A cabala decifrada

Temo que os meus camaradas se tenham precipitado quando acusaram o Henrique Raposo de ter escrito, and I quote, uma “grunhice racista” lá no blogue do Henrique Raposo. Como alertava o rabino hassídico Afonso Azevedo Neves, único intérprete autorizado dos escritos herméticos do Henrique Raposo, nem tudo o que parece é, e nem tudo o que é, parece. Para chegar à Sabedoria (“hokma” em hebraico, “sophia” em grego, “arandu” em tupi-guarani), mister é aprender a ler e procurar ir para além do entendimento literal ou comum (“peshat” em hebraico, “koiné” em grego, sem equivalente em tupi-guarani). Naturalmente, o cabalista Afonso não está autorizado a revelar  aos não-iniciados o significado oculto nos livros sagrados do Henrique Raposo, e é o que não querem compreender os meus camaradas, em geral bons rapazes mas com demasiado apego ao materialismo histórico para conseguirem ver para além do Verbo do Henrique Raposo, que esconde na verdade tudo o que existe, existiu e há-de um dia existir. Eu, que sou uma pessoa mais espiritual e bastante mais gira, decidi consultar o último cabalista do morgadio, que me autorizou a revelar ao mundo toda a Verdade, nada mais que a Verdade, in accordance with the old “sod” (em hebraico, “mistério”, “significado esotérico expresso na cabala”).
Eis o post em que alguns julgaram ver uma “grunhice racista”:
Para os gentios, entre os quais me incluo, o post diz, literalmente, “Olha, um francês na selecção da França!“. Se aplicarmos agora o acróstico formado pela decomposição da palavra “Dumbass“, que em aramaico quer dizer “Aquele que não lê”, às letras que o post contém, traduzindo o todo primeiro para a língua do Talmude, depois para português contemporâneo, e a seguir para português de blogue, obtemos o seguinte resultado:

À primeira vista, pode parecer uma legenda incongruente para o que parece ser, também à primeira vista, uma foto do Yoann Gourcuff, infelizmente não em tronco nu; mas se convertermos a palavra “Dumbass” em algoritmo, seguindo as instruções rabínicas contidas na Tora, e o aplicarmos aos píxeis hebraicos que compõem a imagem, obtemos o seguinte resultado:  
O significado deste post de 11 de Junho ganha consistência quando o cotejamos com este outro post escrito quatro dias depois, a 15 de Junho:
 
“Queiroz, mete o Deco e o Liedson num avião para Lisboa” também não quer dizer, como poderiam pensar os não-iniciados, “Queiroz, mete o Deco e o Liedson num avião para Lisboa“, mas sim:
Perfeitamente inocente, como vêem, e sem qualquer odor a xenofobia ou a racismo, pese embora talvez com demasiado alho para paladares sensíveis. I bet you feel rather silly now that the truth is out; don’t be afraid to show it.  E já sabem: a próxima vez que quiserem decifrar um post do Henrique Raposo, perguntem ao Queiroz (you know who I mean).
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31 respostas a A cabala decifrada

  1. Bruno Peixe diz:

    Grande Morgada,

    Sinto-me burro que nem uma porta (de forno).

    só espero que o Afonso tenha tirado o pão-de-alho antes da pizza….

  2. Bruno Peixe diz:

    A mim também. Acho que vou passar esta pizza…

    Tem a certeza que é da Iglo? Tem óptimo aspecto. Mas prefiro as da pizza na brasa. Aliás, como sou subjectivamente proleta, gosto mais da massa alta e fofa. Os da armada das repúblicas mortas gostam mais, seguramente, das finas e estaladiças. Aposto que a Morgada também. Uma rapariga pode sair da sua classe, mas a classe não sai de uma rapariga.

  3. Morgada de V. diz:

    É da Iglo, sim, a cabala não engana. Eu gosto de pasta e de risotto, na verdade, também acho que passo.

  4. Está tudo muito bem, com o pequeno senão a temperatura da pizza no forno é de 220º. Mas é perfeitamente natural que uma Morgada não possua tais conhecimentos proletários.

    • Morgada de V. diz:

      Quem não tem esses conhecimentos proletários sobre a temperatura adequada é o Henrique Raposo, e temo que o Afonso Azevedo Neves tenha seguido as instruções à letra. Suponho que nunca saberemos.

  5. António Albuquerque diz:

    E o pior é que é uma mentira, não me lembro de ver nenhum francês na selecção francesa, isso deve ter sido Photoshop.

