Meu sotaque: O Complexo de Roberto Leal

Ainda me lembro dos meus primeiros dias em Portugal, inclusive aquele que liguei à operadora de telemóveis TMN, para trocar o meu tarifário por um mais em conta. Depois de passar por todas opções de atendimento automáticas, finalmente passaram-me para um operador. Como de praxe, ele perguntou-me a referência (código) do meu celular. Aquele momento, resumido a frações de segundos, foi decisivo para a morte do meia, de meia dúzia. O operador disse bem resistente, quando eu comecei a dizer o meu número bem devagarinho: nove, meia, meia… Antes que eu chegasse ao segundo “meia” ele disse, firmemente, sem hesitar: SEIS. Apesar de ter tido a confirmação posterior em outras situações, aquela imposição de voz foi suficiente para entender que a expressão “meia”, de meia dúzia, de seis, não era usada por estes lados de cá e que não soava bem no ouvido de alguns.
Mas é o “oi”, de quem diz “o quê?” que causa mais polémica e às vezes até repulsa por partes de algumas pessoas. Há alguns que perguntam, ironicamente: “Por que, no Brasil, vocês indagam com oi?”. Outros, mais jocosos, começam logo a imitar, numa sequência de “oi? oi? oi?” até se desmancharem em gargalhadas. No inicio é difícil entender essa postura, mas depois de muitas conversas, percebe-se que muitos portugueses acham que dizer “oi” é mal-educado e demasiado informal. Isso demonstra como temos códigos culturais diferentes e às vezes conflituantes.
Passei por estas duas situações, entre outras, quando cheguei cá, em Portugal, há quase quatro anos. Neste espaço de tempo, vivi com franceses, italianos e espanhóis. Tive de abrir a boca, articular as palavras e aos poucos meu sotaque foi se modificando. Deixei de falar aqueles negócios de Minas Gerais como “uai”, “trem” e “sô, sá” para me fazer entendida mais rapidamente. Por outro lado, adoptei o “fixe”, o “giro”, o “bué” e eliminei o excesso de gerúndios. Ainda não falo termos como “cú” ou “rabo” para dizer bunda ou “cuecas” para dizer calcinhas (A Wikipédia diz que em Portugal também se diz. É verdade?) . E continuo a tratar todas as pessoas por você (considerado formal), em vez de usar o informal e descontraído “tu”. Às vezes, é verdade, que me sai um “tás bem?” ou “vais não sei o quê?, criando uma grande mistura.

