Da diferença à igualdade

Num outro post, que vale bem a pena ler, sobre futebol e política, o Pedro Viana põe a discussão em termos de uma equação entre competição, diferença e desigualdade.  No essencial concordo com as premissas do Pedro. Diferença e desigualdade não são sinónimos. A diferença é um facto inegável e inultrapassável do viver dos homens. É aquilo que somos, aquilo de que somos feitos. Sabemos no que pode resultar o desejo de eliminação dessas diferenças, especialmente quando são predicadas em grupos humanos: destruição dos judeus, destruição das populações indígenas, perseguição dos árabes, escravização, etc. A vigilância e o combate a qualquer tentação de eliminação da diferença é um imperativo da esquerda.

Mas o problema de uma política afirmativa não é o da diferença. Justamente porque a diferença é o que somos. O problema é o da produção da igualdade, ou do comunismo, porque essa igualdade é a excepção ao que existe. E o que existe, mais precisamente, é a tradução generalizada das diferenças em desigualdades. Existem muitos dispositivos pelos quais se faz essa tradução. O desporto é justamente um deles. Desde a rua à escola, nos espaços mais distantes do grande capital, o desporto institui hierarquias, uns que são capazes outros que não são, uns que lideram, outros que seguem. O puto que todos querem na equipa e o outro que fica de fora.

É claro que não é o único dispositivo, nem sequer o mais importante – o puto que reprova e que tem sistematicamente más notas é um puto a quem está destinado, em adulto, um lugar na reprodução do capital que se vai habituando a aceitar como seu. Podemos multiplicar os exemplos, não é?

Penso que o desafio está justamente em conseguirmos instituir espaços em que a diferença não tenha quaisquer canais para se traduzir numa relação de superioridade de um homem em relação a outro. Não é fácil, mas bora pensar nisso?

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5 Responses to Da diferença à igualdade

  1. joão viegas says:

    Não tenho tempo mas aplaudo, você esta la quase.

    Até que enfim, temos alguém, de esquerda, que aparenta compreender que as palavras não servem apenas para encher a boca.

    O problema, que não nasceu hoje, é exactamente esse. Igualdade devemos exigir no nosso relacionamento (politico, economico, social) com os outros membros da sociedade, porque essa igualdade (ou justiça) é o cimento da sociedade. Isto implica que as nossas diferenças sejam respeitadas enquanto tais, mas não autoriza que as usemos para reivindicar privilégios (não se trata de impedir “relações de superioridade”, isso é uma forma errada de por a questão, trata-se apenas de não exigir, a pretexto de uma qualquer “superioridade”, muitas vezes suposta, mais do que aquilo que se da, ou seja de não espezinhar o vizinho, apenas isso, o que ja é muito).

    A questão do comunismo (ou seja da comunidade vs propriedade dos bens), ela também bastante antiga, consiste em saber se ele favorece (como pensa a esquerda) ou se pelo contrario impede ou distorce, o acesso aos bens em condições de igualdade.

    E a diferença substancial, o que deve fazer a diferença, é a efectividade. Uma escola acessivel a todos, mas que não da nada a ninguém, contentando-se com devolver as diferenças economicas e sociais que existem à partida, agrava a desigualdade e constitui uma forma de esbulhar os pobres, que a pagam. A missão igualitaria e republicana da escola é fazer com que os menos favorecidos possam aceder às qualificações necessarias para enfrentar a sua vida de cidadãos em condições iguais aos mais favorecidos, pelo menos tendencialmente.

    Em suma, uma lufada de ar fresco.

    Porque, se me permitem um desabafo, mais de metade dos posts deste blogue, são redigidos no pressuposto que existe uma incompatibilidade radical entre a esquerda e a inteligência.

    Ainda bem que ha quem mostra que não é assim.

  2. joão viegas says:

    Pequena correcção, apenas para mehor entendimento do texto.

    “A questão do comunismo (ou seja da comunidade vs propriedade dos bens), ela também bastante antiga, consiste em saber se ele favorece (como pensa a esquerda) ou se pelo contrario impede ou distorce (como defende a direita), o acesso aos bens em condições de igualdade.”

  3. Justiniano says:

    Caríssimo Bruno Peixe, creio que Vcmcê se deixa ofuscar pela aparencia das coisas e elege a contingencia como imanencia. Elaborar acerca de características incidentais não produz, necessariamente, a regra. Mas que o mesmo exemplo pode ser entregue a todas as dimensões da vida e da individualidade, e assim de repente até vejo na invariante do romance e do amor pior produção de tirania, angústia e constringente desigualdade!
    Não poderá, a coisa, ser, simplesmente, impressão ou implicação do autor!?

  4. zé neves says:

    bruno, lamento, mas acho que a tua ignorância volta a fazer das suas. um dos grandes debates históricos (anos 30, 40) em torno do futebol é justamente relativo à impossibilidade de estabelcer hierarquias no seio da equipa. a ideia do jogo colectivo, association, reporta a isso. a crítica do dribbling, em lugar do passe, também, embora aqui tudo seja mais complicado (ele há o dribbling colectivo). ou seja, é evidente que o futebol é um lugar em que se estabelecem hierarquias, mas não se estabelecem naturalmente – o que significa que nem sempre se estabelecessem. o nacionalismo desportivo, por exemplo, é atravessado por uma tensão: por um lado, consagra heróis; por outro, trabalha historicamente no sentido de criar uma comunidade de iguais (nacional, por certo) e por isso é que temos tantas críticas a figuras como o Cristiano Ronaldo. Isto não significa que o que dizes esteja errado, mas que é só parte da verdade.
    abç

  5. viana says:

    “Penso que o desafio está justamente em conseguirmos instituir espaços em que a diferença não tenha quaisquer canais para se traduzir numa relação de superioridade de um homem em relação a outro.”

    Mas isso não é possível sem proibir a expressão da diferença. E tal proibição nem conseguiria atingir completamente os seus objectivos, a não ser que todos os seres humanos fossem transformados em clones dum único exemplar.

    O problema não está em haver quem se assuma superior, e por isso pretenda mais poder, com base na diferença revelada por meio dum qualquer “canal”, como por exemplo um jogo. O problema reside em haver quem aceite essa superioridade. E se a imposição da superioridade é passível de controlo colectivo, tal já é muito mais difícil no que concerne a aceitação da inferioridade. A exclusão dum miúdo da equipa de futebol do bairro ou da escola só é um problema para o miúdo se este aceitar a inferioridade que lhe querem colar. A desigualdade gerada por via das diferenças reveladas pelo jogo resulta antes de mais do ambiente social existente, hostil ao ideal igualitário. O desafio da Esquerda é assim, antes de mais, reabilitar este ideal, tornando socialmente inaceitável o tratamento desigual perante a diferença, por exemplo perante a evidência (nomeadamente revelada pela competição) de diferentes aptidões intelectuais ou físicas.

    Reformulando a última frase do post,

    “Penso que o desafio está justamente em conseguirmos tornar socialmente inaceitável que a diferença se traduza numa relação de superioridade de um homem em relação a outro.”

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