  6. Morgada de V. diz:

    O António também só vê o significado “peshat” dos posts do Henrique Raposo. O seu comentário é para levar à letra ou quer dizer qq coisa mais profunda? Pray, explain

  7. Antonio Mira diz:

    Desde a minha distância, no reino da névoa, só posso concordar com a análise da Morgada e acrescentar que “As portas giratórias levam orelhas de coelho. Não fazemos puta da ideia do que é uma vaca”. Dissimulem a gravidade das minhas opiniões. Mas há coisas que, por muito tranquilo de natural que um seja, tiram o sentido.

  8. Renato Teixeira diz:

    Yoann e Gourcuff são nomes franceses? Tenho cá para mim, eu que não sou dado a intrigas, que quer o nome próprio quer o apelido terão origens no Norte de África.

    Curioso estes saudosistas que tanta nostalgia têm dos tempos em que se comia croissants em Argel, entre outras coisas, e agora querem renegar os filhos que fizeram com aquelas que lhos serviam à mesa.

    Deviam era por os olhos no Cristiano. Esse, mesmo que não os faça, assume-os.

    http://blogs.lurdes.net/jorgedacosta/wp-content/uploads/2009/12/selec2008.jpg

    Allez! Allez! Allez!

  9. António Albuquerque diz:

    Cara Morgana,

    “O António também só vê o significado “peshat” dos posts do Henrique Raposo. O seu comentário é para levar à letra ou quer dizer qq coisa mais profunda? Pray, explain”

    Eu vejo o significado que verdadeiramente têm (ou melhor, teve esse em especial, não conheço os outros) e que o artigo que a Morgana escreveu expõe de forma irónica. É mais que óbvio que o que queria ser dito era: olha um jogador que, pelo menos pela aparência, pode ser um francês e não um africano a jogar por França. Tentar dar a volta ao texto e “explicar” que não era bem isto que se queria dizer é tentar fazer “marcha atrás” pela coisa não soar bem.

    A diferença aqui é que concordo com a Morgana em que não há outra explicação para a “grunhice racista”, mas concordo completamente com a mesma: a selecção de França tem pouquíssimos franceses, ou nenhuns. O que nos remete para outra conversa onde se vai falar de onde nasceram, ou onde nasceram os pais, ou que língua falam, ou no devido pagamento pelo colonialismo, ou que isto de nacionalidades é uma coisa cívica, ou que “também nós somos imigrantes”, que “isso de raças não existe”, mouros e judeus vão decerto entrar em cena, etc, etc. Nada disso granjeia da minha parte concordância, pelo que nem vale a pena ir por aí, e apenas a maço com a listagem acima para não aparecer nenhum iluminado com um argumento do tipo e que pense “Esta foi bem metida! Que grande argumento que eu tenho, boa!”.

    Os únicos que não se podem dar verdadeiramente ao luxo de não ter nação é exactamente o povo. Pelo desculpa se o meu socialismo vincadamente arreigado à cultura, tradição e (há que dizê-lo) defesa da identidade étnica enquanto valor que faz parte da identidade nacional não agrada, mas também não é esse o meu papel. Com o passar dos anos cada vez mais confundo, nestas questões, o PCP com o BE, no que isso tem de pior.

    http://blogs.lurdes.net/jorgedacosta/wp-content/uploads/2009/12/selec2008.jpg

    Não sei se dá vontade de rir ou de chorar. Selecção francesa, pois sim.

    • Morgada de V. diz:

      António,
      Agradeço-lhe a franqueza. People should call a spade a spade, e o post do HR não engana É aqui que também divergimos: o que o António defende – que não pode haver franceses que não tenham nascido franceses-filhos-de-pais-franceses-e-avós-franceses-e-trisavós-franceses até à enésima geração, todos brancos (suponho que seja a tal da identidade étnica), todos iguais – impossibilitaria na prática a naturalização de qualquer estrangeiro. Só poderia assim naturalizar-se francês (ou português, for that matter) quem, veja bem, já o fosse. A naturalização, tal como a conhecemos, deixaria de existir, e passaria a ser uma espécie de crisma reservado aos adultos, a confirmação das qualidades nacionais adquiridas por obra e graça do nascimento e da filiação. Uma ideia revolucionária, não nego, mas eu, que sou uma conservadora, prefiro a naturalização tal como ela está prevista na lei, e teimo em achar que todos os que se naturalizam (portugueses, franceses, o diabo-a-quatro) devem ser considerados franceses, portugueses ou diabo-a-quatrenses.
      Disse-o noutro post: quem, não tendo tido o azar de nascer português, insiste ainda assim em naturalizar-se, deve sofrer na pele todas as consequências dos seus actos, e passar a ser considerado, para o melhor e o pior, português.
      Não tenho tempo agora, mas acho que essa questão da naturalização e da identidade nacional (que regressa cronicamente com os Mundiais) merece ser desenvolvida. Voltarei à vaca (perdão, pizza) fria.