Assim, fui caindo naquilo que tenho chamado de complexo de Roberto Leal, assunto do qual quero falar nesta crónica. Vejamos! Roberto Leal, o loiro do roda roda vira, nasceu numa pequena freguesia de Macedos de Cavaleiros, no Distrito de Bragança. Fez sucesso no Brasil, nos anos 70, com sua música inocente e regional, onde foi e, se calhar, continua a ser o ícone da cultura portuguesa, embora tenha emigrado para o Brasil, aos 11 anos de idade.
Já foi apontando em pesquisas e pela imprensa brasileira, como o português mais conhecido do Brasil, acima de nomes como José Saramago, Fernando Pessoa e até mesmo Pedro Álvares de Cabral.
Lembro-me de vê-lo no “Programa do Gugu“, aos Domingos, e pôr-me de pé para dançar “Arrebita- Bate o pé” à frente da televisão, ou ainda “Vira Vira / Se você sair da roda/ olha que eu saio também”. Na memória colectiva do brasileiro, Roberto Leal é aquele que falava diferente nos programas de TV, que contava histórias de Portugal e nos fazia imaginar aquele país lá na Europa que tinha uma língua parecida com a nossa. Foi considerado um verdadeiro embaixador cultural de Portugal, embora para os portugueses isto soe extremamente ridículo. Mas é verdade ponto final. Infelizmente, Amália Rodrigues não chegou a cumprir este papel no Brasil.
Talvez, em Portugal, alguns não saibam, mas o grupo Mamonas Assassinas, quando cantava “Vira-Vira”, parodiava a música de Roberto Leal, fazendo o sotaque português. Com tanta polémica em volta do nome de Roberto Leal, a pergunta é: Será ele português ou brasileiro?
Do lado de cá do Atlântico (Portugal), Roberto Leal é um renegado, sendo reconhecido por muitos portugueses como brasileiro, inclusive muitos até pensam que ele é de facto brasileiro, com sotaque brasileiro, enquanto para nós, brasileiros, ele é altamente português.
E é neste ponto que chegamos ao complexo de Roberto Leal, que actualmente vivo. Para os brasileiros meu sotaque já é português. Para os portugueses meu sotaque é tão brasileiro que, uma vez, uma jornalista (a brincar, disse ela, é claro) me disse que eu tinha de começar a falar português. Eles acham engraçado meu modo de falar e seguem fazendo graça, sempre que conheço pessoas novas. Alguns se acostumam, outros não. Será meu sotaque brasileiro ou português? Se querem resposta, devo dizer que é híbrido, esquisito e gerado por alguma falta de identidade. Sou estranhada por brasileiros e portugueses. Há um mês fui testemunha num julgamento e a primeira pergunta que o juiz me fez foi se “eu era mesmo brasileira ou se só tinha o sotaque”. Respondendo que era brasileira da gema, pronunciando uma frase inteira, o juiz com um grande sorriso na cara me disse que meu “sotaque já era um pouco português, mas que não enganava a ninguém”.
Vivendo este complexo robertolealista não posso deixar de citar o caso literário, escrito por João Ubaldo Ribeiro, em “Albatroz Azul” (em Portugal, editado pela Nelson de Matos), em que o personagem Nuno Miguel quer voltar para Portugal, para a Beira Alta, para Viseu. Quer levar seu filho Juvenal, já brasileiro, mas decide pelo melhor, como o narrador bem descreve: “O menino, que na fala nada tinha de português, muito menos de beirão, perderia o brasileiro e jamais ganharia o lusitano, vivendo para sempre num limbo de nefastos efeitos em todos os sentidos. Com a fala deturpada pelo resto da existência, o ingresso irrestrito em certos círculos, natural para alguém de elevada posição financial, podia tornar-se muito difícil, senão impossível”.
A minha identificação é directa com Juvenal, um jovem mulato que tem a fala desfigurada pelo convívio com outros sotaques de mesma língua. No entanto, não penso que perdi o brasileiro, e discordo de que jamais ganharei o lusitano. Prefiro dizer que vivo e continuarei a viver o complexo de Roberto Leal, em jeito de metamorfose ambulante.

Cláudia Silva é mineira assim como tantos brasileiros em Portugal e como se não bastasse também é jornalista. Residente em Lisboa desde 2006, escreve sobre cultura para o jornal Público e é integrante do projecto Migalhas. Aqui, neste blogue, Cláudia irá escrever com acordo ortográfico ou sem acordo, conforme lhe apetecer. Este é o seu primeiro post.

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26 respostas a Meu sotaque: O Complexo de Roberto Leal

  1. Morgada de V. diz:

    A mim em São Paulo já me perguntaram se eu era francesa, embora em todos os países francófonos por onde passei o meu sotaque francês (que eu gosto de acreditar que é do mais “soutenu”) não engane ninguém (aquilo a que eu chamo o meu complexo Linda de Suza).
    Oi, Cláudia, bem-vinda! Escreva muito.

  2. Bem-vinda Cláudia.
    A mim, no Rio Grande do Sul, na cidade do Guaíba, Porto Alegre, uma patricinha depois de eu lhe perguntar uma coisa respondeu-me em inglês. Perante a minha insistência que eu era português, disse-me: ‘of course you are’

  3. Tiago Mota Saraiva diz:

    Bem-vinda Cláudia!

