do que um lanço de escadas sem recorrer a um transplante de pulmões.
Não tenho ilusões. Nada disto é heróico nem tem mais interesse que as histórias dos ex-combatentes (e eu sou uma combatente no activo, o que é pior). Chateiam-me os fumadores que discutem a mística do tabaco, o ritual (mas qual ritual? Vocês perdem assim tanto tempo a namorar os cigarros?), os que juram que vão deixar de fumar com a cara mais séria deste mundo (eu também tenho de deixar de respirar, um destes dias começo), os que se desculpam com ter as mãos ocupadas, os supostos benefícios para a concentração, o prazer de fumar socialmente, o diabo a quatro. Custa assim tanto admitir que se fuma porque sim? Eu fumo porque sim, e fumo muito – uma medida que pelos padrões actuais se atinge com quaisquer 10 cigarros por dia, ao que isto chegou. Eu não os conto: compro ao volume, alterno com e sem filtro, ando com vários maços na carteira (de 25 cigarros, para poupar espaço), deixo para trás os que já só têm dois ou três – que descubro em alturas de aperto com a mesma alegria com que outros encontram notas de cinco euros no bolso do casaco. É raro ser apanhada sem cigarros, mas acontece, e eu estou grata a todos os fumadores que cravei (vocês sabem quem são) e a todos os não-fumadores que me ajudaram a chegar até aqui. Tive um namorado (não fumador, o que é claramente um defeito) que me comprava e escondia maços pela casa, atrás dos livros, no saco dos sacos de plástico, por cima dos armários da cozinha. Dá muito jeito ter maços suplentes quando se descobre, às três da manhã, que já não há mais na despensa e estão -12° (embora isso nunca me tenha impedido de sair para repor os stocks). Penso muito nesse ex-namorado. Outro dia liguei-lhe, passava uma hora da meia-noite. Ele tem intuição de gaja, o que é claramente uma vantagem, e em vez de me perguntar se eu tinha uma doença incurável ou me mandar passear, disse-me “olá, vai à despensa e procura por trás do whisky” (bebo pouco whisky, o que é um defeito). Foi com igual alívio que descobri este blogue – enfim, com igual alívio é uma hipérbole, digamos que com o alívio de quem descobre que não está sozinha no mundo. Para os que andam nisto há mais tempo que eu (e toda a gente anda nisto há mais tempo que eu), não deve ser novidade a boa prosa que se praticava no Adeus Cianeto de Hidrogénio antes de o mesmo ter morrido de morte natural. Para as outras duas pessoas que chegaram tarde à blogosfera* e ainda fumam como uma morgada, pode ser que tenha interesse (e eu garanto que se lê em menos tempo do que eu demoro a acabar com um maço de Gauloises).
* julgo que serei a primeira a apontar as vantagens de ter chegado à blogosfera depois da festa acabada: certo, já não se encontra um copo limpo, o gelo derreteu como as calotas polares, acabou-se o gin ou a água tónica, a malta mais gira foi para casa, e há gente a dormir em quase todos os sofás; em contrapartida, há sempre posts novos para ler no Memória Inventada.




Morgada, se queres deixar de fumar tens que ir viver para NYC.
Aí há até ruas onde não se pode fumar, e no barco para Ellis Island (por exemplo) no deck de cima, ao ar livre… também não.
Em compensação o alcohol é legal dapertutto.
A meus braços! (oops…)
http://lishbuna.blogspot.com/2010/07/e-pronto-prometo-que-nos-proximos.html
morgada
e ganzas, fumas?
Só tenho conhecido gente porreira, cá fora, à porta dos restaurantes. E as mesmas gajas que noutras circunstâncias me lançariam um olhar gelado presenteiam-me com sorrisos gratificantes, quando me confesso, como elas, um outcast. A proibição tem um lado bom; mas, mesmo assim, com perdão da veemência, puta que pariu os proibicionistas.
eu era mais bastos legère sans filtre mas foram descontinuados há uns anos
Quando a ocasião se proporciona, Ezequiel, sou uma consumidora passiva.
Fumadores do mundo, presidente do CFMV e ex-fumadores porreiros, voltem sempre.
Obviamente, como o nome indica, a questão não é o tamanho, mas, sempre achei bem mais sexy uma Morgada fumar charuto e usar suspensórios.