  10. LOL.
    O que eu acho piada é como alguém perde para aí, sei lá, 30 minutos da vida a escrever um post destes.

  11. ezequiel diz:

    Cara Morgada,

    o António sabe muito bem (presumo eu) que a revolução instituiu um outro conceito de pertença: o do cidadão, não obstante a inegável persistência do critério de pertença étnico-cultural na definição (concreta) da franciucise….

    Os EUA, au contraire, e por razões facilmente compreensiveis, conseguiram instituir a pertença civica (e não a étnica ou cultural) como critério de pertença.

    A inesquecível Arendt. RIP

  12. ezequiel diz:

    oops II (damn)
    🙁
    a revolução instituiU…

    • Morgada de V. diz:

      Já naturalizei o “instituiU” à força, Zeke, tudo ok. Mas não sei se as pessoas sabem assim tão bem o que é a cidadania, talvez precisem de rever a matéria dada.

  13. helder diz:

    Haja alguém que explique o óbvio,
    obrigado Morgada.

    E já agora, o que é a “pizza 4 estações” senão :
    o planeta terra e as 4 raças (em miratejês)?

    E o “da iglo”
    um apelo para que combatamos o aquecimento global e o derretimento das calotas polares ? (em covadamorense)

    • Morgada de V. diz:

      helder, obrigada por ter ido mais longe do que eu fui nas minhas conclusões: impõe-se reabilitar a honra dos autores desses posts, que são ambos “verdes” e colour-blind.

    • Morgada de V. diz:

      Caro João, os meus advogados entrarão em contacto com os seus advogados para discutir a percentagem nas T-shirts: é muito amável (ou mesmo muito MUITO amável), mas amigos, amigos, negócios com cláusulas leoninas à parte.
      anão gigante, faz muito bem, Nigella rules.
      Ricardo, tb fala aramaico? Isto está cheio de gente que percebe a cabala (and you’re too kind, em português do Porto).

  14. Ricardo Noronha diz:

    Brilhante. Ou, em aramaico antigo, “do caralho”.

  15. A senhora Morgada pensa bem. Escreve melhor. Desejo sinceramente que faça muitas outras coisas bem, mas, não sabe cozinhar. Nunca ultrapassará a Nigella nos meus sonhos.

    http://oanaogigante.blogspot.com/2010/06/esta-mulher-e-cozinheira-e-tem-50-anos.html

  16. Ilustre Morgada, toda a actividade a ser desenvolvida pelo CFMV será integralmente “pro bono”. Eventuais proventos decorrentes da venda de merchandising reverterão, na totalidade, para ONGs de imaculada reputação. Estávamos a pensar em coisas do género “Salvemos o Proletariado da Extinção” ou “O Marxismo-Leninismo, Doutrina Já Não Muito Jovem Nem Científica, Mas Ainda Assim…”. Parece-lhe bem?

    • Morgada de V. diz:

      Pro Bono, pro bono… O Bono deu cabo da prossecução de actividades artísticas com fins capitalistas com essa história das ONGs em África. Seja: tudo pelo proletariado, pronto.

  17. O marxista (tendência Groucho) diz:

    Depois do fundador/presidente/sócio honorário João Lisboa, desde já categoricamente afirmo ser o sócio n.º 2 do CFMV – se não sabe cozinhar vamos às bifanas ou, sendo Morgada, ao creme de tartaruga.

  18. antonio diz:

    Excelente post, Morgada de V., muito bem escrito.

    Do que eu me lembro dos meus tempos de Paris (pode estar diferente agora)

    No centro (Quartier Latin, Nation, Montparnasse, Odéon, etc. mal se via um preto). Nas saídas (Porte de Clichy, Porte de Neuilly, etc.) é que eles estavam todos. E falavam todos um francês melhor que o meu…
    😉

  19. António Albuquerque diz:

    Cara Morgana,

    Começo por agradecer a resposta, e reafirmar que concordo com a análise à mensagem referida. Se um comentador anterior ficou desagradado pela extensão da minha resposta, suponho que desta vez faça sepuku.

    Repare contudo que eu não disse exactamente que “só filhos de franceses e netos de franceses” podem ser franceses, embora compreenda que seja natural que das minhas palavras tivesse deduzido isso. Na verdade é mais ou menos natural que entre os vários países hajam movimentos populacionais, em especial em regiões de fronteira (mas não só), que são tanto mais simples de integrar numa nação quanto mais próximos são os países em questão. Numa forma mais ampla esses movimentos dentro da Europa revestem-se de características bastante diferentes do que os que estamos a referir (nomeadamente África). Não que sejam inócuos: a situação no Luxemburgo é insustentável, não é absolutamente nada saudável a quantidade de portugueses que lá está e pensar que todos eles são “tão luxemburgueses” como os, bem, luxemburgueses, é fantasia. E isso é tanto mais verdade para os somalis na Dinamarca.