  4. augusto diz:

    Cara Claudia Silva o que certamente nunca verá em Portugal é um filme brasileiro , falado em português do Brasil , com legendas.

    O mesmo não se passa com os filmes portugueses, que são exibidos no Brasil

  5. Carlos Fernandes diz:

    O(i)lá Cláudia, post interessante. Brazil, lindas praias, lindas paisagens, lindas mulheres, meu Deus. A proposito de cantores, há um artista portugues, que curiosamente costuma cantar fado, que parece q vai fazer um album de covers do grande Roberto Carlos.

  6. i.tavares diz:

    A mim na Alemanha,já me perguntaram,se era marroquino.E eu com medo.
    Bem-vinda Cláudia.

  7. Renato Teixeira diz:

    Quando se quiser sentir-se por-tu-gue-sa, a receita é fácil e bem conhecida no Brasil: deixe crescer o bigode ou até algum pelo no peito; retire os implantes que isto é um país conservador; deixe a unha do dedo mindinho mais comprida que todas as outras; use um colar de outro com um pequeno crucifixo penta-geracional; jamais engate – isso aqui é coisa de homens; e nunca, mas nunca, sorria demasiado que acima de tudo isto é um país de fados.

    Bem-vinda. Que a sua chegada traga ritmo à tasca.

    (qualquer preconceito neste comentário é pura ilusão de óptica).

    • Marta diz:

      De uma portuguesa sem bigode, sem implantes (não preciso ; ) ), nada conservadora, unhas todas do mesmo tamanho, que odeia ouro amarelo, que gosta de engate e sorri muito e sem vergonha: vai para o caralho.
      Quem está mal que se mude, costumo dizer E BEM na minha terra.
      É que eu não critico brasileiros, sequer os generalizo. Logo, agradeço que o mesmo não aconteça.

      Quanto ao texto, adorei. Não vou fazer grandes comentários, porque simplesmente eu também uso “oi” se achaste que uma pessoa levou isso para a ofensa, não faças como a excelentíssima burreza acima que leva para a generalização.

  8. Luís Teixeira Neves diz:

    O pessoal de Lisboa é mesmo parvo… pouca sorte a sua… mas não há-de ser nada…

  9. Antonio Mira diz:

    Bem vinda à tasca.

    Cá não terás problemas. Não és a pessoa que fala e escreve mais esquisito!

  10. Eva Sousa diz:

    Seja bem vinda, Claudia, e não se preocupe com o sotaque porque essas coisas acontecem com todas as grandes linguas do mundo.
    Ainda bem que escolheu Portugal para viver e trabalhar.

  11. Renato Teixeira diz:

    Libanês.

  12. antonio diz:

    Eu estou ali p’rós lados da Candelária (Rio) a tentar comprar um simples cachorro quente/hot dog numa tasquinha qualquer.. E pedi a coisa no meu portugês normal.
    Estamos nos pagamentos e trocos, o gajú lá me dá a coisa, e depois como achou que eu tinha um sotaque estranho pergunta “Cê é francês ?” . Eu fiquei embasbacado, e ele volta à carga: “Argentino” ?

    A partir daí comecei a falar com o sotaque deles.

    P.S.

    Odeio esse cantor. Por mim ‘cês’ podem ficar lá com ele…
    🙂

  13. psd da boa-fé diz:

    Belo post.

    Escrito em português de Portugal melhor do que o meu (que nasci na – e assim que pude fugi da – cidade dos Dótores banhada pelo Mondego), narra um curioso complexo que também a mim se aplica (depois de viver na Catalunha, Alemanha e finalmente, desde há 5 anos, nesse país agitado, empreendedor e cosmopolita que é o ‘nosso’ Alentejo). No meu caso, será mais um “Complexo Vitorino”.

    Vitorino, para quem não sabe, é aquele músico que, para os lisboetas, é alentejano… e, para os alentejanos, é lisboeta.