    Parte do problema prende-se com o tipo e quantidade de migrações que se iniciou no século XX, numa forma que não tem comparação com os séculos anteriores. Além disso existem aqui dois aspectos que são relacionados mas essencialmente diferentes: a Morgana fala de naturalização, o que tem subjacente um processo, discriminatório por natureza (e digo isto porque há que ache simplesmente que até falar em “naturalização” é xenofobia, sendo que o mundo é de todos e sem fronteiras, etc, etc). O que faz toda a diferença são os critérios considerados para se deferir essa “naturalização”: os meus estão ligados a uma visão etno-cultural dos países, outros dão valor supremo à língua, outros ainda às qualificações académicas.

    Sobre este ponto, e respondendo “en passant” ao comentário do Ezequiel, faço notar que – e sem discordar de muito o que disse Arendt sobre o assunto – a ideia de que os EUA ou mesmo o Brasil são exemplos a seguir por causa das políticas de imigração é algo se rasparmos a superfície se revela algo perigoso: sim, de facto os países do Novo Mundo tiveram políticas explícitas de atracção populacional, nomeadamente ao nível do “ius solis”, mas tiveram ao mesmo tempo políticas explícitas, mais ou menos rigorosas e prolongadas sobre quais os imigrantes que queriam; durante a suposta “época de ouro” da imigração para os EUA e o Brasil (~ 1850-1950)ambos os países restringiam a imigração por quotas conforme o país de origem, sendo que a ideia era atrair imigrantes europeus. Isto nos EUA é mais conhecido (cf. As leis de imigrção de 1917 e 1924, esta última incluindo quotas preferenciais para o Norte da Europa em prejuízo do Sul), e não havendo imigração de África o efeito é mais notório dadas as limitações que se fazem aos imigrantes asiáticos. No Brazil existe desde o início uma preocupação em atrair europeus de forma a evitar que este se tornasse “um país de pretos” (parafraseando uma ideia coeva), algo que continua até Getúlio Vargas (que, pasme-se, inclui uma excepção aos portugueses na lei que reduz para zero a imigração, com o motivo se não me falha a memória de “fortalecer a raça”). A Austrália teve leis semelhantes (cf. White Australia Policy).

    Estas políticas de controlo à entrada fazem com que o “ius solis” não possa ser visto de forma isolada, porque na prática restringia-se a entrada, e fazia-se essa restrição tendo em consideração a origem geográfica (e, logo, étnica) dos imigrantes. Se são estes os exemplos de política de imigração que são louváveis, então venha o “ius solis” deste tipo (na verdade acho que já o temas, prenda do Socas).

    Outro exemplo que considero algo perigoso é o dos índios americanos. Sim, foram vítimas de extermínio. Sim, foi-lhes roubada a terra e em muitos casos a identidade. Se a política da altura fosse a de hoje quando algum deles alertasse os outros que com a quantidade de caras-pálidas que lá vinham aquilo não ia acabar bem ia ser imediatamente acusado de racismo e de que “tu também tens um tetravô Apache” e que “somos todos irmãos”. O pesar que tenho pelo triste destino dos índios não me faz desejar o mesmo para o meu povo, numa espécie de etno-masoquismo que tenta expiar pecados coloniais através de uma política de mestiçagem ideologicamente militante.

    Em relação ao conceito de cidadania da Revolução Francesa, lamento informar que não é no nacionalismo jacobino que me revejo. A tentativa, sem resultados, de tentar com que os povos se deixem de ver enquanto povos para adoptarem uma “cultura cívica” que os una sempre deu muito jeito aos imperialistas de antanho (seja “trois couleurs, une drapeau, un empire” ou “Portugal multirracial do Minho a Timor) e aos modernos (onde se inclui por exemplo a China no Tibete). Tentei fazer ver o valor de serem “cidadãos” aos que passaram a vida nas Reservas. É algo patético defender o “direito a identidade e autodeterminação” de alguns, e aos outros reservar como futuro o desaparecimento num lamaçal indistinto.

  20. Gramna diz:

    Mas o que para aqui vai, acho que não tinha visto tanto espaço tipo “opposing view” aqui no 5dias.
    Não concordando com o Albuquerque (será da família do Terrível?!) não deixa de expor argumentos que á primeira vista… acho que até é mais perigoso isto assim.
    Isso do Getulio Vargas não será treta? Nunca ouvi isso antes.

    xoxo

  21. “Depois do fundador/presidente/sócio honorário João Lisboa, desde já categoricamente afirmo ser o sócio n.º 2 do CFMV”

    Já há mais candidaturas em fila de espera no blog-sede do CFMV.

  22. Pingback: cinco dias » O planeta das Repúblicas Mortas e a milícia do 31 da Armada

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