    Ora, quando vou a Lisboa (a uma tasca, aos alfarrabistas, à maravilhosa esplanada aérea da ZDB ou à Feira da Ladra), passo sempre por uma alma pacata do campo, que não sabe como é bom andar o ano todo disfarçado com os ténis da moda, com o ‘penteado-à-Simão-Sabrosa’ ou com óculos de sol que ocultam das sobrancelhas até à parte de baixo das bochechas (incluindo testa e orelhas).

    Por outro lado, quando vou à taberna aqui da aldeia, passo pelo estrangeiro de sempre… roto, mal penteado, casado “com a alemã”, que “veio da cidade mas não tem telemóvel”…

    Pois é, sou uma espécie de Vitorino, mas com menos bigode.

  14. Abílio Rosa diz:

    A mim, nos Açores, já me perguntaram se eu era «cubano»….

  15. Marota diz:

    Eva, a Claudia só está em Portugal porque ainda não conseguiu a carte de séjour ou o Aufhenthaltsgenehminung. 😉 Não levem a mal, foi só brincadeira…

  16. Olá! Parabéns Claudinha! Quanto ao assunto, uma vez que este blogue é lido por portugueses e brasileiros, partilho a minha experiência de estágio em São Paulo, no marketing de uma rede de supermercados. Uma vez, liguei para uma loja e eis que a pessoa que me atendeu do outro lado me disse “Fala por-tu-guês, eu não entendo inglês”. Ahahah “mas eu sou portuguesa, homem!”. Noutra vez, num jantar, disseram-me “você fala puxado, é carioca?”. Acho que a experiência de emigração nos coloca o desafio de saber que lugar afinal ocupamos no Mundo. Sentimo-nos mais pequenos, temos de romper com os nossos próprios preconceitos e estereótipos criados no nosso país e enfrentar aqueles que encontramos no país para onde emigrámos. Temos de apelar à humildade. Passado algum tempo, começamos a perguntarmo-nos quem somos afinal? De uma coisa tens a certeza, se nasceste no Brasil, és brasileira. O resto é experiência de vida, que te torna numa pessoa única.

  17. idi na hui diz:

    A mim,na Madeira,dizeram-me que eu era cubano….O q acho mais giro do brasileiro é aquela:gaçaz a deuz qui foi deuz. 🙂

  18. José diz:

    Em Gramado (RS) fui pagar o hotel e ao meu português o recepcionista respondeu-me num puro castelhano com sotaque argentino. Continuei a falar em português e ele a responder-me em castelhano. A minha mulher (gaúcha) veio, falou com ele e o fdp falou com ela em português!
    Quando, depois, em diversos locais do RS falavam comigo em castelhano já nem estranhava… logo eu que nem gosto muito do espanhol!

  19. Retornado de Angola diz:

    Quando se emigrava para o Brasil trabalhar no 25 A, o português de referência era Roberto Leal.

    Numa terra em que a maioria do povo brasileiro nem sabia muito bem apontar no mapa onde ficava o país do dono do botequim da esquina, este para se referenciar ao povão, recorria à figura de Roberto Leal.

    Se há condecorações e titulos atribuidos a emigrantes proeminentes, está na hora de atribuir alguma comenda importante a Roberto Leal.

    Justificação: 1001 motivos.

  20. idi na hui diz:

    Fosca-se,dona Claudiah,mas a Anya Kushchenko é muito melhor que as barazukas.fffffff

  21. Marota diz:

    A mim na Alemanha, já me perguntaram se era sambista; tive que responder que não, a única coisa que sabia dançar era o malhão, até dei uns passinhos para demonstrar os meus dotes.

  22. Marota diz:

    Caramba, quis escrever Aufenthaltsgenehmigung e não Aufhenthaltsgenehmigung

  23. Não se preocupe Marota, a mim isso está-me sempre a acontecer.

  24. Orlando Gonçalves diz:

    Seja então muito bem vinda.

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